A mulher de 2 bilhões de dólares
Sinônimo vivo de boa atuação, Meryl Streep se firma, aos 76 anos, como um infalível ímã de boas bilheterias a julgar pela corrida popular atrás de 'O Diabo Veste Prada 2'
Sinônimo vivo de boa atuação, Meryl Streep se firma, aos 76 anos, como um infalível ímã de boas bilheterias a julgar pela corrida popular atrás de 'O Diabo Veste Prada 2'
Pouco tempo depois de terminadas as filmagens de "Ironweed" (1987), um drama no qual divide a tela com Jack Nicholson, Meryl Streep convidou seu diretor, o argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco (1946-2016), para uma tarde frugal, regada a pãezinhos, quitutes mil e passeio ao ar livre, a fim de agradecer a ele por um de seus trabalhos mais viscerais. Ela não apareceu ao convescote de congraçamento da equipe, ao fim da rodagem, o que poderia ter soado rude para uma então jovem estrela. Compensou a ausência coroando o realizador de "Pixote" (1980) com uma troca amistosa. Sua afetuosidade é notória em Hollywood, abrindo exceção só quando Donald Trump é o assunto.
Com o atual presidente dos EUA, a atriz de 76 anos não costuma ser doce - tampouco ele com ela -, preferindo evocar o que aprendeu com Miranda Priestly, a jornalista de hábitos nada empáticos que virou uma de suas mais famosas personagens. Há 20 anos, "O Diabo Veste Prada" - que passa na "Sessão da Tarde" da TV Globo, nesta quinta, às 15h40 - fez fortuna em circuito. Custou US$ 35 milhões e faturou US$ 326 milhões, ampliando o montante das cifras acumuladas por Meryl desde sua estreia, em 1977, estimada em US$ 2,1 bilhões. A parte dois das aventuras de Miranda, ao lado da outrora assistente Andy (Anne Hathaway), é a maior aposta de lucro de multiplexes de todo o planeta neste fim de semana, mesmo com a firme concorrência de "Michael" (a biografia de Michael Jackson) e da animação "Super Mario Galaxy: O Filme", com "Zico: O Samurai de Quintino" prometendo horrores aqui no Brasil.
"Eu mal consigo me lembrar os enredos dos filmes que eu fiz", desabafou Meryl ao Correio da Manhã, numa entrevista no Festival de Veneza.
Diva com o maior número de indicações ao Oscar da História (nomeada 21 vezes e três vezes premiada), Mary Louise Meryl Streep é parte essencial da chamada Easy Rider Generation, a turma de talentos que, de 1967 a 1981, fez dos Estados Unidos uma usina de filmes libertários, moralmente ousados, e muito rentáveis. De todos os grandes astros de sua geração, só ela e Robert De Niro - com quem trabalhou em "O Franco Atirador", de 1978; em "Amor À Primeira Vista", de 1984; e "As Filhas de Marvin", de 1996 - seguem mobilizando multidões.
Al Pacino só quer saber de teatro e Dustin Hoffman acabou sendo escanteado por culpa de seu temperamento nada fácil. De Niro regressa às telonas em novembro, retomando uma de suas franquias mais rentáveis ("Meet The Parents") em "Entrando Na Maior Fria", com Ben Stiller e Ariana Grande. Já Meryl participou, já este ano, do elenco de vozes de um blockbuster: a animação Disney "Cara de Um, Focinho Do Outro". Sua personagem, a Abelha Rainha, é dublada aqui por Renata Sorrah.
O retorno de Miranda Priestly em "O Diabo Veste Prada 2" chega na esteira da consagração de sua intérprete com a Palma de Ouro Honorária do Festival de Cannes, entregue a ela em 2024 - de de 2025 foi dada a De Niro.
"Hoje, eu levo uma vida calma e não desfruto de muito respeito em casa. Tenho quatro filhos e cinco netos. Você imagina que eu não tenho muito tempo para sentar e ver filmes, mas no fim de cada ano, ali entre o Dia de Ação de Graças e o dia 1 de janeiro, eu preciso ver tudo o que disputa uma vaga no Oscar e são, em geral, as produções mais relevantes que temos", disse Meryl à Coisette, onde cravou: "Cada filme é feito do momento histórico a que pertence. Até os filmes estúpidos têm o seu tempo, pois eles nos dão algo de leve".
Em 1989, ela deixou o balneário francês com a láurea de Melhor Interpretação por "Um Grito No Escuro". Na Berlinale, onde foi presidente do júri em 2016 (coroando o documentário "Fogo no Mar" com o Urso de Ouro), ela também foi premiada. Recebeu um Urso de Prata, em empate com Julianne Moore e Nicole Kidman, por seu desempenho em "As Horas", em 2003, e em 2012, ganhou o Urso de Ouro Honorário. "Fico feliz ao saber que a plateia não enjoou da minha cara depois desses anos todos de carreira", disse Meryl em Cannes. "Atuar é se abrir a um papel, com a certeza de que é na repetição que se encontra um caminho".
Oscarizada por "Kramer vs. Kramer" (1979), "A Escolha de Sofia" (1982) e "A Dama de Ferro" (2011), Meryl vai interpretar a compositora e cantora Joni Mitchell no novo filme de Cameron Crowe ("Jerry Maguire") e vai contracenar com Sigourney Weaver em "Useful Idiots". Fará ainda a série "The Corrections".