A terceira idade mostrada com o devido respeito

Por Luiz Carlos Lacerda* - Especial para o Correio da Manhã

Em estado de graça, Reginaldo Faria vive um idoso com inadaptado ao mundo globalizado e robótico

O cinema brasileiro pouco se dedicou à essa temática do universo da pessoa idosa. "Em Família" (1971), Paulo Porto - que atua e assina a direção - e a veterana Iracema de Alencar desenvolvem o trágico jogo de empurra de filhos do velho casal e a sempre perspectiva do asilo. Prêmio no Festival de Cinema de Moscou, sensibilizou plateias com a alta carga de melancolia e tristeza.

"Chuvas de Verão" (1978), de Carlos Diegues - entre outros núcleos dramaturgicos - acena para a possibilidade do Amor na terceira idade - com o pioneirismo característico do diretor, especialmente na delicadeza da cena entre os atores Miriam Pires & Joffre Soares, consolidando o Eros que habita em nós eternamente. Destaque para o pioneirismo do filme, anterior ao estadunidense "As Pontes de Madison", de Clint Eastwood, lançado em 1995.

Pois agora o diretor Regis Faria realiza "Perto do Sol é Mais Claro", filme que acompanha o cotidiano de um idoso, inadaptado ao mundo digitalizado desse cada vez mais robótico século XXI , cuja dificuldade alimenta o preconceito dos que - à forceps - pretendem iniciar um homem de 85 anos que insiste em utilizar sua jurássica máquina de escrever para dedilhar um romance de alta qualidade literária - atestado de sua capacidade intelectual e criativa.

A rejeição no trabalho; a insistente preocupação dos filhos com a sugestão de sempre (residência geriatrica coletiva) e a solidão empírica do personagem, no entanto, é construída com um senso de humor que não deixa esse tema comumente dramático dar espaço para o baixo-astral.

Assim como o idoso interpretado por um de nossos maiores atores - que é o eclético Reginaldo Faria, o filme caminha com firmeza na construção da esperança para quem ainda faz questão de viver "a beleza que é ser um eterno aprendiz".

E a presença solar da atriz Vanessa Gerbelli ilumina qualquer ameaça de sombra nessa película P&B (aliás, uma acertada opção estética). Com a competente colorização de Bernardo Mendonça que constroi uma atmosfera entre film noir introspectivo e a ambiência de toda a Nouvelle Vague.

O filme, produzido em plena pandemia, e por uma equipe que reúne principalmente a família do diretor (filho do protagonista) é uma prova da capacidade que o nosso longevo cinema brasileiro possui de realizar, mesmo em meio a tempestades, um belíssimo e comovente filme. Imperdível!

*Cineasta e poeta