Cinema brasileiro com sabor de Pitanga
Ator e diretor é saudado no CCBB RJ com a maior retrospectiva de uma carreira que se confunde com o audiovisual brasileiro desde o Cinema Novo
Affonso Nunes
OCentro Cultural Banco do Brasil Rio abre as portas para a maior retrospectiva já realizada sobre a carreira de Antonio Pitanga, nome fundamental do audiovisual brasileiro desde o Cinema Novo. A "Mostra Pitanga", que será realizada entte os dias 3 e 29 de junho reúne 38 filmes, sessões comentadas, debates, um curso gratuito e uma leitura dramática na qual Pitanga revisita um texto censurado durante a ditadura militar. O projeto, com curadoria de Camila Pitanga e Thiago Ortman, costura uma filmografia que atravessa seis décadas de transformações sociais e políticas do Brasil.
Nascido em Salvador em 13 de junho de 1939, Antonio Pitanga é um ator que se tornou sinônimo de resistência e protagonismo negro nas telas brasileiras. Sua trajetória começou em 1960, quando participou de "Bahia de Todos os Santos", filme que lhe rendeu o nome artístico que carrega até hoje. Ao longo dos anos 1960, ele esteve no centro do movimento do Cinema Novo, atuando em narrativas que expunham as desigualdades sociais e as tensões políticas da época. Filmes como "Barravento" (Glauber Rocha, 1962), "Ganga Zumba" (Cacá Diegues, 1963) e "A Grande Cidade" (Cacá Diegues, 1966) consolidaram sua presença em um movimento que redefiniu o cinema brasileiro.
A retrospectiva revisita obras clássicas, raridades e restaurações que raramente chegam às telas. Entre os destaques estão "O Pagador de Promessas" (Anselmo Duarte, 1962), único filme brasileiro a conquistar a Palma de Ouro em Cannes, e dois filmes restaurados em 4K: "A Grande Feira" (1961) e "Tocaia no Asfalto" (1962), ambos do baiano Roberto Pires. A mostra também exibe o curta "Colagem" (David Neves, 1968) e "Uma nega chamada Tereza" (Fernando Coni Campos, 1973), que conta com a presença performática de Jorge Ben. Completam a seleção "Bom Dia, Eternidade" (2010), único filme dirigido por Rogério de Moura, e "Malês" (2025), longa dirigido por Pitanga que venceu o Troféu Jangada de Melhor Filme no Festival de Cinema Brasileiro de Paris.
Durante a ditadura, Pitanga participou de obras que abordavam a questão racial de forma frontal. Em "Jardim de Guerra" (Neville d'Almeida, 1970), um monólogo antirracista proferido por ele foi censurado. Em 1978, estreou na direção com "Na Boca do Mundo", juntando-se a Zózimo Bulbul e Waldyr Onofre como parte de uma geração pioneira que abriu espaço para realizadores negros.
Na programação paralela Pitanga e Ítala Nandi fazem, no dia 7, releitura do texto da peça "O Poder Negro" (1967), de LeRoi Jones, censurada pela ditadura. Nos dias 11 e 28 de junho, duas mesas de debate abordarão sua trajetória: a primeira, "A escrita com o corpo: cinema, política e a questão racial no trabalho de Pitanga", com Safira Moreira e Carmen Luz; a segunda, "Pitanga e o seu legado", mediada pela jornalista Maju Coutinho e com participação de Elisa Lucinda, Juliano Gomes e do próprio Antônio Pitanga.
De 19 a 21 de junho, a pesquisadora Janaína Oliveira ministra o curso gratuito "Oferendas narrativas para uma história dos cinemas negros no Brasil", uma reflexão sobre as cinematografias negras. Sessões comentadas, como a de "A Grande Cidade" (1966) com Hernani Heffler, gerente da Cinemateca do MAM Rio, complementam a programação educativa. A mostra também lançará um catálogo inédito que reúne entrevistas, críticas históricas e textos de autores como Joel Zito Araújo e Tatiana Carvalho Costa, além de escritos de cineastas como Glauber Rocha e Rogério Sganzerla e documentos de arquivo. Visitantes que apresentarem quatro ingressos de filmes ou atividades ganham um exemplar.
Segundo Camila Pitanga, o objetivo da mostra é estabelecer uma ponte entre o legado do Cinema Novo e a cinematografia brasileira de hoje. "Meu pai é um ator fundador do Cinema Novo, mas é também um ator contemporâneo, do mundo em que estamos vivendo. Ele não só está vivo, como está prolífico em trabalhos, em inaugurar caminhos", argumenta.
SERVIÇO
MOSTRA PITANGA
Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (Rua Primeiro de Março, 66, Centro)
De 3 a 29/6 | Entrada franca, com ingressos disponíveis na bilheteria física ou no site do CCBB (www.ccbb.com.br) | Programação completa no site do CCBB