Sem salas, mas com plataformas

Um garimpo de obras cults que, mesmo sem vaga em circuito, ampliam a potência do streaming na valorização de filmes comercialmente inéditos em multiplexes... de 'cabeças' a 'pipocas'

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Depois de a MUBI ter lançado "O Dia de Peter Hujar", pérola indie do estadunidense Ira Sachs, e de a HBO Max ter abraçado "Um Poeta", da Colômbia, não resta dúvida de que o streaming se transformou num campo fértil de estreias, indo além dos chamados Originals, produções com DNA das plataformas, criadas para serem lançadas online. Uma ou outra até vai para a telona, em lançamentos curtos, quase sempre nas proximidades do Oscar, mas, no geral, ficam entre os laptops e os celulares da cinefilia. Há, paralelamente, longas badalados em mostras ou em telas do exterior que não passam por nossas salas de projeção, mas iluminam as latitudes da internet.

O Correio da Manhã partiu atrás de uma triagem de iguarias que, em terras estrangeiras, nasceram para o circuito, mas, aqui, foram diretamente para a Netflix, a Amazon, a Paramount & afins... Um desses casos é "A Virgem da Pedreira" ("La Virgen De La Tosquera"), de Laura Casabé, egresso da Argentina e hoje na Prime Video e na já citada HBO.

Essa produção passou aqui no Festival do Rio de 2025 como "O Lago da Perdição". Em um casamento preciso entre crítica social e dispositivos pop das cartilhas do terror, este thriller sobre o clamor do sexo na adolescência foi laureado com o Grande Prêmio da competição nacional do BAFICI, em Buenos Aires. Na trama, Natalia, Mariela e Josefina são amigas inseparáveis, loucamente apaixonadas por Diego, um amigo de infância. No conturbado verão de 2001, em meio a crises econômicas em terras portenhas (e seus arredores), Silvia, uma moça já adulta, junta-se ao grupo e cativa o rapaz. Desolada, Natalia põe em prática heranças místicas de sua avó, envolvendo feitiços... e cães ferozes. O realizador Benjamín Naishtat (de "Vermelho Sol" e "Puan") colaborou com Laura e escreveu o roteiro.

A partir desta quarta, nuestros hermanos voltam a clamar por atenção na streaminguesfera do Brasil, via Netflix, com a chegada do ganhador do Prêmio de Melhor Filme e Direção no Festival de Mar Del Plata: "Risa Y La Cabina Del Viento", e Juan Cabral. Na trama, uma jovem (Elena Romero) encontra uma cabine telefônica que permite que ela fale com os mortos para atender seus pedidos e, assim, conseguir entrar em contato com seu pai falecido.

Ainda no âmbito da América Hispânica, o México faz "El Eco", de Tatiana Huezo, reverberar por aqui, quase três anos depois de ter saído vencedor da disputa de Melhor Documentário da Berlinale. Conquistou ainda, na Alemanha, a Láurea de Melhor Direção da hoje finada mostra Encontros, consagrando a realizadora de "Reze pelas Mulheres Roubadas" (2021).

Em "O Eco", hoje na MUBI, Tatiana faz um registro poético sobre um vilarejo mexicano que parece parado no tempo, castigado pelo frio e por secas, no qual jovens cuidas de suas avós, assim como tomam conta de rebanhos carentes de melhores condições. É uma metáfora entre a natureza humana e a vida animal.

Considerado um dos maiores fenômenos populares da Itália no século XXI, com cerca de 9 milhões de ingressos vendidos, "Buen Camino", de Gennaro Nunziante, driblou às salas de exibição do Brasil e foi diretamente para a Netflix, apresentando aos assinantes dela o Leandro Hassum europeu, Checco Zalone. Com direção de Gennaro Nunziante, o filme segue os passos de um pai fracassado que sai de sua zona de conforto e percorre o Caminho de Santiago em busca de sua filha desaparecida. A menina não dá bola pra ele, mas os peregrinos insistem em sua participação na trilha.

Badalado em alguns dos mais respeitados festivais da atualidade, como Locarno, Sitges e SXSW, o thriller meio suíço, meio americano "Sew Torn" brilhou no Velho Mundo e nos EUA, mas não teve muita chance de vender tíquetes nos multiplexes do Brasil. Agora, o streaming Looke lhe dá uma nova canja, exibindo a produção com o título "A Costureira". Está na Prime Video também. A direção é de Freddy Macdonald. Na trama, uma operária da costura Barbara (Eve Connolly) é confrontada com uma série de escolhas - todas perigosas - depois de testemunhar as consequências de um negócio de drogas que deu errado e resultou num acidente de moto. Na luta para manter sua loja aberta, ela se depara com dois homens feridos e uma maleta cheia de dinheiro. Barbara fica em dúvida sobre o que deve fazer: seguir o seu caminho, chamar a polícia ou cometer o crime perfeito.

No âmbito pop... na base do assombro, a Looke (em sinergia com a Prime Video) mete um gol com "Urso Sangrento: A Noite do Terror" ("Grizzly Night"), de Burke Doeren. Seu enredo nos leva a uma noite de verão de 1967, quando dois ataques de ursos ocorreram simultaneamente em um parque nacional dos Estados Unidos. Enquanto o pânico toma conta do lugar, uma guarda-florestal precisa enfrentar seus próprios medos e liderar um grupo de turistas em meio à natureza selvagem.

Já que a ideia é garimpar pepitas nos streamings, tem um Adam Sandler raro, na esfera do drama, chamado "Reine Sobre Mim" ("Reign Over Me", 2007), na Netflix.