Fermento geopolítico

Por crítica filme | O Bolo do Presidente

Do Irã todo mundo espera filme bom, vide "Foi Apenas Um Acidente" (Palma de Ouro de 2025), hoje na MUBI, mas, do Iraque, de lá ninguém sabe que tipo de curta ou longa-metragem esperar. Por conta dos conflitos contra os Estados Unidos, em especial o embate envolvendo o Kwait nos anos 1990, pouco se vê (ou se conhece) da produção audiovisual iraquiana, o que fez da carreira internacional da aventura em tons dramáticos "O Bolo do Presidente" ("The President's Cake") um acontecimento.

Maior achado da Quinzena de Cineastas de Cannes do ano passado, essa produção despontou primeiramente como iguaria e, depois, firmou-se uma certeza de excelência. Coube a ele o cobiçado troféu Caméra d'Or, espécie de Palma para estreantes. Seu diretor, Hasan Hadi, recém-chegado ao formato dos longas-metragens, foi recompensado ainda com a láurea de júri popular da Croisette.

Venceu por uma narrativa que mistura algo do "era uma vez…" típico das fábulas com um neorrealismo de raiz. Faz lembrar "O Balão Branco" (1995), pela sua matriz de heroína infantil, mas não se agarra a eixos etnográficos. Sua protagonista é Lamia (Banin Ahmad Nayef), uma estudante de 9 anos que precisa cumprir a tarefa imposta por sua escola: preparar um bolo.

Não se trata de um bolo qualquer. É o bolo de aniversário para... Saddam Hussein (1937-2006), o então líder de sua pátria. Estamos no início dos anos 1990 e está chegando o dia 28 de abril, data em que o Iraque era obrigado (por lei) a celebrar o aniversário do governante. Em meio a essa comemoração, Lamia, paupérrima, tem que fazer o doce do título (com recheio de creme) para o colégio. Se não o fizer (e bem), cai em desgraça. O problema: cadê a grana para os ovos, o fermento, o leite? Pior ainda: cadê a dignidade do microcosmos da opressão a seu redor? Tais perguntas rendem peripécias e ínguas geopolíticas. (R. F.)