O circuito se Sganzerla no rugido de Djin
Filha do diretor e da estrela de cults como 'A Mulher de Todos' se firma como realizadora ao lançar 'Eclipse', um thriller sensorial sobre ciências e ancestralidades da natureza
Filha do diretor e da estrela de cults como 'A Mulher de Todos' se firma como realizadora ao lançar 'Eclipse', um thriller sensorial sobre ciências e ancestralidades da natureza
Com estreia marcada para esta quinta-feira, o thriller "Eclipse" chega ao circuito como uma das promessas de exasperação (e arrebatamento) de plateias mais fortes do cinema brasileiro no ano, consolidando a atriz e diretora Djin Sganzerla como uma das vozes mais inquietas da criação contemporânea.
A realizadora — que despontou ainda jovem, em 2003, no elenco de "O Signo do Caos", e estreou na realização de longas-metragens com "Mulher Oceano", em 2020 — regressa agora com um suspense sensorial. Sua trama cruza mistério, espiritualidade e investigação. Surpreendeu plateias ao passar pela Mostra de São Paulo de 2025.
No centro do enredo está Cleo, astrónoma grávida interpretada pela própria cineasta, cuja vida é abalada pela chegada da meia-irmã indígena, Nalu (Lian Gaia). A visita de sua mana mais moça desencadeia a revelação de segredos familiares e conduz ambas a uma descida à Deep Web, onde passam a investigar Tony (Sérgio Guizé), marido de Cleo, figura envolta numa inquietante duplicidade. Ele é Médico e Monstro numa psique só. Numa atmosfera de mistério, a produção mantém sua tensão contínua, sustentada pela fotografia rigorosa de André Guerreiro Lopes e por uma montagem vibrante, assinada por Karen Akerman e Karen Black.
Filha do mítico diretor Rogério Sganzerla (1946-2004) e da diretora e atriz Helena Ignez (integrante do elenco), Djin define o seu processo criativo como um mergulho em zonas de risco e escuta: "Os momentos mais potentes nascem justamente da abertura ao não planeado", diz em entrevista via Zoom ao Correio da Manhã. "Esse projeto veio de um grande medo, quase um desespero, uma angústia enorme… até que ouvi a voz do meu pai a dizer: 'a tua única saída é dirigir'. Quis fazer um thriller, talvez até ouse chamá-lo de um thriller social, se é que podemos usar esse termo. Escrevi o roteiro ao lado de Vana Medeiros, com o desejo de construir um filme de gênero, mas sem abrir mão de uma abordagem humanista, que talvez seja uma marca do meu olhar como diretora".
A partir daí, ela construiu um método profundamente intuitivo, guiado por imagens de força, com signo animal — no caso de "Eclipse", a onça. "Essa fera é meticulosa, cautelosa, escuta antes de agir. Curiosamente, o filme foi se fazendo assim."
Essa dimensão instintiva atravessa também o trabalho das atrizes. Para Lian Gaia, a relação entre as irmãs é o verdadeiro motor emocional do filme: "Elas unem-se na vulnerabilidade uma da outra e encorajam-se mutuamente. Há uma simbiose onde forças e fragilidades se completam." A atriz sublinha ainda a importância da ancestralidade: "A Nalu confia nesse legado e traz uma verdade que não vitimiza, mas transforma."
Do lado masculino dessa dramaturgia, Sérgio Guizé constrói um antagonista feito de silêncio e tensão latente. "O silêncio é uma ferramenta fundamental. O personagem observa, aprende, e age como um caçador", explica. Para o ator, essa contenção amplifica a violência interior: "Ele acredita que tem poder — um poder institucionalizado — e isso define a forma como se move no mundo."
Já Helena Ignez, figura central na formação artística de Djin, destaca o embate entre formas de conhecimento que o filme propõe: "Existe uma crítica profunda ao pensamento estabilizado. A ciência surge aqui também como instrumento que pode desinformar."
Para a diva, aclamada por cults como "A Mulher De Todos" (1969), a presença musical de Elza Soares reforça essa dimensão crítica: "A música traz uma força extraordinária, quase como um chamamento."
Entre influências que vão de Brian De Palma ao legado da Boca do Lixo, "Eclipse" se afirma como um objeto híbrido — simultaneamente sensorial e político: "Quando deixamos espaço, o espectador também cria a obra. As leituras tornam-se múltiplas — e isso é o mais fascinante", explica Djin. "Noto, nos filmes que dirijo, que a história já tão está dentro de mim, em todas as camadas - uma vez que escrevi o roteiro e visualizei cada cena - que a atuação acaba se encaixando de forma natural nesse processo. Mesmo com menos tempo de preparação, ela surge como uma extensão orgânica de tudo aquilo que já me habita".
"Eclipse" se posiciona no circuito não apenas como um exercício de estilo, mas como uma experiência aberta, onde o feminino, a memória e a ciência se entrelaçam num cinema que recusa fórmulas e aposta na vertigem da criação.
"Muitas vezes, os momentos mais potentes nascem justamente da abertura ao não planejado", explica Djin. "De maneira orgânica, penso a direção considerando o todo. Meus pais sempre foram diretores-produtores. Sou uma diretora que pensa o filme em todas as suas camadas, desde o desenvolvimento do roteiro até a sua concretização".