A Croisette ao alcance de um clique

Lar de produções premiadas no balneário em 2025, a plataforma MUBI faz mostra de Cannes em sua grade, com destaque para produções africanas

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

O jovem Spike Lee já dizia para a Croisette 'Faça a Coisa Certa'... agora repete essa máxima à MUBI

No feriado do Dia do Trabalhador, lá em primeiro de maio, a plataforma digital MUBI abriu a grade do mês com "Faça a Coisa Certa" (1989), de Spike Lee, prometendo uma mostra de pérolas com foco em Nova York, mas acertando nos festejos da programação de Cannes. O filme que deu fama de pilar das lutas antirracistas ao realizador de "Febre da Selva" (1991) teve seu parto na Croisette, em luta pela Palma de Ouro. Saiu sem nada do balneário pois o então presidente do júri, o alemão Wim Wenders, considerou o gesto de Spike provocação sem proposição. Foi necessário o tempo corrigir essa impostura.

O www.mubi.com endossa essa correção ao abrir uma nova frente para esse cult, ao mesmo tempo em que resgata outras preciosidades com o selo Cannes de qualidade. "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999), sucesso que repaginou a obra de Pedro Almodóvar, é uma das gemas desse garimpo online.

Divulgação - 'Bamako' veio do Mali, com DNA mauritano, em 2006

O filé desse streaming é uma seleção de títulos egressos de diferentes locais da África que se fizeram notabilizar via Cannes. "Bamako" (2006) compõe o bonde. O mauritano Abderrahmane Sissako assina adireção, narrando o calvário de Melé, uma cantora de barzinho prestes a perder seu casamento, por falta de amor. Uma batalha política contra o FMI envolvendo vizinhos de seu conjunto habitacional chacoalha seu cotidiano.

Vencedor da Palma de Ouro de 1975, o argelino Mohammed Lakhdar-Hamina (1934-2025) vai para o rol da MUBI com o longa que o imortalizou "Chronique Des Années De Braise", aqui traduzido como "Crônica dos Anos de Fogo". No roteiro desse drama, Ahmed, um pastor pobre, deixa sua aldeia na Argélia com a esposa e os dois filhos para ir para a cidade se juntar ao primo Kouider, em busca de uma vida mais fácil. Ele consegue um emprego em uma pedreira, onde descobre a miséria e a injustiça. Lá conhece Miloud, um louco visionário que vagueia pelos cemitérios. A Segunda Guerra Mundial eclode em meio aos desdobramentos da rotina laboral de Ahmed, que vê sua família ser levada por uma epidemia de tifo. Haja resiliência!

Divulgação - Monangambé levou Sarah Maldoror à Quinzena de Cannes, em 1971

Francesa de origem caribenha, celebrizada como griot (contadora de histórias) em andanças pelas Áfricas, Sarah Maldoror (1929-2020) passou na Quinzena de Cineasta de Cannes, em 1971, o curta-metragem "Monangambé". Ali, narra os abusos dos traficantes de escravizados portugueses em sua colônia de Angola por meio da tortura de um prisioneiro, fundamentada na ignorância e na incompreensão. Tá na MUBI já. Estrearam por lá ainda "Abouna - Nosso Pai" (2002), do chadiano Mahamat-Saleh Haroun, e "A Escolha" (1987), do burquinense Idrissa Ouedraogo (1954-2018), duas celebridades e solo cannoise.

Duas produções dirigidas pelo italiano Paolo Sorrentino (de "A Graça") com atores americanos e ingleses em destaque em suas trupes, baterão ponto na MUBI no próximo dia 15. Lá estarão, neste maio, por que é tempo de Cannes. Ambas disputaram a Palma de Ouro. "Aqui É o Meu Lugar" ("This Must Be The Place", 2011) traz Sean Penn como um roqueiro à la The Cure que se mete numa cruzada de vingança contra criminosos nazistas. O visual do ator, com franjinha a cair no olho, é um achado. Já "Juventude" ("Youth", 2015) põe dois amigos octogenários, um maestro (Michael Caine) e um cineasta (Harvey Keitel), a curtirem a velhice num spa.

A penúltima estreia na MUBI deste mês, o arrebatador "O Dia De Peter Hujar" ("Peter Hujar's Day"), não nasceu em Cannes, e, sim, em Sundance, com batismo na Berlinale. No entanto, seu diretor, Ira Sachs, está em concurso na Croisette este ano, com "The Man I Love", cujo roteiro é do carioca Maurício Zacharias. A trama de Hujar, lá de 2025, é um drama afetivo sobre cumplicidade que ampliou o prestígio de um outro profissional brasileiro, seu montador, o paulista Affonso Gonçalves, que editou "Ainda Estou Aqui". Essa reconstituição da cena cultural nova-iorquina da década de 1970, centra-se no convívio entre a escritora Linda Rosenkrantz e o fotógrafo Peter Hujar (1934-1987), vividos por Rebecca Hall e Ben Whishaw. Sua força vem da edição meticulosa de Affonso.

Indicado ao Oscar, "Foi Apenas Um Acidente", do iraniano Jafar Panahi, ganhou a Palma de 2025 e hoje está na MUBI. Ao lado dele figura o norueguês "Valor Sentimental", que rendeu a Joachim Trier o Grande Prêmio do Júri na Côté d'Azur