CRÍTICA / FILME / O DIABO VESTE PRADA 2: Uma declaraçãode amor a NY

Por PEDRO SOBREIRO

Miranda Priestly (Meryl Streep) e Andy Sachs (Anne Hathaway) voltam às rusgas em 'O Diabo Veste Prada 2'

Lançado em 2006, 'O Diabo Veste Prada' se tornou um daqueles clássicos instantâneos. Na trama, Andy Sachs (Anne Hathaway), é uma jornalista recém-formada que sonha em trabalhar num veículo sério, mas só consegue uma vaga na Runway, a principal revista de moda dos Estados Unidos. Porém, o que ela achava que seria uma experiência fácil, que serviria de trampolim para suas verdadeiras aspirações profissionais, logo se mostraria um inferno, já que sua chefe, Miranda Priestly (Meryl Streep), traria comportamentos abusivos e passaria a tratá-la de forma inescrupulosa.

Essa sátira do mundo da moda conquistou públicos nos quatro cantos do planeta, já que sofrer abusos no trabalho é comum em todos os lugares. Além disso, o ambiente da moda sempre foi muito sedutor. Com atuações cativantes de Hathaway e Streep, o longa cativou os corações dos fãs e virou, de certa forma, uma idealização para muitas jovens das gerações Z e Millennial. A imagem de atravessar uma faixa de pedestres em Nova York, enquanto segura os papéis do trabalho e os copos de café adentrou o imaginário popular adolescente da época, deixando uma marca para a eternidade.

E agora, 20 anos depois, a sequência chega aos cinemas com a missão de reconquistar o público original e despertar aquela paixão do longa de 2006 no público atual.

E para fazer isso, o longa se apoia no cenário atual do jornalismo pelo mundo. 'O Diabo Veste Prada 2' começa com Andy recebendo um prêmio por seu trabalho investigativo, enquanto é informada que todo o seu setor foi demitido no jornal, enquanto o CEO da empresa lucrava milhões. Esse cenário, infelizmente, se repete a cada semestre em redações ao redor do mundo.

Com a transição para o mundo digital, revistas e jornais impressos sofreram quedas nas vendas e se tornaram cada vez mais raros nas bancas. E essa mudança vem impactando principalmente os jornalistas mais experientes. É por essa ótica que Meryl Streep retorna avassaladora ao papel de Miranda Priestly. A chefe tirana percebe que não é mais magnânima, já que sua influência não significa nada para os anunciantes. Vê-la aprender a engolir o orgulho, enquanto adapta seu jeitão abusivo/ politicamente incorreto para o mundo atual é hilário.

Do outro lado, a Andy de Anne Hathaway volta para a Runway com a missão de limpar a barra da empresa, após publicarem uma reportagem que repercutiu mal no meio da moda. Ela está mais madura, mas ainda enfrenta questões sobre sua personalidade, como a necessidade constante de aprovação externa e a sensação de que não vai dar certo com ninguém, enquanto suas amigas estão casando ou tendo filhos. São problemas reais que dialogam perfeitamente bem com aquilo que a geração que se apaixonou pelo filme original está enfrentando neste momento.

Mas talvez o grande mérito dessa sequência seja mesmo a coragem de contar uma nova história em vez de tentar recontar a trama do primeiro filme. São as personagens antigas, mas em um novo contexto, em novas situações e enfrentando uma ameaça comum: o capitalismo e o impacto das grandes corporações no jornalismo. Mesmo não se suportando, Miranda e Andy aprendem a trabalhar juntas, já que querem a mesma coisa: o sucesso da Runway.

Por fim, o longa faz de Nova York uma vibrante personagem. De forma simples, mas eficaz, o diretor David Frankel expressa seu amor pela cidade com tomadas que dão a dimensão dos prédios, do quão cheias são as ruas, mas também do quão "familiar" todos aqueles lugares parecem ao público. Ao retratar a cidade com essa visão que somente um apaixonado poderia ter, ele faz da ambientação uma personagem realmente encantadora. Desde a trilogia 'Homem-Aranha', de Sam Raimi, que a cidade de Nova York não parecia tão viva e pulsante em uma tela de cinema quanto em 'O Diabo Veste Prada 2'. É impossível sair da sala do cinema sem estar completamente tomado pela vontade de conhecer ou voltar para Nova York. É um tipo de amor que somente o cinema e a poesia conseguem exprimir. É belíssimo.