Abinash Bikram Shah: 'Família é a certeza de que você não precisa lutar sozinho'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Abinash Bikram Shah, cineasta nepalês premiado no Festival de Cannes

Dono de um sorriso contagiante, daqueles capazes de fazer parecer que está "tudo dominado", Abinash Bikram Shah abre as canjicas a cada vez que fala de São Paulo. Refere-se todo mimoso à deselegância sincera das esquinas paulistas com o encantamento de quem saiu do Nepal para conhecer a maior metrópole da América do Sul in loco, a fim de fazer arte aqui. O nepalês veio a SP trabalhar o som do longa-metragem "Elefantes Na Névoa", que deu a ele o Prêmio do Júri na mostra Un Certain Regard, de Cannes.

Sua narrativa (das mais tocantes) é fruto de uma coprodução entre sua pátria, a Alemanha, a França, a Noruega e o Brasil. As produtoras do audiovisual brasileiro responsáveis por essa aventura afetiva são a Bubbles Project (via Tatiana Leite) e a Enquadramento Produções (via Leonardo Mecchi).

A sinergia delas assegurou uma cocriação com DNA nacional, recompensado na Croisette com o prêmio paralelo de Melhor Criação Sonora.

Ambientado em um vilarejo no Nepal, à beira de uma floresta habitada por paquidermes selvagens, o filme acompanha Pirati, líder de uma comunidade Kinnar, que vê sua vida abalada após o desaparecimento de uma de suas filhas. A partir deste evento, a narrativa se desenvolve como uma investigação, atravessada por conflitos íntimos e sociais.

Estreante em longas, Abinash teve um curta-metragem, "Lori", premiado com Menção Especial na competição de curtas de Cannes em 2022. Também assinou o roteiro do longa "Shambhala", exibido na competição da Berlinale em 2024. Seu "Elephants in the Fog" (título original) vai contar com distribuição da Imovision entre nós.

Nesta conversa com o Correio, ele delineia geografias sentimentais.

Como foi trabalhar a (premiada) dimensão sonora do filme, entre o silêncio e os ruídos intensos?

Abinash Bikram Shah - Eu me senti como se estivesse orando de alguma forma. E não existe apenas silêncio no filme. Há vozes altas também. Mesmo no silêncio e nos ruídos intensos, existe vida acontecendo na comunidade, nas aldeias. Sempre que você vê uma vila ou uma cidade, há muito barulho acontecendo. Ou é música, ou pessoas tentando assustar o elefante, ou o trânsito. Isso era muito importante para mim. Foi uma escolha consciente, claro, mas também procurei não sobrepor a naturalidade do que eu via. O equilíbrio entre esses sons foi um dos desafios do filme.

Como foi o processo de criação desse ambiente sonoro?

Abinash Bikram Shah - Como estávamos fazendo o som no Brasil, era muito importante que a floresta e as aldeias do Nepal não soassem como o Brasil. Os pássaros, por exemplo, foram cuidadosamente selecionados. Temos uma equipe de som no Nepal e, sempre que o designer sonoro ou o mixador precisavam de algo específico, nós nos comunicávamos com eles e os sons eram enviados imediatamente. Essa autenticidade era muito importante para mim. Ao mesmo tempo, eu queria trabalhar esse contraste entre o silêncio e o som mais intenso. No final do filme existe o momento mais alto dessa construção sonora, quando a personagem central finalmente explode e coloca para fora todos os silêncios que carregou ao longo da história.

Seu filme parece retratar um Nepal dividido entre forças opostas, quase como o movimento do coração entre diástole e sístole. Como você vê isso?

Sim, acho que a imagem dessa metáfora cardíaca faz muito sentido. Para estar vivo, o coração precisa se mover assim, indo e voltando. Caso contrário, ele para. O Nepal está vivo justamente porque existe essa contradição. E isso vale também para muitos países do Sul da Ásia. Vivemos entre valores antigos dos quais não conseguimos nos desprender e essa modernidade que chega o tempo inteiro. O elefante é um bom exemplo disso. Existe o Deus-Elefante, tão reverenciado no hinduísmo, mas também existe o elefante real, que sai da floresta e se torna uma ameaça para as pessoas. Vivemos nessas contradições o tempo todo. E acredito que isso não acontece apenas no Nepal, mas em toda parte.

Muitas pessoas falam do filme por causa da questão trans e da luta contra a transfobia, mas ele também parece muito centrado na ideia de família. O que representa a família em "Elefantes na Névoa"?

O filme fala muito sobre pertencimento, sobre encontrar o lugar onde realmente pertencemos. É uma jornada que todos atravessam. A família é muito importante porque eu mesmo vivo em uma família extensa, com minha mãe e outros parentes. E encontrei muitas semelhanças entre minha família e a família daquela comunidade, essa família transumana mostrada no filme. O mais importante é a sensação de segurança. Família é a certeza de que você não precisa lutar sozinho. Esse senso de pertencimento é fundamental para mim. Como você disse, não é um filme apenas sobre questões trans ou queer. É um filme sobre família. É um filme sobre mães.

Quando você decidiu que faria cinema?

Antes de tudo, eu sou escritor. Trabalhei escrevendo para jornais e também para um escritório de turismo, produzindo textos para receber turistas e apresentar destinos. Sempre consegui me expressar muito bem através da escrita. Depois, quando descobri o cinema mundial, senti que precisava escrever roteiros. Não tive formação formal em cinema. Aprendi vendo filmes.

Quais cineastas foram decisivos para sua formação?

Quando descobri os filmes de Hou Hsiao-hsien e Satyajit Ray, percebi que era possível dizer tantas coisas... dizer de forma muito emocional... e também política... através do cinema. Isso me marcou profundamente. Eu sou uma pessoa muito tímida, então o cinema acabou se tornando uma forma de expressão para mim. Mas comecei mesmo como escritor.

Você já havia escrito muitos roteiros antes de dirigir?

Acho que escrevi cerca de cinco longas, além de duas séries de TV nepalesas. Também escrevi "Shambhala". Foi um processo gradual até chegar aqui.