Biologia existencialista
Cinco anos depois de dividir opiniões com 'Titane', Julia Ducournau apresenta a plateias brasileiras 'Alpha', uma saga familiar que serve de alegoria para a luta de quem vive com HIV
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Levou um ano e uns quinze dias para "Alpha", longa-metragem mais recente da francesa Julia Ducournau, pudesse alcançar espaço nas telas do Brasil... e, ainda assim, foi graças à sinergia entre a MUBI (plataforma digital, que também distribui) e a O2 Play, unindo talentos e contas para essa joia poder estrear. É uma das pedidas obrigatórias deste fim de semana, em cartaz a partir deste 4 de junho, carregando em seu currículo a conquista do Prêmio da Commission Supérieure Technique de l'Image et du Son da França (CST), no Festival de Cannes de 2025, em duas categorias: Melhor Direção de Fotografia (dada a Ruben Impens) e Melhor Som (confiada a Stéphane Thiébaut).
É um exercício de pura sinestesia que sua diretora trouxe no rastro de "Titane", pelo qual ganhou a Palma de Ouro de 2021, numa das vitórias mais controversas da Croisette, em 79 anos de evento. "Retrato uma realidade pós-industrial em que o capitalismo segregou as pessoas a tal ponto que as coloca umas contra as outras. Foi isso que me levou a dividir 'Alpha' em dois tempos, com cores distintas e níveis de saturação diferentes", disse Julia Ducournau ao Correio da Manhã, em Cannes, onde disputou sua segunda Palma.
Seu doído "Alpha" faz lembrar o trabalho (clínico e literário) da médica Marcia Rachid, autora do obrigatório díptico "Sentença de Vida" e "Vidas Marcadas", editados pela Máquina de Livros a partir de sua vivência no tratamento (e no acolhimento) de pacientes que vivem com HIV. A experiência dela foi essencial (e oracular) na concepção de dramaturgia da minissérie de CEP brasileiro "Máscaras de Oxigénio (Não) Cairão Automaticamente", hoje na HBO Max, da qual foi consultora.
Num dos episódios, ouve-se um diálogo sagaz: "Os filmes de terror não têm heróis; eles têm sobreviventes". Ninguém foge de cutelos em riste nesse teledrama que também não comporta criaturas monstruosas. O perigo real e imediato ali é o avanço da AIDS, entre o fim dos anos 1980 e início dos 1990, quando o AZT era ainda uma promessa. O Mal, com M maiúsculo, é o preconceito. Seu irmão gêmeo é o ódio.
A estreia dessa narrativa se articula com outros bons filmes com o HIV em seu radar, como "Romería", de Carla Simón; "O Olhar Misterioso do Flamingo" ("La Misteriosa Mirada Del Flamenco"), de Diego Céspedes; e o excepcional "The Man I Love", de Ira Sachs, todos egressos de Cannes. Eles se instauram mais no âmbito do drama, a falarem de pautas identitárias. Já o visceral "Alpha" se articula de forma mais frontal com os dizeres da supracitada produção do Brasil. Dá voz à luta por sobrevivência num contexto de infecção intravenosa. É o indício de uma onda de expressões artísticas com atenções voltadas para uma doença cujo pior sintoma era - e ainda é - a intolerância.
"Emoções e medos estão expostos na tela enquanto convido o público a se colocar no lugar do outro. Esse é o princípio do cinema que procuro fazer", afirma Ducournau, que chamou a atenção da crítica internacional pela primeira vez em 2016 com Raw, lançado na França com o título original "Grave".
A realizadora rachou sensos na Croisette, uma vez mais, com "Alpha". A única unanimidade em relação ao que se viu nesse longa, em seu jorro imagético devastador, é o desempenho da jovem atriz Mélissa Boros. Ela interpreta a personagem do título, uma adolescente de 13 anos que passa por uma fase de clamor do sexo, na descoberta do desejo sexual, sob a recorrente tentação de um colega de escola, num momento em que uma doença transmitida pelo sangue destrói multidões pelas ruas, sobretudo dependentes químicos. A peste se chama Vento Vermelho. É difícil não pensar na AIDS ao ver como o contágio se deflagra, por meio de agulhas infectadas. Golshifteh Farahani e Tahar Rahim interpretam um casal de irmãos. A médica vivida por Golshifteh, chamada só de Maman, precisa ajudar o mano Amin (Rahim, em impecável atuação), que está com os sintomas do tal Vento Vermelho. Sua carne endurece e esfacela, em meio a uma fraqueza crônica. Alpha testemunha seu calvário ao mesmo tempo em que corre o risco de estar contaminada após ter feito uma tatuagem sem a higiene adequada.
Exibido ainda no BFI London Film Festival e no Festival de Busan, na Coreia do Sul, "Alpha" ampliou o prestígio de Ducournau como diretora autora. Ela enxerga o corpo como sendo um lugar de revelações e de transcendência, a julgar pelo processo revolucionário que suas protagonistas passam a partir de um gatilho de seus organismos.
O que Julia tem feito em seu cinema é uma aula de biologia existencialista. Não se esqueça de que, em "Titane" (hoje no www.mubi.com), a protagonista engravida de... um carro... e expele óleo diesel pelas pernas.