Brilho eterno de uma mente nerd
Último (latino-)americano virgem (da geração que viu Jaspion derrotar Satan Goss na telinha da Manchete), Aírton sabe o limite certinho a partir do qual um corpo entra em combustão. Ele tem paciência para lidar com o analfabetismo de clientes em relação à inércia de uma CPU, a tal Unidade Central de Processamento dos micros que conserta. Aírton provavelmente sabe que Silvio Navas, a voz dublada de Darth Vader nos anos 1980, era a mesma que gritava com ardor “Antigos Espíritos do Mal”, ao ceder o gogó ao Mumm-ra dos “ThunderCats”. Nalgum momento de um passado nutrido a Cheetos Bola com Grapette, ele ouviu de Seu Madruga o aforismo nietzschiano “a vingança nunca é plena; mata a alma e a envenena”. Aluno nota dez, Aírton só errou nos cálculos estequiométricos ao calcular a covalência do benquerer. Ao aplicar a fórmula “amar + saber ouvir”, no apogeu de seu fervor hormonal, Acnase algum segurou o descompasso de suas CNTPs, quando foi acusado de um crime que não cometeu. A injustiça subiu-lhe a cabeça e sua panela de pressão cardíaca não soube lidar com as indelicadezas do mundo, tampouco com a demasiadamente humana forma com que Juliana, sua paixão juvenil, tratava de seu miocárdio. Num dado ponto, o protagonista de “Cansei De Ser Nerd” pirou o cabeção e perdeu-se ali pela Zona Negativa, não aquela que deu ao Quarteto Fantástico seus poderes, mas, sim, aquela que breca o maior vício da Humanidade: a esperança.
Tachado de “assassino”, depois do sumiço de uma colega, e preso por engano, Aírton deixou de esperar... que o Bem vença o Mal e espante o temporal. O filme doído - só que pleno de adrenalina e pincelado a riso – que Gualter Pupo fez sobre ele é uma ode sobre os poderes de autorregeneração que apenas a esperança pode assegurar a um indivíduo numa sociedade que faz de tudo para deixa-lo só, qual um videota muito além do jardim... de qualquer jardim.
Numa certa – e linda – medida, o filme de estreia de Gualter (diretor de arte de tarimba) vai bem além de Aírton (e ponha aí um além do tamanho de um bonde, no modo Jack Lemmon em que Fernando Caruso atua) para falar de toda uma geração... quiçá de muitas gerações... que encontraram no pop um balão de oxigênio para respirar. Num certo lugar triste, o da percepção da derrota e do abandono onde vivem os Quixotes (com seus moinhos de vento), um Sancho Pança chamado Ulisses entra em cena, qual um band-aid para conter sangramentos afetivos. Sabe aquele amigo que olha na cara do mundo vilão à nossa volta e diz “Estás morto por dentro”? Aquele que é o melhor dos melhores amigos? É isso que Ulisses simboliza para Aírton. É a certeza de que qualquer queda não vai além de um tombo. E a dor de um tombo passa. Demora, deixa seus arroxeados, mas passa.
Esbanjando carisma, Pedro Benevides transforma Ulisses naquele amigão que o mais certo das horas incertas. É o Sancho que faz Quixote ser nobre. É o Sancho que dimensiona o quão empoderada é Dulcineia, numa dinâmica do cavalheirismo que deve respeitar a equidade de gêneros. A Dulcineia vivida por Bia Guedes, aka Juliana, tem aquele abraço que vira abrigo em seu devir Lois Lane (a da fase das HQs pilotada pelo quadrinista John Byrne, aquela que encara a Maldade sem precisar de apoio, no grito e na força).
Esses três vértices de uma geometria de superação (de mágoas) – Juliana, Ulisses e Aírton – se dispõem na dramaturgia lírica de “Cansei De Ser Nerd” como signos de um viver que foi emparedado pela competitividade capitalista. Um Lex Luthor almofadinha, Charles (um João Velho faiscando de bom), emparedou os três numa invisibilidade que só a exclusão causa. No caso, aquela má exclusão escolar movida a estrelismo, a realce em público, a aversão às diferenças. Na trama, Aírton vai até uma festa de ex-colegas a fim de resgatar o respeito que lhe foi tirado. Ok... tem lá uma fantasia doida... com uma seita em volta de um ET vegano, mas o filme fala mais das entranhas sentimentais do que de aliens.
Protegendo nosso imaginário geek de todos os “dagrões” da caretice, salvo da violência do “é hora de crescer!”, o roteiro escrito por Thaisa Damous, Renato Fagundes, Luiz Noronha e pelo próprio Gualter (diretor de arte esmerado, que se lança como cineasta) faz o inventário das cicatrizes de uma gente que não coube no “Big Bang Theory”, por não ganhar em dólar. Não há espaço para Sheldon na trigonometria existencial de Aírton e Ulisses. Entre eles há alianças... e pra vida. A direção de fotografia de Gustavo Hadba é de uma sagacidade digna do Olho de Thundera ao entender isso e evitar uma luz apolínea, entregando-se a uma gradação de cor visceral. Não É “Xou da Xuxa”. É a “Porta dos Desesperados”. No desespero de apenas viver, aqueles nerds entregam ao cinema nacional um poema que arde, mas cura, numa edição das mais febris de Alexandre Boechat e Vicente Kubrusly. Caruso nos dá um herói alquebrado, mas do qual não se desliga. Tem em si aquele Brilho Eterno de que o francês Michel Gondry falou em sua obra-prima... o de uma mente cheia de lembranças, que não se apagam. A lembrança é, para um nerd, sua Terra-Média, seu sabre de luz, sua Excalibur.
“Cansei De Ser Nerd” é um elogio à arte de lembrar.