Tem 'Nomadland' na 'Tela Quente' esta noite
Numa ousada escolha de programação, a “Tela Quente” da TV Globo desta segunda-feira abre espaço para “Nomadland”. É um espaço dos mais populares neste país para o longa-metragem de Chloé Zhao, que acaba de integrar o júri do Festival de Cannes.
A produção de US$ 5 milhões que o Plimplim exibe às 23h15, ganhou o Leão de Ouro de Veneza em 2020 e virou um ímã de estatuetas douradas dos EUA em 2021. Ao conquistar três troféus (Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Atriz) na cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, cinco anos atrás, o drama protagonizado e produzido pela americana Frances McDormand virou um perpétuo patrimônio da excelência do cinema na desconstrução das falências da América. Virou também uma espécie de marca do olhar de mundo que foi possível ganhar espaço em tela em meio à pandemia. Faturou US$ 39 milhões na venda de ingressos.
Seu currículo de vitórias contabiliza 256 prêmios, sendo que a Associação de Críticos dos EUA, presidida então por Justin Chang (do “The L.A. Times”), deu ainda a este road movie baseado em fatos reais, uma série de láureas, entre elas as de Melhor Atriz (para Frances) e de Direção, pavimentando a consagração de Chloé. Revelada em Cannes, em 2017, com “Domando o Destino” (“The Rider”), ela lançou na sequência o belíssimo “Os Eternos” (“Eternals”, 2021), com Angelina Jolie e Salma Hayek vivendo imortais místicos no espaço.
De uma simplicidade franciscana, “Nomadland” estampa em seu currículo o People’s Choice Award do TIFF – Toronto International Film Festival, prêmio de público do evento canadense que, via de regra, consagra futuros ganhadores de Oscar, como se viu com “Quem Quer Ser Um Milionário”? (2008), “12 Anos de Escravidão” (2013) e “Green Book” (2018). Seu engenho narrativo lembra muito o de Jorge Bodanzky e de Orlando Senna em “Iracema – Uma Transa Amazônica” (1974). O que Frances (no papel de Fern) faz com um furgão nas estrelas dos Estados Unidos é parecido com o que Paulo César Peréio fazia com seu caminhão pelas curvas do Norte. Os dois são agentes catalisadores de reações de atores não profissionais, de pessoas que vivem a demolição de um mundo que se crê em configuração. Os dois vivem (ou ensaiam) viver amores nas rodovias, como é o caso do quase romance de Fern e Dave (David Strathairn, brilhante) no diálogo travado entre Chloé e o livro homônimo de Jessica Bruder.
O que se vê nessa narrativa muitas vezes silenciosa, embalada (nas horas precisas) pela música de Ludovico Einaudi, fotografada sem exibicionismos por Joshua James Richards (de “Glory Days”), é algo já testado outras (e muitas vezes) no cinema, dos anos 1940 até hoje. Tem, sim, uma alma neorrealista nele – o neorrealismo possível no tal “novo normal” avesso a heroísmos de hoje -, mas a espinha dorsal vem de exemplos anteriores… vem de um pré-modernismo. Vem de “As Vinhas da Ira” (1940), de John Ford. Ali, sem o apoio de tratados sociológicos, Ford mostrou que, diante do esgotamento dos dispositivos da ficção (frente às bestialidades da vida de carne e osso), um pacto com o Real, ainda que sutil, pode dar uma oxigenada boa no cinema. É uma forma de devolver oxigênio a pulmões inchados pelo gás carbônico da fábula. É isso o que Chloé faz numa América que há muito depende da Marvel, da DC e de longas decalcados de videogames para pagar suas contas cinéfilas.
Sua “Terra de Nômades” não tem vigilantes de uniforme. Aliás, tem só na tela, quando Fern passa por uma sala de exibição que está exibindo “Os Vingadores” (2012). Ex-professora avessa a uma aposentadoria antecipada, para não morrer de fome pelo baixo soldo à sua espera, ela é vítima de um downsizing econômico que leva sua cidade ao colapso. Sem lar, ela cai nas vias expressas e nas quebradas do mundaréu, queimando pneu e conhecendo gentes de todo tipo. A cada encontro vem uma lição que nos comove.
Na versão brasileira, Frances foi dublada pela genial Mônica Rossi.