'Há diferentes nós em nós'
Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Coroada no Festival de Locarno de 2025 com o troféu de Melhor Atuação pelo filme croata "Deus Não Vai Ajudar", Manuela Abril Martelli Salamovich despontou como estrela adolescente nas telas de seu Chile natal em 2004, em meio ao sucesso mundial de "Machuca". A troca com cineastas de peso pelo mundo afora fez com que passasse ao posto de diretora. Posto esse que Cannes consagra agora ao abrir à chilena uma vaga em uma de suas seções competitivas de maior destaque: a Un Certain Regard. O Brasil saiu dela premiado com seu troféu principal, o Prix Um Certo Olhar, em 2019, com "A Vida Invisível", de Karim Aïnouz.
Agora é a vez de Manuela, que pilota "El Deshielo" nas raias da tensão. Seu filme anterior no cargo de realizadora, "Chile'76" (2022), passou na Croisette também, mas na Quinzena de Cineastas.
Nele, uma mulher de classe média alta, Carmen (Aline Kuppenheim), tenta sastifazer o pedido de um amigo leal, o padre Sanchez (Hugo Medina), que recorre a ela atrás de proteção para um jovem ferido no garrote de Pinochet. O tal rapaz, Elias (Nicolás Sepúlveda), foi baleado e requer cuidados. Ao cuidar dele, ela aprende o que se passa no Chile pós Golpe, em 1976.
Foi um sucesso imediato. Foi comparado até ao cult argentino "A História Oficial", de 1985. Já "El Deshielo" segue por linhas mais próximas das ficções de mistério, ainda que abra sua narrativa com um eixo de arquivo, em que a América do Sul do tempo da Eco 92 é resgatada.
Com forte clima de tensão,
"El Deshielo" leva a Un Certain Regard até 1992, num hotel de luxo, onde uma garotinha cria laços de amizade com uma atleta europeia. O coleguismo das duas vai bem até a estrangeira sumir... e ser dada como morta. Parte daí um enredo investigativo no coração de um Chile que, àquela época, abria-se para a democracia.
Com "El Deshielo", a nova geração de profissionais de cinema do Chile expôs à Croisette um vigor que faz jus a mestres de sua rra moderna, como Miguel Littín, Valeria Sarmiento e Patricio Guzmán. Se por um lado, faltou brasilidade a Cannes este ano, sem ter joias nacionais - como "O Agente Secreto - no páreo, por outro, o da perspectiva chilena, a 79ª edição do festival de mais prestígio no cinema é uma festa. Teve "La Perra", de Dominga Sotomayor, na Quinzena de Cineastas, com Selton Mello no elenco e Rodrigo Teixeira na produção. Tem "El Deshielo" nas cabeças da Un Certain Regard. E tem, no júri da Palma de Ouro, um jovem talento que redefiniu a ousadia do Chile nas telas: Diego Céspedes. Há um ano, ele botou a Croisette no bolso com "O Olhar Misterioso do Flamingo", que hoje percorre as salas do Brasil, sob distribuição da Imovision.
No papo a seguir, Manuela festeja a força cinéfila do Chile explica suas inquietações com sua pátria.
Como vê a (oni)presença do Chile neste festival?
Manuela Martelli - Tem muita gente criando. Há mulheres expressando suas vozes.
O que a metáfora do bloco de gelo que demarca o filme representa acerca do Chile que você retrata?
É um signo de que a conta uma hora chega para os países que viveram sob jugo de ditaduras. Os anos 1990 foram um bloco da nossa História em derretimento, por simbololizar o fim dos regimes militares e um início ainda tímido das nossas democracias. Os ecos desse momento se fazem ouvir no Chile até hoje.
Sua impecável forma de dirigir uma atriz mirim e extrair dessa menina, Maya O'Rourke, um desempenho maduro faz parte de seu esmero na criação de personagens femininas plurais. Que mirada sobre a mulher latino-americana se firma no seu cinema?
O ponto que me atrai é ver o que ultrapassou os limites do sistema patriarcal. "El Deshielo" nasce das minhas memórias de menina, da lembrança de parentes. Tento falar da força feminina e retratar o espaço dos homens com respeito em ambas as partes. Há diferentes nós em nós. Eu tento dar voz a essas diferenças.
O que existe de mais marcante no ano de 1992, con direito a imagem de arquivo do ex-presidente brasileiro Fernando Collor de Mello nos registros documentais que abrem a sua ficção?
Mais do que 1992 propriamente, o eixo cronológico da minha narrativa é o espírito da década de 1990, a era de um Chile um tanto inocente, pós-ditadura, no qual o capitalismo botou as garras de fora e virou a hegemonia econômica do planeta. Foi o momento logo após a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS. Era um tempo em que os governos latinos ansiavam por um projeto de bem-estar coletivo que o discurso capitalista parecia interessado em oferecer. Um bem-estar com custo alto.
Como se desenhou o tônus de thriller que seu filme tem?
Nos anos 1990, todo mundo na América Latina cresceu vendo Hollywood... e a produção que vinha de lá com mais força era de suspenses. Eram filmes que se pautavam pelas perguntas: quem matou e quem é o culpado? Essa cultura ficou enraizada.
"Chile'76" (também chamado de "1976") sedimentou o seu prestígio como diretora, há quatro anos. De que maneira ele retratou o universo de Pinochet e golpe que derrubou Salvador Allende?
Procurei dissociar o fato de as grandes investigações históricas lidarem sempre com figuras masculinas de poder. Eu escolhi falar de uma data que coincide com a morte da minha avó e retratar a realidade do meu país, nos anos 1970, sob uma perspectiva feminina, que abrace angústias afetivas e fatos. Parto de uma mulher que ficou anônima na História, mas seguiu seus caminhos, seus desejos, apesar de toda a repressão sexista. Tudo aqui parte de uma vontade de saber como é que se filtra o peso do espaço público, sob o horror de uma ditadura, no espaço privado, no âmbito da intimidade.