Lusófono, épico, decolonial
Produção de 212 minutos que une Portugal, Brasil e África, 'O Riso e a Faca' chega às telas após périplo de quase um ano regados a prêmios, consagração e debates sobre identidade
Produção de 212 minutos que une Portugal, Brasil e África, 'O Riso e a Faca' chega às telas após périplo de quase um ano regados a prêmios, consagração e debates sobre identidade
Falta pouquinho para o aniversário de um ano de "O Riso e a Faca", que nasceu mundialmente no dia 17 de maio de 2025, na competição Un Certain Regard do Festival de Cannes, de onde saiu com sagrado com o status de "épico da lusofonia". Uma segunda coroa veio da Croisette: a láurea de Melhor Interpretação, dada à atriz Cleo Diára. Depois, vieram prêmios em festivais de Valladolid, na Espanha, e Montreal, no Canadá, além de Cartagena, na Colômbia, que acaba de contemplá-lo com o Prêmio de Melhor Contribuição Artística na competição ibero-americana.
Encarada como Bíblia pela cinefilia desde a década de 1950, a "Cahiers du Cinéma" elegeu o longa-metragem do lisboeta Pedro Pinho (que teve a carioca Tatiana Leite como um fator de X, ou seja, um fator central, em sua equação de produção) para sua lista dos Dez Melhores do ano passado. Agora, enfim, essa pérola estreia entre nós.
Onze meses atrás, as paisagens da Guiné-Bissau fotografadas pelo cearense Ivo Lopes Araújo se agigantaram poeticamente no Palais Des Festivals de Cannes na passagem de "O Riso e a Faca" pelo balneário. São 211 minutos de reflexões sobre raízes e êxodos, desenraizamento e pertença. Tem ecos d'África(s), do nosso Brasil e da "terrinha", a pátria de Pinho, numa jornada que fala de origens e de futuros possíveis para povos que, unidos por uma língua, precisam superar os ranços do pacto colonial.
"Fazendo esse filme eu percebi que em Portugal existem muitas Áfricas e existe uma diáspora. Paralelamente, descobri em Bissau que, lá, entre eles, eu posso ser visto como branco, mesmo sem me reconhecer assim", explica um dos destaques do elenco, Jonathan Guilherme, ex-atleta de vôlei paulista (de Araçatuba) que trocou as quadras pela arte e hoje é poeta.
Na trama, seu personagem, Gui, tem de driblar dinâmicas do capitalismo em meio ao périplo de um engenheiro europeu, Sérgio (vivido por Sergio Coragem), que parte para um canto da África para trabalhar como engenheiro ambiental para uma ONG, na construção de uma estrada entre o deserto e a selva. À medida que adentra nas dinâmicas neocoloniais da comunidade de expatriados, esse laço frágil se torna o seu último refúgio perante a solidão ou a barbárie. Nessa jornada, ele caça lastros identitários de uma cultura branca ocidental que se manchou de sangue ao longo de séculos.
Uma jovem chamada Diára, vivida pela cabo-verdiana Cleo Diára, cruza com ele e com Gui e se firma como uma das protagonistas de "O Riso e a Faca". "Fizemos aqui um filme sobra a solidão de uma mulher na sociedade patriarcal. Cabo Verde é minha água, meu berço, mas, aos 9 anos, fui pra Portugal. Não demorei a perceber que as primeiras pessoas a despertar da cama quando começa o dia são as mulheres negras, as vós, as mães, as empregadas", disse Cleo ao Correio da Manhã, em Cannes.
Ela e Jonathan foram um triângulo de perseverança na trama de "O Riso e a Faca" com Sérgio, ator que é português. Ele já era conhecido da cinefilia francesa, da Côte d'Azur (o perímetro onde fica Cannes) por "Verão Danado" (2017) e "Fogo-Fátuo" (2022). Seu desempenho sob a batuta de Pinho, contudo, é algo de visceral.
"Pinho mostra o desequilíbrio que este mundo criou ao longo da História ao retratar pessoas à procura do amor", diz Sérgio.
Responsável pela produção de filmes premiados como "Regra 34" (Leopardo de Ouro em Locarno) e "Puan" (Melhor Roteiro em San Sebastián), Tatiana saiu de Cannes com o prestígio da produtora Bubbles referendado pelos elogios colhidos por "O Riso e a Faca" em várias línguas. "Estive em Cannes em 2005 e vi 'A Criança', dos irmãos Dardenne, numa sessão às 8h, da qual saí encantada. Produzir filmes que possam fazer parte desse festival, hoje, é uma ressignificação interessante", diz a produtora.
A participação profissional dela em "O Riso e a Faca" amplia a brasilidade latente do filme, que tira seu título da obra fonográfica do baiano Tom Zé. Há africanidade e lusitanidade também em sua argamassa. No enredo que Tatiana coproduziu, à medida que o cineasta adentra nas fricções neocoloniais desses expatriados, traumas continentais sedimentam o caminho que as personagens percorrem.
"O que fizemos foi um filme de aventura, de encontros e de desejos, que procura entender como o corpo incorpora um conjunto de injustiças históricas. Não sei definir que arquétipos se encontram nessa conjuntura, mas sei que são personagens em trânsito, em deslocamento", explica Pedro Pinho, que ganhou outro escopo (de maio prestígio) na cena audiovisual depois de vencer o Prêmio da Crítica em Cannes, em 2017, com "A Fábrica de Nada". A minha fricção pessoal em 'O Riso e a Faca' vem do facto de todos os meus filmes passarem pelo mesmo tema: a Europa. Uma Europa vista a partir de uma certa ideia moral de branquitude que nos tentam impor culturalmente".
O cineasta tem dois novos projetos à vista. Um deles é um remake de "À Flor do Mar" (1986), do mítico diretor João César Monteiro (1939-2003). O outro é um filme com a produtora Filipa Reis sobre uma geração de estudantes de arte na casa dos 20 anos, numa Lisboa dominada pelo capitalismo. "Mar da Palha" é o título provisório.