Camadas de Ozon
Cacifado na Europa com indicação ao Leão de Ouro e bilheteria farta, 'O Estrangeiro', do popular diretor francês, busca aplausos em festival argentino em meio à sua estreia no Brasil
Cacifado na Europa com indicação ao Leão de Ouro e bilheteria farta, 'O Estrangeiro', do popular diretor francês, busca aplausos em festival argentino em meio à sua estreia no Brasil
Estima-se que a sessão de "O Estrangeiro" ("L'Étranger"), na largada do 27° Festival de Buenos Aires, o BAFICI, agendada para 13h40 desta quinta-feira (16), no Cine Teatro Alvear, lote tão logo o galo cante entre nuestros hermanos. Situação parecida deve rolar por aqui, conforme o novo François Ozon se espalha pelo circuito exibidor, ao longo do fim de semana. Há 26 anos, desde a estreia de "Sob a Areia" (2000), a América do Sul tem o cineasta parisiense como um xodó, algo que mais uma vez se confirma com o êxito europeu de seu novo exercício autoral - talvez o mais arriscado da sua obra. O filme vendeu 766.983 ingressos em sua pátria natal e rendeu o troféu César (o Oscar francês) de melhor coadjuvante ao ator Pierre Lottin. A elogiosa carreira deste thriller existencialista em Veneza, onde concorreu ao Leão de Ouro, firmou seu prestígio.
"Existem muitos cinemas dentro do cinema francês, mas o que talvez me diferencie é o interesse pelas pequenas situações do quotidiano: elas engrandecem qualquer pessoa", afirmou o cineasta de 57 anos ao Correio da Manhã, no Festival de San Sebastián, há um ano, quando iniciava a produção de "O Estrangeiro", consagrando-se em solo espanhol ao ganhar o prêmio de Melhor Roteiro por "Quando Chega o Outono", já lançado por aqui.
Esse misto de filme de mistério e drama crepuscular sobre maternidade foi prestigiado por 674 mil pagantes em terras francesas. Antes dele, "O Crime É Meu", de 2023, vendeu um milhão e noventa e um mil ingressos. Embora alterne narrativas mais espinhosas (como "Está Tudo Bem", sobre finitude e eutanásia) com exercícios de gênero sem medo de ser comercial (como a comédia "Potiche", que vendeu 2,3 milhões de entradas), Ozon é sempre a maior diversão, não só para seu público, como para distribuidores e exibidores. "8 Mulheres" foi blockbuster, em 2002, com 3,5 milhões de entradas vendidas, e "Dentro da Casa" (2012) passou a marca do milhão também, além de conquistar a Concha de Ouro. Ele não só faz sucesso nas bilheterias, como ganha prêmios.
A atração da vez de sua lavra, que chega ao BAFICI numa seção dedicada a estandartes autorais de gerações distintas (Claire Denis, Angela Schanelec, Maite Alberdi, Julien Temple, Richard Linklater, Nadav Lapid, Hong Sangsoo) nasce do romance homónimo de Albert Camus (1913-1960) e carrega a forte carga filosófica do escritor. "O Estrangeiro" (1942) foi adaptado para o teatro no Brasil no início dos anos 2000 e reconfigurou a carreira do ator Guilherme Leme Garcia. Já em 1967, tinha sido levado ao cinema por um mestre, Luchino Visconti (1906-1976), com Marcello Mastroianni (1924-1996) como protagonista. Em 2024, em entrevista ao Correio de Manhã em solo basco, Ozon antecipava já detalhes do projeto: "Costumo sonhar com aquilo que estou a filmar e, nos sonhos, quase sempre, surgem-me soluções para o que planeio fazer", disse o cineasta.
Fiel a Camus, o seu "L'Étranger" decorre em Argel, em 1938, onde Meursault, um funcionário discreto e modesto na casa dos trinta, comparece ao funeral da mãe sem derramar uma lágrima. No dia seguinte, envolve-se num romance casual com uma colega, Marie, e retoma rapidamente a sua rotina, sem enfrentar o luto. Contudo, a sua vida quotidiana é logo perturbada pelo vizinho, Raymond Sintès, que o arrasta para os seus negócios obscuros — até que, num dia de calor extremo, ocorre um acontecimento trágico numa praia. Quem conhece Camus (ou as versões anteriores do seu best-seller) sabe tratar-se da morte de um árabe. O tema, associado a um país como a França, reabre a ferida da xenofobia, regando-a com os acordes da canção "Killing An Arab", do The Cure.
Ao seguir este caminho, apoiado no carisma do ator Benjamin Voisin (com quem já trabalhara em "Verão de 85"), no papel de Meursault, Ozon envereda por um terreno político distinto daquele que habitualmente explora através da sua estética queer (a luta contra a intolerância e a homofobia). Já o fizera em 2019, com "Graças a Deus", denunciando abusos sexuais cometidos por padres católicos — obra que lhe valeu muitos inimigos na Igreja, mas que catapultou a sua carreira para um patamar diferente de prestígio, coroado com o Grande Prêmio do Júri da Berlinale.
"Não estou preocupado em ganhar o Óscar, nem espero reconhecimento de prémios. A minha preocupação mais genuína é proporcionar ao público uma experiência inesperada em cada filme. Gosto do set, adoro trabalhar, e por isso estou sempre ocupado a criar", afirmou Ozon ao Correio em San Sebastián, quando "O Estrangeiro" ainda estava em fase de gestação.
Nesta quinta, o BAFICI promete polêmica à moda do Cazaquistão com "Sicko" ("Auru"), de Aitore Zholdaskali. Na trama, a dupla Azamat e Tanshoplan, acossados por dívidas, inventam uma doença terminal para lançar uma campanha de arrecadação de fundos nas redes sociais. O que começa como um plano desesperado logo se converte numa mentira difícil de controlar.
Ainda nesta quinta, Buenos Aires projeta "La Verdadera Historia de Ricardo III", de Marcelo Piñeyro, que, há cerca de um mês, brilhou no Festival de Málaga, na Espanha. Baseada na peça teatral homônima de Adrià Reixach, dirigida nos palcos com Calixto Bieito, a nova experiência narrativa do diretor de "Plata Quemada" (2000), com Joaquin Furriel, evidencia o quanto o cinema da Argentina se empenha para sobreviver mesmo sob a geada política que tenta frear as vozes criativas avessas ao jugo de Javier Milei na presidência. Uma geada que o BAFICI sabe driblar com resiliência
O festival n° 1 da Argentina segue até o dia 26 de abril e tem duas produções brasileiras em sua competição oficial: o curta "Banho Maria", de Gabriel Faccini, e o longa "Nosso Segredo", da atriz e dramaturga Grace Passô.