O 'Eu tenho a força!' engasga no patrulhamento

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Duncan (Idris Elba) dá ao Príncipe Adam (Nicholas Galitzine) instruções de combate no divertido (mas esquizofrênico) 'Mestres do Universo'

Inegavelmente divertido, embora prejudicado (lá pelo meio) por uma escolha infeliz de paleta de cores na fotografia e na direção de arte, a adaptação em live action das aventuras animadas de He-Man foi gestada numa esquizofrenia (moralizante), que engessa sua dramaturgia. Nota-se uma aflição para se enxertar o roteiro com tiradas abrasivas (e depreciativas) contra toda e qualquer representação da masculinidade, a começar do empenho para se destroçar figuras paternas.

A própria escolha de nome do herói, que acentua o "ele" (he), é alvo de troça, a se impor uma conexão entre os signos de virilidade com a caricata ideia de machulência que as redes sociais adoram trucidar. O que poderia vir como ironia sutil se descortina em dinâmica expositiva, quase didática, o que torna o deboche - e a desconstrução de um símbolo infantil da Era Ploc, os anos 1980 - artificial.

Essa toda esquizofrênica de aversão ao fálico avança pela figura do Esqueleto, que na atuação do oscarizado Jared Leto (de "Clube de Compras Dallas"), oscila entre dois diapasões: ora parece um ser do Mal de proporções épicas, ora soa como um daqueles vilões dos Trapalhões vividos por Carlos Kurt. É mais uma sequela da necessidade que a longa-metragem tem de ser politicamente ativa (ativista até) nas pautas do Contemporâneo.

O problema é o pavimento que se encontra ali. "Masters of the Universe" (o título original da superprodução, orçada em cerca de US$ 170 milhões) é uma linha de bonecos, que a Mattel pôs à venda em 1982, a explorar os signos da ficção capa & espada, tipo bárbaros vs. magos. A estrutura dramatúrgica que calçou aquelas action figures (brinquedos) só nasceu em 1983, na série de desenhos da Filmation. Em 130 episódios, lançados até 1985, o seriado mapeou o mundo de Etérnia, com suas feitiçarias, sua monarquia paradoxalmente democrática e seu inimigo jurado, o tal Esqueleto (agora dublado por Luiz Carlos Persy). Na TV, essa realidade paralela ganhou vida pelas leis da mais lúdica fantasia, num maniqueísmo que se apoiava num colorido vivíssimo, a fim de pintar aquele planeta como um Éden estelar. Até o Castelo da Serpente, o QG do esquelético ferrabrás, era multicor. Tudo o que se vivia, capítulo a capítulo, num dinamismo procedural (o jargão para tramas que abrem e se fecham num episódio, sem continuar no seguinte), guiava-se por uma estrutura esópica de "moral da história". Ao fim das correrias, He-Man "quebrava a quarta parede" (isto é, falava diretamente com o público da poltrona) e dava uma lição, numa linha pedagógica do "isto é certo", "isto é errado".

O patrulhamento que assombra o filme "Mestres do Universo" não tem essa grandeza. Ele se pulveriza entre frases e ações de uma narrativa, dirigida pelo animador Travis Knight, na qual o Príncipe Adam (a força da natureza Nicholas Galitzine, em estado de graça no papel) retorna à Etérnia, depois de 15 anos preso nos EUA, para salvar seus compatriotas do Esqueleto. Idris Elba toma o trecho inicial para si no papel do Mentor, pai da guerreira Teela (Camila Mendes, de DNA brasileiro) e estrategista bélico. Depois, a festa fica na conta de Galitzine e de Garcia Junior, seu dublador genial (o mesmo lá da década de 1980), com seu "Eu Tenho a Força!". Ele resguarda a riqueza de um filme que podia ser bem mais do que é, não fossem os cabrestos.