Na caçapa de Scorsese

Cópia restaurada de 'A Cor do Dinheiro', comemorativa dos 40 anos de sua estreia, abre-alas para uma nova marcha do mítico diretor nova-iorquino pelas telas, com filme inédito no set

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

'A Cor do Dinheiro' faturou US$ 52 milhões, rendeu o Oscar a Paul Newman e deu fama de perfeccionista a Tom Cruise, que dava suas tacadas sem dublê

Cópia restaurada de 'A Cor do Dinheiro', comemorativa dos 40 anos de sua estreia, abre-alas para uma nova marcha do mítico diretor nova-iorquino pelas telas, com filme inédito no set

Conhecido como "o filme que deu a Paul Newman seu único Oscar", "A Cor do Dinheiro" ("The Color Of The Money", 1986) deu lucro, 40 anos atrás: custou US$ 14,5 milhões e faturou US$ 52,2 milhões. Vai faturar mais um troco agora que inicia uma volta ao circuito, na celebração de suas quatro décadas, num regresso que começou via Buenos Aires, na reta final do BAFICI. O festival da Argentina - um dos mais prestigiados da América Latina na atualidade - rendeu-se ao jovem Tom Cruise num embate contra o veterano Newman (morto em 2008, aos 83 anos) numa mesa de sinuca, tendo Martin Scorsese como árbitro - na telona.

Este mês, o diretor de 83 anos já deu as caras, como ator, em "Consequência" ("Outcome"), ao lado de Keanu Reeves - esse filmaço está na Apple TV. Já, já, será narrador em "Star Wars: O Mandaloriano e Grogu", que estreia no dia 22 de maio. Não bastasse, esse artesão autoral aclamado por "Taxi Driver" (Palma de Ouro de 1976), "Os Bons Companheiros" (1990) e outros cults, ainda tem um longa-metragem inédito a caminho: "What Happens at Night". Seu elenco tem Jennifer Lawrence, Mads Mikkelsen e o xodó do cineasta, Leonardo DiCaprio.

É uma adaptação de um romance de Peter Cameron. Em suas páginas, um casal americano visita uma cidade europeia coberta de neve. Num misterioso hotel, conhecem figuras das mais estranhas: uma cantora cheia dos enigmas, um empresário de índole duvidosa, um curandeiro. A realidade se confunde com o devaneio... e com o pesadelo... naquele espaço.

Endeusado, Scorsese vem se dando bem com streamings, tendo filmado "O Irlandês" para a Netflix, em 2019, e emplacado o magistral "Assassinos da Lua das Flores", com a ajuda da já citada Apple TV). "Passei a vida contando histórias que instigam a minha imaginação sob a inspiração do que aprendi nos filmes que via enquanto crescia", disse Scorsese ao receber o Urso Honorário da Berlinale, em 2024.

Desde 2018, quando foi homenageado na Quinzena de Cineastas, no balneário de Cannes, ele anda muito generoso com os convites dos festivais internacionais para falar de sua obra. Fez isso na Croisette e voltou a fazê-lo no Marrocos, na mostra anual de Marrakech, onde foi conferir uma cópia nova de "Kundun" (1997) e aproveitou sua passagem pelo evento para falar sobre sua carreira e suas angústias audiovisuais.

"Há cifras muito altas em torno de 'Homem-Aranha', 'Batman' e esses super-heróis todos, mas filmes ousados de diferentes países, feitos com pouco dinheiro, andam sem espaço. Festivais devem ajudar essas produções a encontrar seu público", disse Scorsese para uma plateia lotada, quase tanto quanto a claque que mobilizou o Cine Teatro Alvear, na Argentina, para ver "A Cor do Dinheiro" no Bafici.

Divulgação - O jovem Scorsese no set de filmagens do longa

Sequência tardia de "Desafio À Corrupção" (1961), esse longa foi a resposta a um pedido de Newman, que procurou Scorsese sonhando retomar o personagem Eddie Felson, sinuqueiro de caráter duvidoso. Na continuação desse cult, Felson se mete com o novato Vincent, papel de Cruise, tornando-se uma espécie de tutor do rapaz, nas mesas de bilhar da vida, até "furar o olho" do rapaz de maneiras diversas.

Dirigido por Robert Rossen (1908-1966), com base em romance de Walter Tevis (1928-1984), o eletrizante "Desafio À Corrupção" fazia parte do baú de saudades de Scorsese em sua infância. "Eu era um menino com asma que não podia correr nem rir muito alto. Numa casa sem livros, meus pais me levaram ao cinema, para ver os clássicos da Hollywood de 1944, 45. A chegada de uma pequenina televisão em nossa casa mudou as coisas, pois havia um canal de TV só para italianos em Nova York, no qual eu vi clássicos da Itália como 'Paisà'. Ali, a noção de 'filme estrangeiro' passou a ser bem próxima para mim", disse o cineasta, ganhador do Oscar em 2007, por "Os infiltrados", com Jack Nicholson, cuja habilidade de improvisar lembrou a de Newman em cena... só que com mais maluquês. "É necessário correr atrás dos atores, entender os espaços deles, perceber o quanto há deles nos personagens".

Festivais como o BAFICI - que terminou no domingo - gozam do afeto de Scorsese porque foi na Croisette, em 1974, em que ele, então um iniciante, exibiu o longa-metragem que bancou seu passe para o estrelato: "Caminhos perigosos" ("Mean Streets").

"Quando eu trouxe esse filme pra Cannes, nos anos 1970, eu desfrutava de um anonimato que me permita ir de restaurante em restaurante, espiar o Wim Wenders e o Werner Herzog, que estavam começando também, e falar horas e horas sobre filmes. Era uma época em que a gente sabia onde estava cada objeto de uma cena filmada por diretores como Raoul Walsh, a quem eu idolatrava e ainda idolatro, como quem sabe a geografia de um espaço. Era geografia de set", contou o diretor em Cannes, com a incontinência verbal (tensa e tímida) que lhe é peculiar.