'Paper Tiger' leva a Cannes um James Gray refinado, autoralíssimo e regado a ação
Sente-se um clima à moda “Justiça Cega” (1990) ao longo dos 115 nevrálgicos minutos de “Paper Tiger”, em especial quando Adam Driver brinca de Richard Gere num thriller com tudo de melhor que a obra de James Gray carrega. O longa-metragem dos anos 1990 falava de corrupção na polícia, o que se vê, de modo mais elegante, no último dos 22 candidatos à Palma de Ouro de 2026 a ter sido indicado. Atos ilícitos do anjo da leí (caído) vivido por Driver, o Gary Pearl, aproximam seu personagem - outrora um inspetor admirado - do tira sem honra encarnado por Gere, sob a direção de Mike Figgis, no cult do passado. A diferença é que Gray não quer fazer de seu protagonista um vilão a ser passionalmente odiado. Gary tem coração e, por ele, corre um sangue leal... como se vê de praxe na obra do cineasta de NY adorado pela Croisette.
Primeiro dos (dois) concorrentes americanos à Palma dourada deste ano a passar pelo Palais des Festivals, “Paper Tiger” fez sua estreia na noite deste sábado e saiu da sessão para a crítica com uma respeitável salva de aplausos. A cota de ação que carrega injeta empolgação, sem diluir o sei coeficiente crítico de reflexão. Gray foi, uma vez mais, produzido pela empresa brasileira RT Features, de Rodrigo Teixeira. A RT e ele trabalharam antes em “Ad Astra” (2019), com Brad Pitt, e em “Armageddon Time” (2022), com Anthony Hopkins e Anne Hathaway. Combinaram esforços ainda em uma live seminal, em plena pandemia. Essa nova sinergia entre o diretor de 57 anos e a produtora nacional por trás do oscarizados “Ainda Estou Aqui” (2025) e “Me Chame Pelo Seu Nome” (2017) tem Scarlett Johansson (na sua mais inspirada atuação) e Miles Teller ao lado de Driver. Colaborador de carteirinha do cineasta, Joaquin Baca-Asay cuidou da direção da fotografia, em enquadramentos claustrofóbicos, que ampliam a paranoia de um enredo ambientado nos anos 1980.
Sua trama fala da roubada na qual os irmãos Pearl, Gary e Irwin (Teller) se envolvem depois de entrarem num esquema criminoso com uma célula da máfia russa. Scarlett é uma coadjuvante de luxo (e riqueza), Hester, mulher de Irwin, que também lida com contratempos.
Estudado mundialmente pela precisão cirúrgica de seus planos, Gray fez fama no início dos anos 1990 ao conquistar o Leão de Prata do Festival de Veneza com “Fuga para Odessa”, dirigindo Tim Roth e Vanessa Redgrave. Passeou pela Berlinale com “Z: A Cidade Perdida”, em 2017, tendo Charlie Hunnam, Robert Pattinson e Tom Holland consigo. Antes, concorreu em Cannes ainda com “Era Uma Vez em Nova York” (2013) e “Caminho sem Volta” (2000), ambos com Joaquin Phoenix. A Cinemateca do MAM está fazendo uma retrospectiva dele.
Suas investigações sobre parceria e confiança (em família) são reiteradas em “Paper Tiger”, com um tom mais frenético de tensão do que a média de seus longas. Driver equilibra a figura ambígua de Gary entre a picaretagem e o vigilantismo com nível raro de harmonia.
O outro longa dos EUA em competicão em Cannes, “The Man I Love”, de Ira Sachs, roteirizado pelo carioca Maurício Zacharias, ficou para o dia 20.