Virginie Efira: 'Atores se prendem às personagens, mas o essencial é em que estado a direção te coloca'
Aniversariante da semana, com 49 aninhos completados no dia 5, a belga Virginie Efira terá duas chances de sair do 79° Festival de Cannes com o prêmio de Melhor Interpretação. A disputa pela Palma de Ouro começa terça-feira que vem (12) e segue até dia 23, conferindo o desempenho dessa estrela europeia sob a direção do japonês Ryûsuke Hamaguchi ("Soudain") e do iraniano Asghar Farhadi ("Histoires Parallèles"). Os dois ganharam Oscars. Já ela venceu o César, o Oscar dos franceses, em 2023, por "Memórias de Paris". Trabalhou em produções com status de cult, como "Benedetta" (2021) e "Elle" (2016), ambos do holandês Paul Verhoeven. Antes de se firmar como uma das atrizes francófonas mais prolíficas da atualidade, apresentou programas de TV de diferentes estéticas.
Nesta entrevista, concedida ao Correio da Manhã em visita ao Festival de Marrakech, no Marrocos, Virginie avalia o aprendizado que o cinema lhe dá, filme após filme.
Os dois filmes que te levam à composição oficial de Cannes este ano têm a assinatura de diretores que não pertencem à Europa. Como é a experiência de explorar outras hipóteses de representação de sua identidade através de outras culturas?
Virginie Efira - É difícil fazer criações paralelas bem-sucedidas dentro da indústria, sobretudo fora dos EUA, da França. Mas quando você trabalha com Asghar Farhadi e Ryusuke Hamaguchi, há um cinema livre. E a forma como a França financia os filmes… é outra coisa. É um sonho. Admiro como a França financia filmes, por estimular a liberdade. E com eles, em filmes que, de alguma medida também são franceses, encontro formas de trabalho distintas, que me exigem muita leitura, que exigem um estado de espírito. Hamaguchi tem percepção plena do que está acontecendo. Com ele, um filme não é só "ação" e "corta". Começa antes, ao pensar o plano. Farhadi também pensa os planos muito antes de rodar. Com ele, há menos liberdade para o ator, muito menos. Você precisa encontrar seu lugar dentro de um plano perfeitamente desenhado. Aí quando encontra...
Você tem dito publicamente que foi uma grande honra conhecer Ryusuke Hamaguchi e filmar "Soudain" com ele. O que mais te encantou nesse processo?
Ele é hoje um dos maiores formalistas do cinema. O que ele consegue dizer sobre a sociedade e a intimidade é impressionante. A maneira como ele reúne uma equipe e cria uma espécie de mundo paralelo, próprio, é singular. Ele simplesmente coloca a câmera no melhor lugar possível para observar a vida. É simples e, por isso, é incrível. Em "Soudain", eu tinha muito texto em francês para aprender, e também em japonês.
Você emplacou um cult, no ano passado, sob a direção de Rebecca Zlotowski e ao lado de Jodie Foster, que foi "Vida Privada". Rebecca é um dos medalhões autorais que têm passado pela sua carreira. O que você tem tirado de melhor dessas parcerias com cineastas de grife?
Às vezes, os atores se prendem às personagens, mas o essencial é em que estado a direção te coloca, com o que as e os cineastas te alimentam antes mesmo das cenas. É por aí que você entra num determinado mundo e sente o coletivo. Ao vibrar nesse estado, você não se limita só à sua pequena parte num grande set. Eu filmei com Paul Verhoeven (o longa "Benedetta", de 2021), outro cineasta imenso, e, com ele, você aprende a se desfazer do ego, a entender que o filme não é sobre o ator... é algo maior do que você. Com grandes diretores, a gente observa um trem inteiro passando diante de nós. Quanto mais filmes eles fazem, menos precisam falar com os atores. Eles confiam. Entendem que o elenco pode alimentar um filme. É o caso com Rebecca Zlotowski.
Como se deu o processo com ela em "Vida Privada"?
Rebecca está no campo da compreensão íntima do trabalho de um intérprete. Quando há intimidade, admiração, afeto, não há necessidade de falar muito. Há continuidade. Com Justine Triet (diretora do oscarizado "Anatomia de uma Queda", com quem Virginie filmou "Na Cama com Victoria" e "Sibyl"), descobri a prática de trabalho que me interessa. Antes eu fazia filmes mais comerciais, comédias. Com ela encontrei outra ligação. Às vezes eu preciso mais entender o filme do que a personagem.
Existe um "método Efira" de atuação?
Meu método é me adaptar. Depende do diretor. Estudo é indispensável. Quando você decide fazer uma personagem, abre algo dentro de você para deixar entrar coisas: de um filme que viu, de uma memória recordada. Você precisa confiar nisso. Você trabalha sem dizer "estou trabalhando". Às vezes, dependendo do filme, há um trabalho mais definido. Com Rebecca Zlotowski, há quase uma psicanálise da personagem, para se chegar a imagens mentais de quem aquela pessoa é. Mas é importante preservar o mistério e o segredo das suas personagens. Aprendi isso com Verhoeven. No set, ele sempre diz "talvez seja assim, talvez não". Em "Benedetta", ele filmava e dizia "talvez seja culpada, talvez inocente". Eu tinha o meu próprio filme na cabeça. Liberdade total. Dizem "ação" e você vai, como se uma mão invisível te levasse.