Eletrizante, 'O Rei da Internet' dá match com o BAFICI

Por Rodrigo Fonseca

Todo pimpão com seu amplo ferramental cênico, João Guilherme conquista prestígio no crivo do BAFICI ao estrelar "O Rei da Internet" a partir de fatos reais

Existe um formato de heist movie (filme de assalto) que dispensa sequências de violência e joga com a sagacidade de seus protagonistas – sempre tipos de essência picaresca, mesmo aqueles sem humor – para passar a perna numa sociedade que observa tudo, mas pouco enxerga, em decorrência das miopias morais e das patrulhas ideológicas. Pertencem a esse bonde títulos elegantes como “O Velho e a Arma” (2018), com Robert Redford; o argentino “Los Delincuentes” (2023), de Rodrigo Moreno; e o recente “O Bom Bandido” (2025), com Channing Tatum. Lá atrás, teve “Meu Nome Não É Johnny” (2008), que vendeu 2 milhões de ingressos, à força do carisma de Selton Mello, e, antes dele, “Prenda-me Se For Capaz” (2002), do Rei Midas Steven Spielberg, no qual Leonardo DiCaprio fugia de Tom Hanks. Cada um desses títulos se faz evocar ao largo do frenesi que é “O Rei da Internet”, a descoberta brasileira deste BAFICI. O Festival Internacional de Buenos Aires abriu uma seção em sua 27ª edição para poder inventariar as manifestações mais recentes de um gênero condenado pela cultura woke e pela correção política: a comédia. Sua curadoria buscou expressões de bom humor que tivessem conexões com outras vertentes narrativas e acabou topando com um thriller eletrizante que, sim, faz rir... e um bocado... mas deixa a gente com a unha roída e o pé fincado no chão. A direção é de Fabrício Bittar, o responsável por “Como se Tornar o Pior Aluno da Escola” (2017) e “Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro” (2018), duas delicinhas do riso livre.

Bittar segue uma estética “Sessão da Tarde”, aquela do slogan “e essa turminha muito louca vai ser meter em altas confusões”, só que na linha mais inteligente desse princípio estético: ou seja, ser pop é sua vocação. Um pop varejão, mas embalado a vácuo, crocante, fresquinho porque vende mais. Um pop que conversa com a tradição (e sabe respeitá-la) ao mesmo tempo que ousa inflamar feridas abertas, preferindo o Mertiolate (que arde, mas cura) ao Povidini. A opção por um debate sobre o binômio invisibilidade + impunidade atesta o seu sassarico com a provocação.

Ele provoca ao transformar em anti-herói a figura real de Daniel Lofrano Nascimento, mais conhecido como Daniel Nascimento, que nasceu em 1988 em Bauru, em São Paulo. Ex-hacker, ele virou um dos mais renomados consultores de segurança digital do Brasil. Seus feitos ilícitos foram transformados na argamassa do livro “DNpontocom”, dele e de Sandra Rossi. Parte das páginas dessa publicação perfumam o roteiro de “O Rei da Internet”, assinado por Bittar e Vinícius Perez. Esse aroma literário não gera subserviência alguma à palavra. Trata-se de cinemática pura, com evocações a videogames e incorporações de imagens de época e registros de TV. A menção à “Banheira do Gugu”, com sua musiquinha característica, dá um pescotapa na caretice – a da esquerda e a da direita, sem esquecer a do centrão.

Com a velocidade do Coelho Ricochete, o filme saltita entre as muitas ações (e decepções) da vida do jovem Daniel, no Paraná, até ele se aproximar de uma quadrilha de crimes digitais que fez fortuna com ctrl + alt + del. João Guilherme encarna o papel central, seltonmellizado com a justa medida de vulnerabilidade, esbanjando segurança. A trama segue a sua conversão de secundarista marinado a bullying em um dos maiores hackers do Brasil. Ele integrou uma organização criminosa movida a milhões de reais até ser alvo de uma operação da Polícia Federal — tudo isso antes de completar 17 anos.

A montagem taquicárdica de Pedro Dias e Tales Gremen revive seu torvelinho de armações como só o filé do heist movie faz: esgarçando o limite do perigo. A fotografia de Pedro Pipano é dionisíaca o bastante em seu colorido cálido, enquadrando a nudez e o sangue sem travas. Do elenco coadjuvante, Miguel Nader puxa o olhar da plateia para si a cada take, aproveitando a chance de destilar o riso e a empatia que sua habitual escalação como Maciste de plantão nem sempre explora. Ele vive o segurança que protege Daniel, sob os auspícios de um Don Corleone das e-maracutaias, que é vivido por um inspirado Marcelo Serrado.


Bittar chegou ao melhor de si como realizador e o BAFICI louvou sua precisão com admiração por sua aposta numa trilha de adrenalina incomum ao cinema latino-americano. O festival vai até domingo, na capital argentina. “O Rei da Internet” estreia no dia 14 de maio no Brasil.