Garimpo de ousadias, o Olhar de Cinema abre suas jazidas
Desde 1973, o Sul do Brasil tem um festival que se notabilizou como um dos mais influentes das Américas, Gramado, que se tornou uma referência nacional de celebração da autoralidade. Há, contudo, outros veios, naquela mesma região, para que as estéticas autorais sejam vistas sob outras óticas... sobretudo a do risco... da invenção radical. É esse o papel do Olhar de Cinema. Chama-se assim o Festival Internacional de Curitiba, que anunciou nesta terça-feira a programação de sua 15ª edição, agendada dos dias 4 a 13 de junho. Por lá passarão 70 filmes, entre longas e curtas-metragens. Esse montante será exibido em diferentes espaços culturais da capital paranaense, como o MON – Museu Oscar Niemeyer, a Ópera de Arame, o Cine Passeio, a Cinemateca e o Teatro da Vila.
Consolidado como um dos principais eventos dedicados ao cinema independente no Brasil, o festival chega à sua nova edição reforçando a proposta de uma curadoria voltada à diversidade estética e narrativa. Para o codiretor artístico Gabriel Borges, o evento atinge um momento de maturidade, mantendo o compromisso com obras que fogem ao convencional e ampliam o alcance do público. Já o diretor-geral Antonio Gonçalves Jr destaca a vocação do festival para apresentar diferentes perspectivas sobre o fazer cinematográfico.
A abertura será marcada pela exibição da sci-fi "Yellow Cake", de Tiago Melo, um dos achados do Festival de Roterdã, na Holanda, que terá estreia nacional em uma sessão especial na Ópera de Arame. A estrutura do espaço será montada para receber cerca de 1.500 espectadores. O filme é protagonizado por Rejane Faria e Tânia Maria.
Ambientada no município de Picuí, na região da Borborema, no Seridó Oriental paraibano, e falado parcialmente em Inglês, “Yellow Cake” transborda tensão ao explorar um dos lados mais perigosos da mineração: o risco de contágio por radiação. Mineiros como tântalo, nióbio e (sobretudo) urânio estão no foco da investigação de Rúbia Ribeiro (Rejane Faria), uma cientista nuclear envolvida em um projeto secreto para erradicar o Aedes aegypti utilizando a riqueza mineral da região. Agentes dos EUA, mosquitos famintos e conflitos políticos estão no leito desse rio de brasilidade cristalina, onde Dona Rita (Tânia Maria) é interlocutora de Rúbia e alvo dos monstrinhos que zumbem.
“Quis fazer um filme onde a Ciência fosse protagonizada por uma mulher brasileira preta, do Nordeste. Nosso saber científico, absurdamente, é sempre colocado como algo menor. Basta aparecer um pesquisador estrangeiro que ele será mais valorizado. O governo aceita um projeto nuclear controverso de um cientista estrangeiro apenas porque ele é americano. Isso é assustador”, explicou Tiago ao Correio.
A programação está dividida em várias mostras. Encontram-se por lá: Competições Brasileira e Internacional, Novos Olhares, Mirada Paranaense Sanepar, Exibições Especiais, Olhares Clássicos e Pequenos Olhares.
Na Competição Brasileira de longas, estão "A Noite e os Dias de Miguel Burnier", de João Dumans; "Adulto/Homem", de Pedro Diógenes; "Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha", de Janaína Marques; "Maxita", de Mariana Machado e Ana Maria Machado; "Olhe Para Mim", de Rafhael Barbosa; "Quase Inverno", de Rodrigo Grota; "Reparação", de Marcus Curvelo; e "Telúrica, a íntima utopia", de Mariana Lacerda.
Já entre os curtas-metragens brasileiros figuram "Cerimônia", de Fabio Ramalho, André Antonio e Chico Lacerda; "Disciplina", de Affonso Uchôa; "Duwid Tuminkiz – Makunaima é Duwid?", de Gustavo Caboco Wapichana; "Marimbã está acontecendo", de Maryn Marynho; "O Segredo Sagrado", de Everlane Moraes; "Pinguim de Doce de Leite", de Ana Vitória Miotto Tahan; "Pirexia", de Nico da Costa; e "Um Filme Para Lembrar da Utopia", de Reinaldo Cardenuto.
A Competição Internacional reúne longas como "Um Calendário Incompleto", de Sanaz Sohrabi; "Bouchra", de Orian Barki e Meriem Bennani; "Cartas a Meus Pais Mortos", de Ignacio Aguero; "Se Pombos Virasse Ouro", de Pepa Lubojacki; "A Noite Já Está Partindo", de Ramiro Sonzini e Ezequiel Salinas; "Não Me Deixe Morrer", de Andrei Epure; e "O Profeta", de Ique Langa, além de oito curtas-metragens.
Entre os curtas internacionais estão "Outra Terra", de Ben Russell; "Má Sorte", de Jan Eilhardt; "Desencaixar", de Danielle Kaganov; "Dragão", de Yashira Jordán; "Cada Época Sonha com a Próxima", de Johannes Gierlinger; "O Inimigo", de Andrej Chinappi; "Nan Ginen", de Feguenson Hermogène; e "Sussurros de um Perfume Ardente", de Mo Harawe.
Na mostra Novos Olhares, dedicada a propostas mais experimentais, destacam-se "A Paixão Segundo GHB", de Gustavo Vinagre e Vinicius Couto; "Como Todo Mortal", de Maria Molina Peiro; "Gato na Cabeça", de Laila Pakalnina; "Joy Boy: Um Tributo a Julius Eastman", do Walking Backwards Collective; "O Mez da Gripe", de William Biagioli; "Passado Futuro Contínuo", de Firouzeh Khosrovani e Morteza Ahmadvand; e "Segunda Pele", de Dea Ferraz.
Voltada ao público infantil, a mostra Pequenos Olhares apresenta o longa "Papaya", de Priscilla Kellen, acompanhado por curtas como "A Menina que Queria ser Pedra", de Jackson Abacatu; "Aterro Zeitgeist", de Kapel Furman; "Canção de Peixes e Pássaros", de Anny Uribe e Juan José Arévalo; "Ecos do Amanhã", de Antônio Eder; "Kika Não Foi Convidada", de Juraci Júnior; "Nosso Tempero", realizado por alunos da Escola Municipal João Victor Lagoa Nova e equipe Animazul; "O Jardim Mágico", de Carlon Hardt e Naira Carneiro; e "Theo", de Monica Palazzo e Jo Galvv.
A produção local também ganha espaço na Mirada Paranaense Sanepar, com o longa "A Holandesinha", de João Gabriel Kowalski e Luisa Godoi, além de curtas como "Enluarada", de Pedro Nascimento; "Estrelas Terrestres", de Rafael Neri M. Ferreira; "Imunidade", de Milla Jung e Candida Monte; "Las Vegas, Cuba", de Felipe Eugênio Lovo; "O Caçador", de Lucas Mancini; "Reza para Baobabs: Um Ebó de Palavras para Ayami e Zola", de Bea Gerolin; "Tornar-se Ciborgue no Interior", de Louisa Savignon; e "Yvyra’ijá há Jate’í Reheguá – Os Quatro Guerreiros e o Jatei", do Coletivo Ava Guarani de Cinema.
Já a seção Exibições Especiais traz títulos como "Anistia 79", de Anita Leandro; "Barbara Para Sempre", de Brydie O’Connor; "Flora & Airto: O Som Revolucionário", de Jom Tob Azulay; "Futuro Futuro", de Davi Pretto; "Histórias de um Bom Vale", de José Luis Guerin; e "Rita Moreira: Crônicas, Memórias e Videotape", de Sérgio Santos Barroso.
A programação inclui ainda a mostra Olhares Clássicos, com obras como "Beirute Fantasma", de Ghassan Salhab; "Veludo Azul", de David Lynch; "Corações Desertos", de Donna Deitch; "As Aventuras do Príncipe Achmed", de Lotte Reiniger; "High School", de Frederick Wiseman; "Hollywood Studios", de Arthur Rogge; "Aqui e em Qualquer Lugar", de Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville; "Eles Não Existem", de Mustafa Abu Ali; "Vento Norte", de Salomão Scliar; e "As Harmonias de Werckmeister", de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky.
O filme de encerramento será o magistral épico turco "Salvação", de Emin Alper, ganhador do Grande Prêmio do Júri da Berlinale, que terá estreia sul-americana no Olhar de Cinema.
Os ingressos começam a ser vendidos no dia 12 de maio, com preços entre R$ 8 e R$ 16, e parte da programação contará com sessões gratuitas. Além das exibições, o evento promove a segunda edição do MECI – Mercado do Cinema Independente, entre os dias 9 e 11 de junho, no Museu Oscar Niemeyer, com foco na conexão entre profissionais do setor audiovisual.