Como nossos pais

A paternidade, com seus desafios, falhas e acertos, desponta como o tema mais recorrente - e tocante - do Festival de Cannes de 2026, com fôlego para consagrar as atuações de Javier Bardem e Sebastian Stan

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

El Ser Querido

Duas realizadoras vão encerrar a seleção oficial de 22 concorrentes à Palma de Ouro de 2026 na tarde desta sexta: Léa Mysius, da França, exibe "Histoires de la Nuit", e Valeska Grisebach, da Alemanha, com "The Dreamed Adventure". Há uma curiosidade no ar na Croisette acerca das conexões que esse par de longas-metragens possa estabelecer com os temas mais recorrentes do 79. Festival de Cannes desde a sua abertura, no dia 12, com a fantasia romântica "La Vénus Électrique".

O mais celebrado de todos os concorrentes já vistos foi o espanhol "El Ser Querido", de Rodrigo Sorogoyen, que faz de Javier Bardem um reator nuclear de afetos... bons e ressentidos. Seu papel: um cineasta que resolve dar à sua filha mais velha, com quem tem uma relação ínfima, o protagonismo em sua nova produção. Nos sets, eles travam lutas que deixaram à flor da pele os nervos da mais badalada maratona cinéfila da Terra. Demarcaram a crise da paternidade como assunto dos maos urgentes. Por todo lado, de variados modos, falou-se da arte de ser pai e das artesanias do amor filial.

"A história contada por Sorogoyen remonta às origens da masculinidade tóxica, sobretudo numa sociedade como a minha, a espanhola, onde a morte de mulheres pelas mãos de seus companheiros, é recorrente e absudamente normalizada", disse Javier Bardem a Cannes, ao disparar como favorito às láureas da cidade.

Atitudes desprezíveis de pais de primeira viagem se fizeram notar na disputa pela Palma em "Gentle Monster", da austriaca Marie Kreutzer, sobre um pedófilo, e no brilhante "Fatherland", do polonês Pawel Pawlikowski, com foco na relação do autor prêmio Nobel Thomas Mann (1875-1955) com a filha escritora, Erika (papel da diva Sandra Hüller), ao saber do suicídio de seu filho, Klaus, em 1949.

 

Divulgação - Fjord

Há lugar ainda para pais que amam ao limite de desafiar as leis da Física, como é o caso da família de "Sheep in the Box", de Hirokazu Koreeda, que pega um construto de inteligência artificial (com cara de criança) para criar. Igualmente ousado é o pai que Sebastian Stan (o Soldado Invernal da Marvel) encarna no devastador drama (com batalhas de tribunal) "Fiórde" ("Fjord"), do romeno Cristian Mungiu. Ele e sua mulher (Renate Reinsve) correm o risco de perder a guarda de sua filharada depois que o Conselho Tutelar da Noruega, onde vivem, cisma que eles agridem seus rebentos.

Divulgação - Full Phill

A representação paternal mais doida deste Cannes veio fora de concurso, na comédia "Full Phil", de Quentin Dupieux, que faz Woody Harrelson comer até explodir - literalmente - no empenho de reatar os laços com uma filhota faminta (Kristen Stewart). Na seara documental, o exemplo (bom) de um papai sobre sua prole se fez aplaudir em "Dernsie: The Amazing Life of Bruce Dern", de Mike Mendez. O documetarista fala do apelo que Bruce (astro de "Nebraska") teve sobre sua filha atriz, Laura Dern.

Divulgação - Dernsie

Nesta quinta-feira (21), Cannes emabrca num clima de romance... ainda que assolado pelo aroma de pólvora... em "Coward", do belga Lukas Dhont, antes premiado no balneário com os dramas sobre despertar da identidade queer "Girl" (2018) e "Close" (2022). Seu novo longa acompanha a paixão entre dois soldados da I Guerra, que se envolvem na criação de esquetes de teatro para elevar o ânimo das tropas.

"A palavra covardia levou muitos homens a fazer o que não queriam para fugir da desgraça. Meu ponto é: quem é o covarde da História: aquele que derrama sangue em nome da honra ou aquele que se mantém coerente com seus desejos", diz Dhont ao Correio.

Neste sábado, o júri presidido pelo diretor Park Chan-wook vai anunciar a premiação de Cannes.