Te manca, Milei!

Apesar das políticas avessas a cinema do atual presidente argentino, a produção de 'nuestros hermanos' inunda o Festival de Buenos Aires de coragem e de ousadias narrativas

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

'En El Campo Los Días Son Más Largos' narra ritos de aproximação de uma família com a natureza

Apesar das políticas avessas a cinema do atual presidente argentino, a produção de 'nuestros hermanos' inunda o Festival de Buenos Aires de coragem e de ousadias narrativas

Inaugurado pela prata da casa - no caso, a produção portenha "Orgullo y Prejuicio", de Matías Szulanski -, no dia 16, o 27º BAFICI - Festival Internacional de Buenos Aires conseguiu 147 produções gestadas na Argentina apesar das dificuldades enfrentadas pelo cinema de seu país com a política de Javier Milei, escalando seis desses títulos para a sua competição principal. "El Tren Fluvial", de Lorenzo Ferro e Lucas A. Vignale, e "Hangar Rojo", uma parceria com o Chile, já haviam dado o ar de sua excelência antes, no exterior, concorrendo na mostra Perspectivas da 76ª Berlinale, em fevereiro. Juntam-se a eles: "Las Visitas de Camilo", de Itatí Olmedo; "Queda En Mí", de Rafael Nir; (o sublime) "Monstruo Madre", de María Canale; e "Los Vencedores", de Pablo Aparo. Tem ainda uma competição paralela só para curtas e longas argentinos, com 30 produções inéditas em circuito.

Divulgação - 'Monstruo Madre' celebra as potências da resiliência feminina

Inclua nessa lista "CIN3 FILI4", do veterano artista gráfico e diretor Raúl Perrone, um bamba da caricatura no jornalismo cultural sul-americano. Nascido há 74 anos no município de Ituzaingó, onde sempre morou e filmou sem precisar sair de lá, nem mesmo para recriar uma selva ou um mundo apocalíptico pós-industrial, ele rodou cerca de 60 filmes (ao custo de duas mariolas cada um), da década de 1980 para cá, como "Nos Veremos Mañana" (1993), "Expiación" (2018) e "Sean Eternxs" (2022). Seu novo longa, divertidíssimo, acompanha o quiproquó de afetos entre cinéfilos que discutem a relevância de Jean-Luc Godard (1930-2022) e de John Cassavetes (1929-1989) para o audiovisual enquanto ensaiam, eles mesmo, uma filmagem que mais parece a corte de um início de namoro.

Divulgação - 'CIN3 FILI4' traz a ironia do caricaturista Raúl Perrone, mito da produção indie

"Não sou reverente a Godard, por não crer que ele tenha sido essa divindade de que muito se fala, mas Cassavetes me ilumina muito", disse Perrone ao Correio na sessão de estreia de "CIN3 FILI4", defendendo a tese de que "ser autor, num filme, é cuidar de cada pedaço de sua confecção, da rodagem ao cartaz que vai para as salas".

Divulgação - 'A trama de Steve Buscemi' ronda em torno de uma mentira contada por uma jovem

Uma das sensações da nova vaga de expressões cinematográficas argentinas deste BAFICI foi batizada em homenagem a um dos atores favoritos dos irmãos Coen: "Steve Buscemi", filme de Lucila Lopatin e Martina Vogelfang. Sua protagonista é Dafne, de 22 anos. Quando seus pais decidem alugar o apartamento onde ela mora, a jovem inventa que adotou um cachorro ferido para não ter que se mudar. Essa mentira, sem que ela perceba, a leva a dar seu primeiro passo rumo à vida adulta.

Entre os gestos artísticos mais poéticos deste BAFICI, "Monstruo Madre" pode consagrar María Canale como uma diretora de futuro promissor. Em seu enredo, uma mulher que acabou de dar à luz dorme ao lado do bebê e do marido quando tem um sonho erótico e perturbador. Ao acordar, ela descobre em seu corpo sinais daquilo de monstruoso que acreditava ter sonhado.

Outra diretora que sairá do BAFICI com o prestígio renovado é Elina Firpo, que esbanja vigor no comando de "En El Campo Los Días Son Más Largos". Fala de uma família que se muda para uma casa no campo. Entre cochilos, vento e cavalos, as estações do ano passam lentamente por ali e cada um dos integrantes daquele clã se aproxima da natureza da sua forma. Para Iñaki, o caçula do bando, isso é mais difícil: ele terá que enfrentar seus medos para deixar a infância para trás e começar a entrar no mundo adulto. O roteiro, a fotografia e a direção de arte são de Elina, que trouxe seus parentes para o centro da câmera.

Recordações de tempos conturbados da América Latina agitam o ensaio documental memorial "No Matar", de Juan Villegas", que se espalha por 225 minutos, a rever sonhos revolucionários. Já "La Amiga De Mi Amigo", do já citado Matías Szulanski, revê códigos da comédia romântica ao narrar os conflitos de um quase trisal envolto em ciúmes.

Divulgação - 'La Amiga De Mi Amigo', de Matías Szulanski, brinca com a infernal possessividade do ciúme

Encontra-se já em cartaz em Buenos Aires o vencedor do BAFICI 2025: "O Lago da Perdição" ("La Virgen De La Tosquera"), de Laura Casabé. No dia 14 de maio, às 18h, no Rio, a mostra Mestras do Macabro traz esse thriller ao Brasil, via CCBB. Num casamento preciso entre crítica social e dispositivos pop das cartilhas do terror, este thriller sobre o clamor do sexo na adolescência foi laureado com o Grande Prêmio da competição nacional do evento argentino. Na trama, Natalia, Mariela e Josefina são amigas inseparáveis, loucamente apaixonadas por Diego, um amigo de infância. No conturbado verão de 2001, em meio a crises econômicas em terras portenhas (e seus arredores), Silvia, uma moça já adulta, junta-se ao grupo e cativa o rapaz. Desolada, Natalia põe em prática heranças místicas de sua avó, envolvendo feitiços... e cães ferozes. O realizador Benjamín Naishtat (de "Vermelho Sol" e "Puan") colaborou com Laura e escreveu o roteiro.

Divulgação - 'Nuestra Tierra' é um ensaio documental que traz Lucrecia Martel para o circuito exibidor portenho

Já se encontra em cartaz na Argentina "Nossa Terra" ("Nuestra Tierra"), o filme mais recente de Lucrecia Martal, tratada pela plateia do BAFICI como uma divindade. Embora seus maiores sucessos, em longas ("La Mujer Sin Cabeza") e em curtas ("A Camareira"), depositem-se no hemisfério da ficção, a cineasta mais famosa da província de Salta - onde nasceu há 59 anos, numa Argentina que iria sofrer muito com a ditadura - tem um histórico de peso com o documentário. É o caso da curta "Terminal Norte", lançada na Berlinale e em cartaz na plataforma MUBI. Originalmente chamado de "Chocobar", "Nuestra Tierra" é um ensaio que se baliza mais pelo registro documental do que pela fabulação. Fala de um líder indígena, Javier Chocobar, que foi vítima das disputas fundiárias em seu país. Nele, a diretora investiga o assassinato do líder indígena argentino Javier Chocobar, membro da comunidade Chuschagasta, e a luta da sua comunidade por terras ancestrais. A obra explora a longa história de colonialismo e desapropriação que levou ao crime, ocorrido em 2009, e que resultou num processo judicial de nove anos.

Em sua gênese, na pandemia, a produção teve um apoio de um edital do Festival de Locarno, na Suíça, de 2020. Ela segue o cogito estético sonoro padrão da realizadora, que se mantém ativa com pequenos (grandes) exercícios experimentais como "Cornucopia", rodado a dois com a diretora Isold Uggadottir, a partir de um show da islandesa Björk.

Estima-se que em setembro o Festival de Veneza possa projetar uma das produções mais esperadas pela população argentina: "Lo Dejamos Acá", com o muso sul-americano Ricardo Darín. Nessa comédia, sob a realização de Hernán Goldfrid, a estrela mais pop da Argentina contracena com Diego Peretti. Na trama, um psicanalista de prestígio que perdeu a fé na terapia começa a manipular os seus pacientes em segredo, alcançando resultados dos mais surpreendentes. Sua metodologia desmorona quando um escritor bloqueado entra em seu consultório em busca de ajuda.

O BAFICI chega ao fim neste domingo (26).