Pousando na sopa de Cannes
Sensação na Berlinale, onde venceu o Prêmio do Júri Ecumênico, 'Moscas' voa do México para a Croisette, em projeções paralelas concorridas, consagrando Fernando Eimbcke
Contam-se nos dedos (da História do século XXI) os filmes que Cannes buscou nos festivais que precedem suas atividades, de janeiro a abril, apelando, com alguma fidelidade, para sensações de Sundance, nos EUA. Lá pelos idos das décadas de 1950 e 60, entretanto, era praxe um mesmo filme ser exibido em concurso na Croisette e na Berlinale, mas, hoje, não.
Mas, neste ano em que filmes latino-americanos andam tendo um belo desempenho em mostras paralelas à competição pela Palma de Ouro, vide "El Deshielo" (do Chile) e "The Match", da Argentina, o drama mexicano "Moscas" conseguiu cruzar a linha imaginária de cordialidade que separa os dois eventos, o germânico e o francês, brilhando nos dois. Sua narrativa celebra a afetuosidade em imagens em P&B que serão projetadas no cine Alexandre III nesta segunda e na quinta. Sua seção se chama Cannes Cinéphiles e sua pátria esteve lá faz pouco, em 2023, com "Tótem".
Ao longo de 99 enxutos e comoventes minutos, este "Central do Brasil" mexicano, dirigido por Fernando Eimbcke (de "Olmo"), cozinha o melodrama na água fervente do humor e do legado analógico dos nos 1990 para mostrar como a inocência de uma criança pode desarmar muita guerra. Saiu do Festival de Berlim com o Prêmio do Júri Ecumênico por sua empatia latente.
No roteiro escrito por Vanesa Garnica com o cineasta, a solitária Olga (Teresita Sánchez) leva uma rotina avessa a afetos até se ver obrigada a alugar um quarto em casa para conseguir dinheiro para uma intervenção cirúrgica aos pés. Um homem (Hugo Ramírez) se candidata à vaga, sem lhe contar que tem um filho pequenino, Cristian (Bastian Escobar). A mãe do menino está hospitalizada, a lutar contra uma doença terminal. Em determinado momento, Olga terá de tomar conta do guri, o que a retira da sua zona de conforto e conduz o público a situações onde o humor surge com naturalidade, com ecos de "Chaves", mas à moda do neorrealismo de Vittorio De Sica ("Ladrões de Bicicleta").
"Oscar Wilde dizia: 'Onde há dor, há um lugar sagrado'. As pessoas deste meu filme se juntam por motivos que doem, mas existe luz nessa história", disse Eimbcke ao Correio da Manhã.
Walter Salles e seu "Central foram uma inspiração direta do realizador - ao lado de "O Garoto", rodado por Charles Chaplin em 1921 -, ganhou o Urso de Ouro em 1998, deflagrando a chamada Nova Onda Latino-Americana, que fez o cinema (o nosso e o) de nuestros hermanos empregar um conjunto de procedimentos documentais para narrar, na ficção, urgências de seus territórios. A consequência dessa marola foram sucessos como "Amores Brutos", "Cidade de Deus", "O Outro Lado da Lei" e "Temporada de Patos", rodado por Eimbcke lá em 2004.
"Filmamos 'Moscas' como se fosse um documentário pois eu queria a energia vital das ruas no filme, sem ter que parar o trânsito para isso, cuidando apenas de avisar as pessoas de que havia um filme sendo feito e consultando-as sobre autorização do uso de imagem para o caso de elas aparecerem", disse Eimbcke, que extrai uma interpretação tocante de Bastian.
Ao ser laureado em Berlim, o cineasta cravou: "O grande realizador Jean-Luc Godard dizia que o ponto central do cinema não é fazer filme político é fazer filmes politicamente. Outro mestre, Charles Chaplin, dizia que cinema não é lugar para passar mensagem, pois as mensagens devem ser passadas em plenárias. Neste palco, eu passo uma mensagem: 17.000 crianças morreram em Gaza. Clamo para que as pessas percebam isso, pois esse filme é dedicado a toda às crianças do mundo", disse Eimbcke, que ganhou ainda um prêmio da massa leitora do Berlinler Morgenpost.
Nesta terça-feira, outra mostra paralela de Cannes, a Semana da Crítica, acolhe um longa mexicano, só que feito com o Brasil (por meio da produtora chamada Desvia) e a Dinamarca: "Seis Meses no Prédio Rosa e Azul", de Bruno Santamaría Razo. Inspirado nas memórias do diretor e rodado em 16mm, o filme nos leva para a Cidade do México no início da década de 1990. No dia em que completou 11 anos, Bruno percebeu ter sentimentos por seu melhor amigo, Vladimir. Os dois entram em conflito com o anúncio repentino de que seu pai foi diagnosticado com HIV. Como nas canções de salsa, a família canta e dança para se afastar da dor. Trinta anos depois, o diretor Bruno filma e reimagina a memória do que não conseguiu compreender totalmente quando era criança. A participação brasileira no nessa narrativa inclui o trabalho das produtoras Rachel Daisy Ellis e Camille Reis; uma participação do ator cearense Demick Lopes; e a intervenção artística dos montadores Marília Moraes e Eduardo Serrano, da desenhadora de som Miriam Bideram, do compositor Leo Chermont, do estúdio de efeitos especiais Aberração Kromatica Filmes, da produtora executiva Amanda Luna, e das pós-produtoras Bia Baggio e Ivich.
Cannes segue até o dia 23 de maio.