Jia Zhang-ke: 'Assistir a filmes também é uma forma de viagem'
Na véspera de estrear o esperado filme-ensaio "Torino Shadow", no Festival de Cannes, Jia Zhang-ke foi arrancado às pressas de um papo com o Correio da Manhã, antes de falar suas impressões sobre o nosso oscarizado "Ainda Estou Aqui", de seu amigo Walter Salles. Saiu, pois era esperado na sessão de "Sheep In The Box", concorrente à Palma de Ouro dirigido por Hirokazu Koreeda. Jia fala do colega japonês com respeito. Quando se refere a vozes autorais que secretam poesia nas veias do audiovisual, o artesão autoral chinês sempre é delicado. Seu novo trabalho parte de sua cinefilia mais neorrealista, numa conexão com mestres da Itália. Na trama, Ah Zhen (Zhao Tao) viaja do sul da China até Turim para ver o marido. Mas uma partida inesperada a leva a reencontrar a si mesma - e a descobrir o cinema do passado.
Há dois anos, ele concorreu à Palma dourada com "Levados Pelas Marés" ("Feng Liu Yi Dai", no original/ "Caught by the Tides" pelo mundo afora), que lhe rendeu o Prêmio da Crítica na Mostra de São Paulo. Ali, a ideia de peregrinação significa mirar a tecnologia. Agora, o artista inquieto por trás de "Nadando Até o Mar se Tornar Azul" (2020), "Os Hedonistas" (2016) e "Um Toque De Pecado" (2013) se deixa livre para debater o que titãs como Vittorio De Sica (1901-1984) lhe deram de mais precioso. Este papo rolou no terraço da sede da produtora MK2, em Cannes.
Quando documentou o senhor, no longa "Um Homem de Fenyang" (2014), Walter Salles enfatizou o lugar da andança na sua obra. O que o deslocamento trás de mais urgente à dramaturgia que o senhor cria?
Jia Zhang-ke - Especialmente nos anos 1980 e nos anos 1990, houve uma série de momentos muito específicos de mobilização social na China, nos quais as pessoas deixavam suas famílias para estudar, trabalhar, emigrar. Tudo isso tinha relação com o contexto histórico, e as escolhas de vida acabavam sendo também uma questão de sorte. Algumas pessoas não apenas deixaram suas cidades; elas chegaram a mudar completamente de país. Acho que isso vem, antes de tudo, da própria realidade chinesa. Mas também penso que é através das viagens e dos deslocamentos que conseguimos descobrir o que existe em comum entre diferentes regiões e países. Assistir a filmes também é uma forma de viagem. Quando viajamos, nós acabamos entendendo melhor quem somos.
Qual é a inquietação de Ah Zhen, a personagem de "Torino Shadow" interpretada por sua companheira, a atriz Zhao Tao?
Esse filme tem uma abordagem muito ligada ao feminino. Cada fragmento da minha obra toca aspectos diferentes da nossa vida. Então, penso que este trabalho é um filme sobre o próprio cinema. Ele está ligado, antes de tudo, à vida e também às mulheres, porque, para mim, o cinema sempre nasce dessa relação humana. Mas eu sinto que "Torino Shadow" não trabalha exatamente um sentimento de nostalgia que nos trava. Talvez a sua referência histórica central venha do cinema italiano, que possui uma tradição muito rica.
Que mirada Ah Zhen tem para o cinema?
Ela atravessa a cidade, faz negócios, trabalha em lugares diferentes, mas também observa as pessoas ao redor. Cada indivíduo possui sua própria história. Às vezes, quando olho para estranhos em parques públicos, sinto que todos carregam um universo inteiro dentro de si. Nas áreas públicas de cada metrópole, cada pessoa está contando silenciosamente sua própria história
De que maneira essa linhagem à italiana, de Fellini & cia o influenciou?
Acho que os filmes italianos da década de 1950 e 60 foram alguns dos primeiros a que assisti na vida. Há uma cena em "Ladrões de Bicicleta", do De Sica, na qual um pai leva o filho para um grande jantar. Eles são pobres, mas o pai decide fazer algo acima das próprias possibilidades para agradar o garoto. Isso me emocionou profundamente porque meu pai fazia exatamente a mesma coisa quando eu era criança e marcou-me muito perceber isso no cinema. Mesmo sem terem dinheiro, meus pais faziam questão de proporcionar momentos felizes para mim. Eles se sacrificavam para me ver feliz, especialmente em datas importantes, como aniversários. Acho que muitos pais fariam o mesmo.
De que maneira, em sua dinâmica transitória, de andança, nasce uma noção de território... e, com ela, uma sensação de pertencimento?
Ao viajar com esse filme, estou entendendo mais as dificuldades da vida e percebendo que o amor é algo muito comum entre todos os seres humanos. Nos meus curtas e longas existe sempre uma dimensão espacial. Mas ela não é apenas geográfica. Envolve também uma dimensão humana e natural, ligada às montanhas, às estradas, às plantas e às cidades. Para mim, cada pessoa entra no cinema carregando a própria vida dentro do coração. Quando eu entro numa sala do Palais de Cannes, para ver um novo Koreeda, levarei comigo todas as experiências e memórias dessas conversas.