Ondas da juventude
Baseada em HQ de tintas autobiográficas, 'In Waves' demarca um espaço de excelência para a animação na Croisette, ao abrir a disputa dos filmes que concorrem na Semana da Crítica
Espaço de descoberta de novas vozes autorais, onde o Brasil fez barulho com "Levante" (2023) e "Gabriel e a Montanha" (2017), a Semana da Crítica é um dos mais antigos veios de Cannes - na paralela à luta pela Palma de Ouro - para a descobertas de joias do porte de "In Waves". De CEP francês, mas com um coração vietnamita em seu peito (o da diretora Phuong Mai Nguyen), esse drama com um pé no mar e outro na morte, abriu as alas da Croisette para a animação. Seu pavimento é uma HQ homônima do surfista e artista gráfico AJ Dungo, lançada no Brasil pela Nemo e baseada em uma perda pessoal dele.
"Iniciei o projeto buscando fazer justiça ao estilo dele, porém, aos poucos, em resposta sensível às emoções em jogo, fui encontrando a minha voz", diz Phuong Mai ao Correio da Manhã, na sede da Unifrance (órgão oficial de promoção audiovisual da França) em Cannes. "Eu vi muitos vídeos de surfe na concepção da narrativas, só que a minha produtora sempre me indicava o que considera 'O' filme de surfe mais importante de todos: 'Caçadores de Emoção'. E é mesmo bom. Só que eu queria uma abordagem mais humilde do esporte".
De um colorido dos mais acachapantes, "In Waves" é um filme que dói. Dói sobretudo por se deixar levar pelo inusitado, qual estivesse numa nau de autodescobertas. Em sua trama, Cannes navegou no amadurecimento do skatista AJ (interpretado na voz do multiartista Will Sharpe). Adolescente, o rapaz é apaixonado por desenho e por skate. Um novo benquerer se impõe em sua rotina no momento em que tromba com Kristen (na voz de Lyna Khoudri). Ela é uma surfista impulsiva, surpresa com a rala intimidade do rapaz com a água. Eles se encontram nas praias californianas de Los Angeles. Entre os dois nasce uma relação intensa, construída entre tardes de chamego. Tudo flui até a descoberta de uma moléstia grave nas células de Kristen. Essa doença altera brutalmente o percurso desses enamorados, obrigando-os a confrontar a fragilidade do Tempo.
"As principais viradas da história acontecem nos instantes em que nada é dito, deixando o mar dar o traço da catarse", diz Sharpe ao Correio, sem se orgulhar de sua destreza ao surfar. "Da prancha eu não caio, mas não chamo ninguém para ver como eu me saio nas ondas".
Embora siga uma linha dramatúrgica de romance geracional (tipo "A Culpa É Das Estrelas"), "In Waves" dribla algoritmos mais popularescos e aposta num caminho existencial.
"É um romance no qual a escolha das cores reagem às distintas experiências das personagens", diz Phuong Mai.
Na quinta, uma animação japonesa se fez notabilizar no coração de Cannes, via Quinzena: "We Are Aliens", de Kohei Kadowaki. Em seu enredo, uma confusão aparentemente banal afeta para sempre a vida de um menino.
Entre os títulos animados mais esperados de Cannes em 2026, o que mais (e melhor) desperta a curiosidade local é "Jim Queen", de Marco Nguyen e Nicolas Athané, sobre um vírus que transforma gays em héteros, contra a vontade deles.