Sempre teremos Buenos Aires
Encerrado no domingo, o BAFICI deixa um legado de experimentos poéticos para o circuito
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Sempre lotado, mesmo nas exibições às raias do crepúsculo de produções experimentais, o BAFICI - Festival Internacional de Buenos Aires provou a Javier Milei que a cultura vence o obscurantismo das políticas conservadoras quando celebra a diversidade e a aceitação. Javier Porta Fouz, um dos curadores da maratona portenha, trouxe pérolas do mundo todo para sua grade de 327 títulos, cavando espaços nobres para o Brasil. Grace Passô saiu de lá consagrada com seu "Nosso Segredo", que passou antes na Berlinale. Outros cantos do planeta também se refestelaram nas telonas da Argentina, de 16 a 26 deste mês. Agora, é a hora do inventário. É momento de balanço. Confira alguns dos títulos que mais se destacaram na mirada crítica de nuestros hermanos.
YEGUA, de Virginia Scaro (Argentina): Um estudo delicado sobre culpa. Na trama, um homem bêbado enfrenta outro após uma traição e acaba caindo no chão. Enquanto isso, sua égua se solta, atravessa a vila e sobe a montanha. Entre cercas e outros cavalos, algo parece abrir a possibilidade de mudar o curso daquela história... quiçá de todo um povo.
MY WIFE CRIES (Meine Frau weint), de Angela Schanelec: Exibido em competição pelo Urso de Ouro, este estudo sobre incomunicabilidade discute o que os mitos deixaram de legado ao humano na forma com que enquadra a exasperação afetiva, a satisfação inalcançável. Agathe Bonitzer e Vladimir Vulevic se tornaram testemunhas vivas do processo semiótico da diretora alemã ao interpretarem um casal em ruínas.
O REI DA INTERNET, de Fabrício Bittar (Brasil): Imagine um "Prenda-me Se For Capaz" nacional - com picardia, com nudez, com montagem nevrálgica. Sua imaginação se concretiza nesta joia. Eis um potencial blockbuster brasileiro, dqe montagem febril, que buscou se notabilizar no exterior. Com ar de Selton Mello, João Guilherme revive a saga de um adolescente que virou um dos maiores hackers do Brasil e integrou uma organização criminosa movida a milhões de reais até ser alvo de uma operação da Polícia Federal — tudo isso antes de completar 17 anos. Miguel Nader é o destaque do elenco, no papel de um segurança casca-grossa.
ESE NIÑO DE LA FOTOGRAFÍA. CARLOS SAURA, de Anna Saura (Espanha): Sintonizado com a celebração póstuma das sete décadas de estreia do espanhol Carlos Saura (1932-2023) na realização, o 27.º BAFICI abriu espaço na sua programação para um ensaio documental sobre esse artesão autoral, consagrado sobretudo por "Cría Cuervos" (1976). Fruto da relação do cineasta com a atriz Eulalia Ramón, Anna Saura não deixa que a saudade comprometa a sua objetividade num .doc "álbum de família", cuja premissa é cartografar um artista central para a construção de uma ideia moderna de Espanha.
FORÊT IVRE, de Manon Coubia (Bélgica): O exercício autoral mais recente da diretora de "La Plenitud De Los Tiempos" (2016) se passa nos Alpes, onde Anne, Hélène e Suzanne se revezam para cuidar de um refúgio de montanha. Ao longo das estações, os excursionistas chegam e partem. As histórias surgem e desaparecem, e cada uma delas enfrenta o silêncio.
VADE RETRO, de Antonin Peretjatko (França): Que delícia de terrir, centrado na mesquinhez que se disfarça sob a palavra da moda, "empatia". Norbert (ator chamado só Estéban) é um vampiro de 350 anos e vive dividido entre antigas tradições e novos desejos. Para sobreviver, ele precisa cumprir um antigo ritual, mas, em uma ilha remota, descobre que sua fome não é o que ele esperava e que os homens podem ser ainda piores do que as assombrações do Além.
A PAIXÃO SEGUNDO GHB, de Gustavo Vinagre e Vinicius Couto: Neste delicado tratado sobre o limite entre o desejo e o benquerer, um encontro casual se transforma em um ménage à trois; o ménage à trois se transforma em uma orgia. Nesta odisseia gay de realismo mágico no quarto, Matias relembra encontros passados e reflete sobre seu futuro, enquanto conversa com uma figura fictícia da literatura brasileira.
LA LUCHA, de José Alayón (Espanha/ Colômbia): Na árida Fuerteventura, nas Ilhas Canárias, o Maciste dos ringues Miguel (Tomasín Padrón) e sua filha Mariana (Yazmina Estupiñan) tentam seguir em frente após a morte de sua esposa, uma perda que os deixou à deriva. A luta canária é o refúgio deles, a maneira de encontrar seu lugar no mundo. Mas o corpo de Miguel começa a falhar, e a raiva de Mariana a leva a desafiar as regras. Com a final do campeonato se aproximando, pai e filha buscam se reencontrar antes que seja tarde demais
NOVA 78, de Rodrigo Areias e Aaron Brookner (Portugal/ Reino Unido): Este ensaio documental mostra imagens nunca antes vistas da lendária Nova Convention, um evento de três dias, realizado na cidade de Nova York de 30 de novembro a 2 de dezembro de 1978. Concebida como homenagem ao escritor William S. Burroughs (1914-1997), a "convenção" incluiu seminários, apresentações musicais, leituras e performances. Participaram dela uma mistura estranha de acadêmicos, editores, escritores, artistas, roqueiros e discípulos da contracultura. O evento teve um pequeno contratempo: os organizadores anunciaram a presença de Keith Richards, o que fez com que os ingressos se esgotassem. No entanto, o cancelamento de última hora de Richards irritou a plateia.
EN EL CAMPO LOS DÍAS SON MÁS LARGOS, de Elina Firpo (Argentina): Sua diretora esbanja vigor na arquitetura desta dramaturgia. Fala de uma família que se muda para uma casa no campo. Entre cochilos, vento e cavalos, as estações do ano passam lentamente por ali e cada um dos integrantes daquele clã se aproxima da natureza da sua forma. Para Iñaki, o caçula do bando, isso é mais difícil: ele terá que enfrentar seus medos para deixar a infância para trás e começar a entrar no mundo adulto. O roteiro, a fotografia e a direção de arte são de Elina, que trouxe seus parentes para o centro da câmera.
TURISTAS ("Turisit"), de Mária Kralovic (Eslováquia): Mescla rara de fofura e bizarrice, esta animação opera com elegância o uso de cores. Uma viagem de trabalho rotineira para Hana e Kornel, casados há anos, transforma-se em uma luta pela sobrevivência. Perdidos em uma floresta remota, eles enfrentam não apenas a natureza selvagem, mas também as fissuras de seu relacionamento estagnado.
I AM CURIOUS JOHNNY, de Julien Temple (Reino Unido): O maior documentarista de música do planeta tem presença cativa no BAFICI. Volta agora com um retrato de Johnny Pigozzi, herdeiro, fotógrafo e colecionador excêntrico, que se constrói por meio de imagens de arquivo e relatos acerca de seu universo de luxo, com amizades famosas (Mick Jagger, por exemplo).
CIN3 FILI4, de Raúl Perrone (Argentina): Artista gráfico de vasta quilometragem na caricatura, Perrone nasceu há 74 anos no município de Ituzaingó, onde sempre morou e filmou sem sair de lá, nem mesmo para recriar uma selva ou um mundo apocalíptico pós-industrial. Rodou cerca de 60 filmes (ao custo de duas mariolas cada um), da década de 1980 para cá, como "Nos Veremos Mañana" (1993), "Expiación" (2018) e "Sean Eternxs" (2022). Seu novo longa, divertidíssimo, acompanha o quiproquó de afetos entre cinéfilos que discutem a relevância de Jean-Luc Godard (1930-2022) e de John Cassavetes (1929-1989) para o audiovisual enquanto ensaiam, eles mesmo, uma filmagem que mais parece a corte de um início de namoro.
ÓRFÃO (Ávra), de László Nemes (Hungria): A interpretação notável de Grégory Gadebois como figura paterna possível para o protagonista, o jovem Andor Hirsch (Bojtorján Barabás), confere equilíbrio ao novo filme do realizador de "O Filho d Saul" (2015). Rodado em 35mm em Budapeste ao longo de dez dias, em 2024, Orphan (título internacional) foi escrito por Clara Royer e Nemes a partir das vivências do pai do diretor durante a Revolução Húngara de 1956, quando forças opositoras reagiram ao domínio soviético da União Soviética. Na narrativa, Andor sonha reencontrar sua figura paterna desaparecido durante a Segunda Guerra Mundial, o que alimenta uma relação tensa com a mãe, Klára (Andrea Waskovics). Perdido entre inquietações e fantasias, o jovem cruza com Mihály Berend (Gadebois), o homem que escondeu Klára durante a guerra e que agora procura reconstruir uma ligação com ela.