Terror em alta nas bilheterias

Em meio à renovação das estética do macabro, 'Obsessão' vira um dos fenômenos de maior rentabilidade do ano, ao criar uma metáfora das relações tóxicas à luz do Demônio

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Pelo olhar de Inde Navarrette, dá pra notar que tem algo de muito sombrio em seu sorriso apaixonado em 'Obsessão'

 

Para onde se olhe, no circuito brasileiro, a cinefilia nacional tem uma assombração pra chamar de sua, incluindo uma produção paulistana de vampiros, "Love Kills", com sessão apenas às 12h, no Shopping Tijuca. Depois que o terror ganhou Oscars em múltiplas frentes, em 2026, na estreia de "A Hora do Mal" ("Weapons") e de "Pecadores" ("Sinners"), nada mais justos do que o gênero estourar no consumo, mobilizando as bilheterias. É possível que nenhum exemplar do gênero alcance receita tão surpreendente quanto a de "Obsessão" ("Obsession"), um horror de gelar a espinha, que custou (pasmem!) US$ 750 mil.

Esse valor, na América Latina, é carnaval, mas, em Hollywood, é o troco do pão. Pelo valor de um mariola, seu realizador, o ator Curry Barker, construiu uma narrativa apavorante que vende igual pão quente e bateu a marca de US$ 100 milhões de 15 a 29 de maio. Seus números só crescem, e fazem justo a lógica de sua produtora, a Blumhouse, de Jason Blum. "Eu faço filmes que estão abaixo da linha hollywoodiana padrão de investimento para que eu possa ousar sem margem de risco. Dessa forma eu posso garantir que todos os meus filmes possam encontrar espaço em sala de exibição, sem pular etapas. Essa é a minha filosofia", disse Blum ao Correio da Manhã, ao ser homenageado no Festival de Locarno, com um troféu em honra de seu histórico de êxitos comerciais, renovado com "Obsessão" de Curry.

"Eu busco encontrar parceiros que trabalhem da maneira como Todd Phillips fez 'Se Beber, Não Case' ou 'Coringa', que não são meus, mas eu admiro. Ele filmou por US$ 50 milhões, chegando no máximo a US$ 70 milhões. Fez por esse valor uma série de projetos que, em outras mãos, excederiam muito esse valor pelas estruturas atuais do cinema. Eu filmo barato ideias que ninguém faria. Costumo fazer filmes de horror que tenham um componente de diversão, de humor, de irônica, como se vê em 'Corra!' e em 'Nós', de Jordan Peele, que eu adorei produzir, ou em 'O Homem Invisível'. Gosto que os filmes tenham camadas, e uma delas é a da diversão, mas eles precisam assustar".

Com a pesada concorrência de "Michael" e "Mandaloriano e Grogu", "Obsessão" chegou aos cinemas apostando numa mistura de romance doentio, horror sobrenatural e violência psicológica. Sua trama acompanha Bear, interpretado por Michael Johnston, um rapaz tímido e emocionalmente dependente da melhor amiga Nikki, papel de Inde Navarrette. Incapaz de declarar seus sentimentos, ele encontra, numa lojinha tipo Mundo Verde, uma estranha peça conhecida como "One Wish Willow" (o Salgueiro dos Desejos), artefato capaz de realizar desejos. Ao quebrar o objeto e pedir para conquistar o coração da garota, desejando que ela seja sua para sempre, Bear aparentemente consegue aquilo a que almejava. O problema é que a realização de sua vontade vem acompanhada de consequências perturbadoras, a começar pelo olhar vítreo... quase macabro... de Nikki, a passar as madrugadas parada no escuro e a se mexer e a falar de modo satânico. Feito um sintagma das paixões tóxicas, o enredo mostra como uma relação amorosa vira um pesadelo sangrento marcado por possessão emocional, paranoia e degradação física.

O longa nasceu a partir do sucesso underground de Curry Barker na internet, em especial com o curta "Milk & Serial", que chamou atenção pelo uso criativo do suspense psicológico em ambientes cotidianos. "Obsessão" investe sagazmente em jumpscares tradicionais (sustos que a gente somatiza com gelo na barriga) ao mesmo passo que explora a deterioração emocional das personagens, criando uma atmosfera desconfortável, que cresce progressivamente. Exibido no Festival de Toronto de 2025, esse terror passou também pelo Fantastic Fest e venceu o Grande Prêmio do Público no Festival de Sitges, principal vitrine mundial do cinema fantástico. O desempenho do casal central é estupendo.

Fora "Obsessão", o terror bate ponto em nosso circuito com "Hokum: O Pesadelo Da Bruxa", "Backrooms: Um Não-Lugar" e "Passageiro Do Mal", que também é de amolecer as pernas de medo. Sua trama narra a viagem de van de um casal, que presencia um acidente rodoviário fatal. A partir daí, uma entidade demoníaca passa a persegui-los pelas estradas.

Sobre o supracitado "Love Kills", sua direção é assinada pela produtora Luiza Shelling Tubaldini, de sucessos como "O Concurso" (2013) e "Motorrad" (2017). O pavimento da dramaturgia é a graphic novel homônima de Danilo Beyruth. Coroado com o prêmio de Melhor Som na Première Brasil, o longa passou pelo Festival de Sitges, em solo espanhol, e vai agora flana pelo Festival de Bruxelas. Sua trama, de tintas existencialistas, rola num centro de São Paulo devastado pelo crack. Na maior metrópole do país, uma jovem vampira, Helena, frequenta um estranho café na metrópole, cativando um garçom ingênuo. À medida que ele descobre os segredos dela e o submundo da cidade, ele é atraído para um mundo perigoso de intrigas.

No dia 13 de agosto, estreia aqui "Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte" ("Teenage Sex and Death at Camp Miasma"), o vencedor da Queer Palm de Cannes, dirigido por Jane Schoenbrun. Gillian Anderson, a Dana Scully de "Arquivo X", vive a presa de um Jason homofóbico numa desconstrução de fórmulas e de preconceitos.