O 'Eu tenho a força!' engasga no patrulhamento
Inegavelmente divertido, embora prejudicado (lá pelo meio) por uma escolha infeliz de paleta de cores na fotografia e na direção de arte, a adaptação em live action das aventuras animadas de He-Man foi gestada numa esquizofrenia (moralizante), que engessa sua dramaturgia. Nota-se uma aflição para se enxertar o roteiro com tiradas abrasivas (e depreciativas) contra toda e qualquer representação da masculinidade, a começar do empenho para se destroçar figuras paternas.
A própria escolha de nome do herói, que acentua o "ele" (he), é alvo de troça, a se impor uma conexão entre os signos de virilidade com a caricata ideia de machulência que as redes sociais adoram trucidar. O que poderia vir como ironia sutil se descortina em dinâmica expositiva, quase didática, o que torna o deboche - e a desconstrução de um símbolo infantil da Era Ploc, os anos 1980 - artificial.
Essa toda esquizofrênica de aversão ao fálico avança pela figura do Esqueleto, que na atuação do oscarizado Jared Leto (de "Clube de Compras Dallas"), oscila entre dois diapasões: ora parece um ser do Mal de proporções épicas, ora soa como um daqueles vilões dos Trapalhões vividos por Carlos Kurt. É mais uma sequela da necessidade que a longa-metragem tem de ser politicamente ativa (ativista até) nas pautas do Contemporâneo.
O problema é o pavimento que se encontra ali. "Masters of the Universe" (o título original da superprodução, orçada em cerca de US$ 170 milhões) é uma linha de bonecos, que a Mattel pôs à venda em 1982, a explorar os signos da ficção capa & espada, tipo bárbaros vs. magos. A estrutura dramatúrgica que calçou aquelas action figures (brinquedos) só nasceu em 1983, na série de desenhos da Filmation. Em 130 episódios, lançados até 1985, o seriado mapeou o mundo de Etérnia, com suas feitiçarias, sua monarquia paradoxalmente democrática e seu inimigo jurado, o tal Esqueleto (agora dublado por Luiz Carlos Persy). Na TV, essa realidade paralela ganhou vida pelas leis da mais lúdica fantasia, num maniqueísmo que se apoiava num colorido vivíssimo, a fim de pintar aquele planeta como um Éden estelar. Até o Castelo da Serpente, o QG do esquelético ferrabrás, era multicor. Tudo o que se vivia, capítulo a capítulo, num dinamismo procedural (o jargão para tramas que abrem e se fecham num episódio, sem continuar no seguinte), guiava-se por uma estrutura esópica de "moral da história". Ao fim das correrias, He-Man "quebrava a quarta parede" (isto é, falava diretamente com o público da poltrona) e dava uma lição, numa linha pedagógica do "isto é certo", "isto é errado".
O patrulhamento que assombra o filme "Mestres do Universo" não tem essa grandeza. Ele se pulveriza entre frases e ações de uma narrativa, dirigida pelo animador Travis Knight, na qual o Príncipe Adam (a força da natureza Nicholas Galitzine, em estado de graça no papel) retorna à Etérnia, depois de 15 anos preso nos EUA, para salvar seus compatriotas do Esqueleto. Idris Elba toma o trecho inicial para si no papel do Mentor, pai da guerreira Teela (Camila Mendes, de DNA brasileiro) e estrategista bélico. Depois, a festa fica na conta de Galitzine e de Garcia Junior, seu dublador genial (o mesmo lá da década de 1980), com seu "Eu Tenho a Força!". Ele resguarda a riqueza de um filme que podia ser bem mais do que é, não fossem os cabrestos.