Omar Sy no alçapão do desejo
'Fora de Controle' marca a volta do astro de 'Intocáveis' e da série 'Lupin' ao circuito nacional, num suspense que dialoga com afetos proibidos e a ideia em desconstrução de 'família perfeita'
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Não restam dúvidas, sob um prisma estético, de que a mais importante estreia estrangeira em circuito exibidor, neste fim de semana, é o Almodóvar novo, "Natal Amargo", que chega forte, mas não vem sozinho... Ao lado dele, aterrissa por aqui um belíssimo longa-metragem de CEP francês, "Fora de Controle" ("Dis-moi Juste Que Tu M'aimes") é um possante drama francês de tonalidade febril em seu flerte com o thriller psicológico, estruturado sob a direção de Anne Le Ny.
A trama mergulha no desgaste afetivo de um casal aparentemente estável. Seu ímã de atenções é o quarto dos oitos filhos da faxineira mauritana Diaratou e do mecânico senegalês Demba. Um ator conhecido (e admirado) sob a alcunha Omar Sy. Em março, ele foi visto por aqui, com pouco alarde, em "O Caso Dos Estrangeiros" ("A Stranger's Case"), filme vencedor do Prêmio da Anistia Internacional da Berlinale de 2024.
"Todo filme tem um lugar na tela, e, quando se trata de narrativas de gênero, elas ganham espaço quando fazem a nossa cabeça pensar sobre a realidade à nossa volta", respondeu Sy ao Correio da Manhã, em sua passagem pelo júri oficial do Festival de Cannes, enquanto filmava "Fora de Controle", que vendeu cerca de 400 mil ingressos em sua arrancada na França.
O roteiro rodado por Anne Le Ny fala de Julien (Sy) e Marie (interpretada por Élodie Bouchez), que vivem há quinze anos juntos em Vannes, na Bretanha, criando dois filhos e tentando manter uma rotina familiar organizada. A tranquilidade começa a ruir quando Anaëlle, antiga paixão de juventude de Julien, regressa à cidade depois de anos ausente. A reaparição dessa figura provocativa, vivida por Vanessa Paradis, desperta em Marie um sentimento crescente de insegurança, ciúme e autodesvalorização, abrindo uma fratura emocional dentro da relação.
Anne Le Ny constrói a narrativa como um suspense íntimo, em que as emoções cotidianas vão sendo contaminadas por paranoia, ressentimento e manipulação. Ecos do mestre francófono do mistério, o artesão autoral Claude Chabrol (1930-2010).
A casa do casal Marie e Julien não devia ser um mero cenário, mas sim um reflexo da sua relação. Anne Le Ny queria um espaço que parecesse acolhedor, mas permeado por uma tensão latente: «Eu dizia que precisava de uma casa antiga cheia de charme, mas com um alçapão no meio da sala", disse a diretora em depoimento ao site Allocine.fr. Esse alçapão vai simbolizar o perigo subjacente que se esconde sob o equilíbrio aparente do casal. Felizmente, a equipa encontrou uma casa ideal que correspondia exatamente a essa visão.
O longa foi rodado em grande parte na Bretanha, nomeadamente em Vannes. Embora a escolha do local correspondesse perfeitamente à história, também reservou surpresas climáticas à equipa. Três grandes tempestades atingiram as filmagens, incluindo uma particularmente violenta durante uma cena-chave. Acabou que a chuva torrencial acrescentou uma intensidade dramática inesperada à rodagem, atenta a ambiguidades morais.
"Tento sempre estar atento às histórias de opressão, principalmente aquelas que formalizam a agressão sobre os corpos negros a partir de uma farda", disse Sy ao Correio da Manhã durante o Festival de Berlim, em meio ao lançamento de "Polícia: Turno da Noite" ("Police", 2020), dirigido pela franco-luxemburguesa Anne Fontaine, que ficou inédito em telonas nacionais, mas pode ser acessado pelo streaming Filmelier e pela Prime Video, da Amazon.
Nele, temos uma crônica tensa sobre a jornada de três policiais (Virginie Efira, Omar Sy e o surpreendente Grégory Gadebois) empenhados em levar um refugiado (Payman Maadi, de "A Separação") ao Charles De Gaulle, a fim de deportá-lo para a pátria onde ele sofreu toda a sorte de mazelas.
"Estive em outros filmes que também mostram essa obrigatoriedade servil que foi imposta a populações negras. Tento entender a cabeça de pessoas forçadas a lutar por um continente que não é o seu", disse Sy ao Correio, em meio às filmagens do eletrizante "Shadow Force - Sentença de Morte", com direção de Joe Carnahan, lançado por aqui em 2025 e já disponível na Prime Video.
Este ano, Sy será visto na série "Mercenary: An Extraction Series" e no novo filme de Ladj Ly, já em finalização: "Dumas - Diable noir".