'A violência contra a mulher costuma começar de formas sutis, através do controle'
Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Ainda que o Brasil não tivesse vozes autorais nacionais em concurso com longas no 79° Festival de Cannes, no mês passado, nossa produção audiovisual impressionou o Marché du Film, área de negócios do evento, com projetos ainda em fase de roteiro e com narrativas filmadas, mas em busca de distribuidores, como foi o caso de "A Versão da Lei", de Ninna Fachinello. Nascida em Porto Belo, no litoral de Santa Catarina, há 35 anos, mas radicada no Rio desde o fim da década de 2000, a diretora brilhou no perímetro de escambos e transações comerciais da Croisette, em maio, ao apresentar um retrato jurídico das pelejas das mulheres, num Brasil repleto de feminicídios.
Logo que voltou, teve seu filme adquirido pela distribuidora holandesa Latin Quarter, em meio ao fórum Rio2C 2026, passando a integrar um catálogo voltado para a difusão do cinema latino-americano em telas estrangeiras.
Produzido pela ColetivA DELAS e rodado no Rio, "A Versão da Lei" acompanha Sol (Tati Vilela), uma advogada especializada na defesa de vítimas de violência que vê seus limites éticos serem colocados à prova ao assumir o caso de uma mãe solo ameaçada por um ex-companheiro. Em fase de finalização, com parte da pós-produção realizada pela O2 Filmes, o longa busca ampliar sua circulação por festivais e mercados internacionais.
Realizadora dos curtas-metragens "Irmã" e "Deságua", Ninna fala ao Correio da Manhã sobre a aposta em narrativas femininas de impacto social.
Que mirada o teu filme traz sobre as lutas femininas de hoje - e de sempre?
Ninna Fachinello - A mirada do filme é profundamente feminina. Nós procuramos construir uma narrativa que conversa diretamente com as mulheres, não apenas no campo emocional, mas também no campo da informação e da conscientização. Apresentamos questões que muitas mulheres ainda desconhecem sobre seus direitos, especialmente dentro das relações conjugais. Quando falamos sobre violência contra a mulher, muitas vezes pensamos apenas nos casos mais extremos, como o feminicídio. Mas a violência costuma começar muito antes, de formas mais sutis, através do controle, da dependência financeira, da manipulação e da violação de direitos. Como a maioria dos feminicídios acontece dentro do ambiente familiar ou afetivo, entendemos que era importante abordar essas questões de forma acessível e humana. Ao mesmo tempo, o filme dialoga com uma luta que é de hoje e de sempre: a busca das mulheres por autonomia, respeito e liberdade para decidir os rumos de suas próprias vidas.
O que a passagem pelo Festival de Cannes assegurou para o futuro do projeto?
A passagem por Cannes foi transformadora para o futuro do projeto porque, antes de qualquer resultado concreto, ela ampliou a nossa percepção sobre o que é possível. Iniciamos diversas conversas e negociações internacionais, muitas das quais continuam em andamento. Um dos resultados mais significativos foi o fechamento da parceria com a Latin Quarter, que será a agente internacional de vendas do filme, fortalecendo nossa estratégia de circulação e distribuição no mercado internacional. Cannes também abriu portas para novas conexões que continuaram a ser desenvolvidas posteriormente, inclusive durante o Rio2C. Hoje, estamos concentrados na construção da trajetória internacional, trabalhando para realizar uma estreia relevante em festivais e ampliar nosso alcance em diferentes territórios. Cannes mostrou que o filme tem potencial para dialogar internacionalmente.
O que Tati Vilela trouxe de mais possante para Sol? Que Sol ela acendeu no teu filme?
Tati Vilela é uma atriz que eu acompanho há muitos anos e por quem sempre tive uma enorme admiração profissional. Foi um privilégio contar com ela para interpretar uma personagem tão importante como a Sol. Desde o início, eu buscava para essa personagem uma presença muito específica: alguém que transmitisse força, autoridade e segurança apenas ao entrar em cena. Ela tem uma voz marcante, postura firme e a capacidade de comunicação que passa a sensação de alguém que sabe exatamente o que está fazendo. Sol é uma mulher que dedica a vida a defender outras mulheres. Ela precisa ser forte no trabalho, forte na família e forte diante dos desafios que enfrenta. Ao longo da narrativa, vamos descobrindo suas fragilidades, seus conflitos e tudo aquilo que ela precisa carregar sozinha.
De que maneira, na tua direção, desenha-se um tom de suspense na narrativa?
Embora "A Versão da Lei" seja, essencialmente, um drama sobre mulheres, justiça e relações de poder, eu tinha muito interesse em incorporar elementos de suspense à narrativa. Isso acontece tanto na construção do roteiro quanto na direção. Ao longo do filme, algumas informações, imagens e situações são apresentadas antes que o público compreenda completamente o seu significado. Aos poucos, essas peças vão se conectando e revelando novas camadas da história. Gosto dessa ideia de convidar o espectador a participar ativamente da narrativa, tentando entender como determinados acontecimentos se relacionam e para onde aquela história está caminhando, mas acredito que o principal elemento de suspense vem da própria experiência subjetiva da Sol. Durante o filme, ela está submetida a uma pressão extrema. Existe uma fronteira tênue entre aquilo que ela sonha, aquilo que teme e aquilo que efetivamente acontece. Mais do que criar mistério sobre os acontecimentos externos, o suspense em "A Versão da Lei" nasce da pergunta: até que ponto alguém consegue sustentar o peso de cuidar dos outros sem olhar para si mesma?