'Malês' é premiado na França

Longa de Antônio Pitanga vence e é escolhido o melhor filme do Festival de Cinema Brasileiro em Paris que bateu recorde de público

Por Affonso Nunes

Antônio Pitanga com o Troféu Jangada, premiação do júri popular do festival

Longa de Antônio Pitanga vence e é escolhido o melhor filme do Festival de Cinema Brasileiro em Paris que bateu recorde de público

O 28º Festival de Cinema Brasileiro de Paris encerrou sua programação na noite de terça-feira (14) com "Malês", de Antônio Pitanga, conquistando o Troféu Jangada de Melhor Filme pelo voto do público. O resultado marca o retorno de Pitanga à direção após quase cinco décadas — seu último longa havia sido "Na Boca do Mundo" em 1978. O filme, rodado entre Cachoeira, Salvador e Maricá, retrata a Revolta dos Malês, levante organizado por pessoas escravizadas em Salvador em 1835, considerado o maior da história do Brasil.

A edição do festival, realizada pela Jangada com curadoria de Katia Adler no cinema L'Arlequin em Saint-Germain-des-Prés, atraiu 7.751 espectadores — crescimento de mais de 10% em relação a 2025. Ao longo de oito dias, foram exibidos mais de 30 longas-metragens, com oito filmes de ficção concorrendo ao prêmio principal. Além de "Malês", estavam na disputa "Velhos Bandidos" (Cláudio Torres), "Perto do Sol é Mais Claro" (Régis Faria), "Cinco Tipos de Medo" (Bruno Bini), "#SalveRosa" (Susanna Lira), "Precisamos Falar" (Rebeca Diniz e Pedro Waddington), "Assalto à Brasileira" (José Eduardo Belmonte) e "Câncer com Ascendente em Virgem" (Rosane Svartman).

Divulgação - 'Malês' recria em tons épicos a revolta muçulmana que sacudiu a Bahia do século 19

"Malês" acompanha as condições de vida da população negra no século XIX e o enfrentamento ao racismo, pobreza e intolerância religiosa. O elenco inclui Rocco e Camila Pitanga, Bukassa Kabengele, Samira Carvalho, Rodrigo de Odé, Heraldo de Deus, Wilson Rabelo, Edvana Carvalho, Indira Nascimento, Thiago Justino e Patrícia Pillar, além do próprio diretor. O roteiro é de Manuela Dias, a fotografia de Pedro Farkas.

Em entrevista durante o festival, Pitanga ressaltou a importância histórica da obra. "Esse filme é um feito histórico. A gente não tem filmado muito no Brasil acontecimentos históricos como é feito na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, então esse é o caminho", afirmou. O diretor destacou ainda que "Malês" oferece uma perspectiva pouco explorada nos registros convencionais: "O filme mostra outra visão, uma que os livros de história não contam; pouco se sabe sobre os malês através dos livros de história mais tradicionais". Para Pitanga, a narrativa é relevante ao contexto atual: "É um filme muito representativo para os tempos atuais, porque é sobre retratar o ponto de vista africano, não português, contando a história de um viés diferente do que estamos acostumados. É um filme que fala sobre negritude, mas é, ao mesmo tempo, um filme para todos conhecerem a história do Brasil".

O Prêmio do Júri Jovem, votado por estudantes parisienses que participaram das sessões escolares, foi para "Tudo que Aprendemos Juntos" (2015), de Sérgio Machado. O longa acompanha Laerte, violinista interpretado por Lázaro Ramos — homenageado nesta edição do festival — que passa a lecionar música na comunidade de Heliópolis em São Paulo após não ser aprovado em audição para a Osesp. Inspirado na criação da Orquestra Sinfônica de Heliópolis, o filme explora a relação entre ensino, transformação social e acesso à cultura.

Divulgação - Lázaro Ramos protagoniza 'Tudo o Que Aprendemos Juntos'

A cerimônia de homenagens ocorreu em 12 de abril, com Lázaro Ramos em Paris para receber o prêmio dedicado a ele e Taís Araujo — primeira vez que o troféu é concedido a um casal. A cerimônia foi conduzida pela atriz e diretora franco-senegalesa Aïssa Maïga. Na mesma noite, o Tributo a Paulo Gustavo contou com a presença de Thales Bretas, viúvo do ator, e Ingrid Guimarães, parceira de trabalho do humorista. A sessão incluiu exibição de "Minha Mãe é uma Peça 3", vídeo-homenagem inédito e apresentação de trecho de "Minha Melhor Amiga", comédia estrelada por Ingrid e Mônica Martelli com estreia prevista para setembro.

O Troféu Jangada, símbolo do festival entregue aos filmes premiados e homenageados, é assinado pelo escultor e pintor Jaildo Marinho, nascido em Santa Maria da Boa Vista, no sertão de Pernambuco, e radicado em Paris há mais de 30 anos. Katia Adler, curadora do festival, destacou o desempenho da edição: "O crescimento de mais de 10% para um festival dedicado ao cinema brasileiro na França é muito significativo. Tivemos salas cheias ao longo de toda a programação, o que reforça a importância de investir em iniciativas como essa no exterior. É um trabalho que fortalece a imagem do país, cria pontes culturais e abre caminhos concretos para os filmes, realizadores e indústria brasileira no cenário internacional".