Palmas que a Palma de Ouro não vê
Pérolas autorais vindas dos mais variados cantos do mundo rivalizaram com a disputa oficial de Cannes na busca por consagração de vozes autorais
Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Vai ser difícil algum filme deste Festival de Cannes calar mais fundo no peito da cinefilia do que "Natal Amargo", o novo exercício de Pedro Almodóvar pelas vias do melodrama... mas é fácil apontar os filmes que (mais e melhor) vão se esforçar para brilhar tal qual a expressão autoral do artesão manchego. Na disputa pela Palma de Ouro, pérolas a granel se candidatam à Eternidade, como "El Más Querido", de Rodrigo Sorogoyen, e "Hope", de Na Hong-jin. A lista a seguir é a triagem que o CORREIO DA MANHÃ produziu após garimpar jazidas paralelas à competição oficial.
CLARISSA, de Arie e Chuko Esiri (Nigéria): Sophie Okonedo tem a atuação de uma vida nesta versão de "Sra. Dalloway", de Viriginia Wolf, no Laos. Okonedo vive Clarissa, mulher da alta sociedade, que organiza uma recepção em sua casa, no fervo da vida cultural nigeriana, onde reencontra amigos de juventude. Ao longo daquela noite, suas memórias vêm à tona. Mágoas, também.
MARIE MADELEINE, de Gessica Généus (Haiti): A fotografia de Nicolas Canniccioni tinge os céus e as ruas de Jacmel de um colorido extravagante ao seguir os passos de uma garota de programa de nome bíblico que se encanta por um evangélico fervoroso e tenta mostrar ao rapaz as bênçãos do desejo. Géssica dirige e estrela este drama sensual sobre empoderamento.
ONCE UPON A TIME IN HARLEM, de David e William Greaves (EUA): Um marco da luta decolonial de essência documental musical se afirma aqui. O seu coletivo de imagens remonta a uma noite de verão de 1972, quando uma geração marcante de artistas e intelectuais do chamado "Renascimento do Harlem" reuniu-se na casa de Duke Ellington. Por mais de três horas, esse grupo extraordinário — muitos dos quais não se viam há cinquenta anos — relembrou o passado, fez críticas, discutiu, riu e bebeu, enquanto refletia sobre seu lugar num panorama antirracista.
IN WAVES, de Phuong Mai Nguyen (França): De CEP francês, mas com um coração vietnamita em seu peito (de sua diretora), esse drama com um pé no mar e outro na morte, abriu as alas da Croisette para a animação. Seu pavimento é uma HQ homônima do surfista e artista gráfico AJ Dungo, lançada no Brasil pela Nemo e baseada em uma perda pessoal dele. Um skatista se apaixona por uma surfista, na alvorada da adolescência de ambos, mas tomam "um caixote" do destino, na forma de um tumor.
L'ESPÈCE EXPLOSIVE, de Sarah Arnold (França): Um thriller ecológico mucho loco da diretora de "Leçon de Ténèbres". No nordeste francês, agricultores e caçadores estão em guerra. Os javalis, grandes e numerosos demais, devastam as plantações. Brun, um produtor de cereais à beira do abismo, não aguenta mais e desaparece. Um ano depois, Fulda, um policial explosivo (papel de Alexis Manenti), e Stéphane (Ella Rumpf), uma psicóloga em crise, investigam o caso. O que descobrem vai além da compreensão deles. O que surge entre eles não era esperado também.
SIEMPRE SOY TU ANIMAL MATERNO, de Valentina Maurel (Costa Rica): Uma celebração da fraternidade na América Hispânica. A inspirada Daniela Marín Navarro vive Elsa, de 28 anos, que passou um longo tempo na Bélgica, retorna para seu pais, a fim de se reencontrar com sua irmã mais nova, Amalia, envolvida numa rota esotérica.
JIM QUEEN, de Marco Nguyen e Nicolas Athané (França): É duro não morrer de saudades do diretor e ator Jorge Fernando (1955-2019) e de seu trabalho na série "Macho Man" (2011) em frente a este desenho animado queer hilário. Na trama, uma doença nova, chamada heterosis, faz os gays do mundo agirem em modo hétero. Piadas com supositórios, que soariam homofóbicas, viram bem divertidas no roteiro, em especial quando um influencer ursão tenta se curar dessa moléstia.
AVENTURA NAS ALTURAS ("Propeller One-Way Night Coach"), de John Travolta (EUA): Que delicinha é o longa de estreia do eterno Tony Manero (célebre por Danny Zucco e Vincent Vega também), que chega ao Brasil no dia 29, na Apple TV. É uma viagem no tempo até a era de ouro da aviação, batendo cabeça para uma das paixões de Travolta: pilotar aviões. No filme, o jovem entusiasta de aeronaves Jeff (o estreante Clark Shotwell) e sua mãe (Kelly Eviston-Quinnett) partem em uma odisseia de ida pelo país até Hollywood, transformando um simples voo na viagem de suas vidas. Entre refeições nos ares, atendimentos dedicados de comissárias de bordo (interpretadas por Olga Hoffman e Ella Beau Travolta, filha do astro e diretor) e escalas inesperadasz essa travessia se desenrola na forma de momentos mágico, traçando o rumo futuro do menino.
KARMA, de Gillaume Canet (França): Chega a dar medo o líder religioso que Denis Ménochet compõe neste thriller dirigido pelo autual intérprete de Astérix (na Netflix), com um pé no terror e outro no debate sobre o fundamentalista. Ménochet é o chefe de uma seita numa zona rural da França que acolhe sua irmã há muito sumida (Marion Cotillard) e faz dela alvo de sua bestial fé. A montagem de Laure Gardette eletriza do início ao fim e valoriza os gestos mefistofélicos de um dos atores de maior talento da Europa hoje.
CLUB KID, de Jordan Firstman (EUA): Longa sensação da seção Un Certain Regard de 2026, esta crônica de uma vida de excessos arrebatou a Croisette pelo dinamismo narrativo do estreante Firstman, também em cena. Ele nos mostra as mudanças de rotina de um promoter de festas que descobre ter uma filha.
ONDE NASCEM OS PIRILAMPOS, de Clara Vieira (Portugal): Um encantador exercício de estudantes da Escola Superior de Teatro e Cinema, de Lisboa. Sua narrativa transcende as estéticas de balanço geracional ao acompanhar um grupo de jovens a fazer campismo que começa a ouvir sons estranhos vindos da floresta, descobrindo que não estão realmente sós.
O SAMURAI E O PRISIONEIRO ("Kokurojo"), de Kiyoshi Kurosawa (Japão): Pavimentado sobre uma direção de arte estonteante de Tetsuo Harada, este anti-épico crepuscular do Brian De Palma nipônico assume como protagonista um castelo da era feudal onde um susserano arrogante (Masahiro Motoki) detém seu maior inimigo preso, sem dar a real dimensão à guerra que se dá em seu entorno.
THE MATCH, de Juan Cabral e Santiago Franco (Argentina): Nuestros hermanos sul-americanos metem um golaço em prol do documentário com uma espécie de VAR do icônico jogo entre a Argentina e a Inglaterra, disputado no Estádio Azteca, durante a Copa do Mundo de 1986. Utilizando imagens de arquivo raras, como a polêmica "Mão de Deus" de Maradona, o filme reconstrói esse evento como uma memória viva, mas também como o ápice de mais de duzentos anos de tensão entre as duas nações.