Bruce Dern é a maior diversão

Documentário comovente marca a volta do astro de 'Nebraska' à Croisette, três anos depois de um infarto que diminuiu seu ritmo de atleta, mas não tirou sua vontade de brilhar

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Caminhando com muita dificuldade, não por travas ósseas e musculares da idade (89 anos), mas por ecos do ataque cardíaco sofrido em 2013, Bruce Dern voltou a Cannes, o festival onde ganhou o prêmio de Interpretação em 2013, por "Nebraska", combinando seu terno de luxo com um bonézinho. É a própria imagem do que chamamos simplicidade. Por trás dela, contudo, há uma carreira que vem dos anos 1950 até hoje e fez cineastas dos quilates mais altos (de Elia Kazan a Quentin Tarantino) nutrir admiração por seu modo de atuar.

Sua técnica tem nome: "Dernsie". O termo, que parte do sobrenome do astro, virou sinônimo de inenção em Hollywood. Não por acaso, é o título do documentário tocante que revive os feitos desse operário da atuação. "Estar em Cannes é o mesmo que ser classificado para os Jogos Olímpicos", disse a quase nonagenária estrela, sob uma ovação, em meio à estreia de "Dernsie: The Amazing Life of Bruce Dern", num lotado Palais de Cannes.

Na plateia estava sua filha, a atriz ganhadora de Oscar Laura Dern, que esbanja tietagem sobre o papai talentoso. Mike Mendez colheu um depoimento dela para seu .doc, que dá voz a cineastas cheios de culto, como Walter Hill e Joe Dante. Há espaço nobre para Alexander Payne, pois foi ele que fez

"Nebraska" - um road movie pontuado por piadas sobre a crise financeira dos EUA - virar realidade. Fiel à linhagem da "dramédia" (apelido de hollywodiano da comédia dramática) seguida por Payne filme a filme, o longa segue um derrotado profissional: o aposentado beberrão Woody Grant (Dern), fiel à hipótese de ser o vencedor de uma bolada.

"Eu venho de uma época no cinema americano em que se falavam verdades", disse Dern ao Correio da Manhã, na projeção de "Nebraska" na Croisette, para um júri presidido por Steven Spielberg, que filmou o fenômeno pop "Jurassic Park: Parque dos Dinossauros" (1993) com Laura.

Dirigido há 50 anos por Alfred Hitchcock (1899-1980) em "Trama Macabra", Dern relembra em "Dernsie" sua relação esportiva com a corrida, lembra da perda de sua filha primogênita (afogada ainda bebê, ao cair numa psicina) e dos perrengues para se firmar na TV e na telona. Billy Bob Thornton conta um episódio hilário sobre os bastidores do longa "Sonhando Alto", de 2006, no qual o produtor não fazia ideia de quem era Bruce e pediu um material ilustrativo de seu talento. Um talento que Tarantino levou para três de seus filmes recentes: "Django Livre", "Os Oito Odiados" e "Era Uma Vez Em Hollywood". "Só existe uma palavra para definir esta indústria", diz Dern no .doc. "A tal palavra é resistir".