A estética da difamação
Em 'L'Abandon', de Vincent Garenq dá uma aula de política que promete fazer barulho ao longo de todo o ano
Na manhãzinha de quinta, seu terceiro dia de atividades, Cannes ganhou de presente do realizador Vincent Garenq uma aula de política que promete fazer barulho ao longo de todo o ano nos cinemas da França: "L'Abandon".
O título pode até sugerir um enredo sentimental sobre amores largados, mas, na prática, o que se vê é um thriller acachapante sobre as sequelas do atentado ao jornal Charlie Hebdo, em 7 de janeiro de 2015.
O roteiro escrito por Garenq e Alexis Kebbas não revive essa data trágica, mas, sim, uma outra tragédia dela derivada, em 16 de outubro de 2020, em Yvelines: a decapitação do professor Samuel Paty. O crime decorre de uma campanha difamatória por conta de uma aula na qual ele discutiu com turmas de diferentes origens culturais as caricaturas do "Charlie" que iritaram o Estado Islâmico.
Antoine Reinartz encarna Paty em madura atuação, hábil em especial na forma de deixar transpirar o temor desse docente diante de ameaças. Foram as fake news que mataram Paty. É sobre elas que o longa trabalha, desmontando a microfísica mentira.