Brasis na tela do Bijou

Cinema da Praça Roosevelt, em São Paulo, promove maratona de curtas e longas nacionais que não tiveram, em circuito, um espaço à altura de suas ousadias e de suas investigações

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

'Amores Urbanos' é um poema sobre afetos em SP

Cinema da Praça Roosevelt, em São Paulo, promove maratona de curtas e longas nacionais que não tiveram, em circuito, um espaço à altura de suas ousadias e de suas investigações

Nos anos 2000, o hoje nonagenário produtor Luiz Carlos Barreto cunhou a expressão "motel de filme" para definir o comportamento de salas de exibição que limitam filmes - sobretudo aqueles sem o lastro de Hollywood - a uma, no máximo, duas sessões por dia, em rotatividade tão cronometrada que limita o acesso do público. Fala-se ainda em "circuito fast-food". Diante da dificuldade de espaços para narrativas independentes, principalmente as brasileiras, o Cine Satyros Bijou encontrou uma forma alternativa de dar visibilidade às expressões poéticas deste país com a mostra Cine Brasil.

Agendada de 1° a 24 de maio, na charmosa sala de São Paulo da Praça Roosevelt, o evento é uma celebração da diversidade estética, regional e narrativa da produção nacional, abrangendo vozes autorais consolidades em longas e curtas-metragens avessos a algoritmos. É o caso do título de abertura, "A Fome Tem Pressa", de Zarella Neto, escalado para esta sexta, às 21h.

Nele, Zarella faz um retrato da insegurança alimentar no Brasil, acompanhando famílias que lutam diariamente para garantir o básico enquanto enfrentam desigualdades históricas e políticas públicas insuficientes. Guilherme Marback, programador do Cine Satyros Bijou, justifica a presença desse título ao ressaltar que ele integra um coletivo sedento por gerar reflexão.

"Queremos que as pessoas se reconheçam nas telas, descubram novas vozes e percebam a força criativa de cineastas que fazem um cinema autoral, que muitas vezes enfrentam problemas de distribuição de seus filmes e ficam fora dos holofotes da grande mídia. A maioria dos filmes é de produções paulistanas, mesclando novos e experientes cineastas", diz Marback.

Divulgação - O belíssimo 'Cores' levou o Brasil à competição Novos Diretores de San Sebastián

Um dos diretores de maior participação na mostra é Francisco Garcia, cronista de inquietudes. Ele assina os curtas "Macaréu", que passa no sábado; "Desequilíbrio", agendado para o dia 9/5. No dia 8, entra no Bijou com o obrigatório "Cores", estrelado por Simone Iliescu, Acauã Sol e Pedro di Pietro. Em sua trama, três jovens enfrentam a precariedade do trabalho e a falta de perspectivas na São Paulo contemporânea, em um retrato sensível da juventude periférica. De um lado está Luiz, que trabalha em uma farmácia; do outro, sua namorada Luara, que, durante sua rotina de trabalho numa loja de animais, sonha em fazer uma longa viagem; e Luca, que montou um estúdio de tatuagem, mas vive com o dinheiro que rouba de sua avó. A produção, pavimentada sobre um trabalho meticuloso de fotografia de Alziro Barbosa, concorreu na seção Novos Diretores do Festival de San Sebastián, na Espanha, em 2012.

No dia 15, às 21h, o Bijou acolhe um poema de amor de Vera Egito que teve ralo espaço em cartaz: "Amores Urbanos", de 2016. Nesse roteiro, três amigos, Micaela (Renata Gaspar), Diego (Thiago Pethit) e Júlia (Maria Laura Nogueira), dividem afetos, crises e descobertas na São Paulo contemporânea, em uma narrativa sobre amizade, desejo e amadurecimento.

Divulgação - 'Vou-me Embora' é um retrato das migrações numa grande metrópole

O encerramento da Mostra Cine Brasil ficou a cargo de um estudo sobre deslocamentos: "Vou-Me Embora", de Denise Szabo. No filme, a diretora mergulha nas raízes da migração nordestina rumo ao ABC Paulista durante o século XX, investigando não apenas o movimento geográfico, mas as camadas profundas de ancestralidade africana e indígena que compõem a identidade desses migrantes.