Chamas do Oriente Médio chegam ao BAFICI
'Yes', filme ímã de polêmicas do aclamado israelense Nadav Lapid, passa pelo festival mais prestigiado da Argentina no clamor por conciliação, sem medo de criticar sua pátria
'Yes', filme ímã de polêmicas do aclamado israelense Nadav Lapid, passa pelo festival mais prestigiado da Argentina no clamor por conciliação, sem medo de criticar sua pátria
Narrativa mais polêmica do Festival de Cannes em 2025, capaz de implodir consensos onde quer que passa, "Yes", do israelense Nadav Lapid, terá sua derradeira apresentação no BAFICI, em Buenos Aires, nesta quarta-feira (22), no Centro Cultural 25 de Mayo, com a certeza de inflamar ânimos argentinos. Cada projeção do filme ferve indignações (e relativiza certezas) como se fosse uma panela de pressão, dada a pressão internacional contra os atos do governo de Israel na guerra contra o povo da Palestina.
Nascido em Tel Aviv, há 51 anos, Nadav Lapid, diretor dessa dramédia política tem estraçalhado seu país nas telas a cada novo cult que emplaca nas telas desde "Sinônimos", que lhe rendeu o Urso de Ouro na Berlinale de 2019. Sua simpatia dele por seus governantes é das mais rarefeitas.
"Minha relação com a minha pátria é similar a daqueles cães que mordem a mão que os alimenta. Ei tenho minhas críticas, mas tenho minha conexão de berço. Esforço-me apenas para nunca olhar para o meu país com estrangeirismo, de fora para dentro. Existe um grau de pertencimento que as minhas perdonagens, sempre com Y, tentam flagrar", disse Lapid ao Correio da Manhã ao exibir "Yes" no Odeon, no Festival do Rio, em outubro.
Seu longa anterior, "O Joelho de Ahed", venceu o Prêmio do Júri em Cannes, em 2021, ano em que teve Kleber Mendonça Filho entre os jurados do festival. "Yes" nasceu também na Croisette, na Quinezena de Cineastas. Sua trama segue Y. e Yasmin, respectivamente um pianista e uma dançarina, que sobrevivem como animadores de festas para a elite. Eles aceitam trabalhos degradantes, dizendo sempre "sim" para sobreviver financeiramente, mesmo quando discordam da visão política dos contratantes. O enredo se complica quando Y. é encarregado de compor a melodia do novo hino nacional, cujas letras prevêem a devastação de Gaza. A poesia por trás da melodia inflama ânimos por onde o longa é exibido. "Minhas palavras são reminiscências de Israel, elas me conectam à terra de onde venho", diz Lapid.
Nesta quarta, o 27° BAFICI recebe da Áustria "The Blood Countess" ("Die Blutgräfin"), de Ulrike Ottinger, que foi um arrasa-quarteirão na Berlinale, em fevereiro. Um trinômio do Capeta - o guarda-roupa concebido por Jorge Jara, a maquilagem exuberante de Tünde Kiss-Benke e um design de produção, assinado por Christina Schaffer, que remete para uma casa de bonecas - pavimentam o engenho simultaneamente excêntrico e belo deste terrir que inquieta sob o prisma político. A octogenária diretora de "Joana D'Arc da Mongólia" (1989) apela para uma aristocrata vampira para alardear seu medo diante do avanço da extrema direita alemã. O resgate da condessa assassina Erzsébet Báthory (1560-1614) é crucial para esta mistura de teatro cabaré com "A Hora do Espanto", tendo Isabelle Huppert de caninos afiados.
O BAFICI termina neste domingo (26).