'Posso experimentar toda sorte de cinema, mas a música estará sempre lá'
Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Alaíde Costa não precisa que falem por ela, pois bastam alguns acordes para esse rouxinol do Méier comprovar o que fez com a canção brasileira, aveludando fraseados de lirismo puro. Por isso, "A Noite de Alaíde" - um dos títulos que vão encerrar o 28° Festival du Cinéma Brésilien de Paris, nesta terça-feira (14) dispensa as estratégias de "verbete de Wikipedia" comum a narrativas biográficas brasileiras e deixa sua protagonista soltar o que tem de mais divino: a voz. A sacada que sua diretora, Liliane Mutti, encontrou para dar à cantora uma ribalta cinematográfica mais original do que o padrão da nossa não ficção foi aplicar linguagem de animação a sequências pautadas pela emoção. Ao animar situações do passado da intérprete de "Afinal", recriando fatos dos anos 1940 e 50, a realizadora baiana dá ao evento francês um exercício híbrido de expressões poéticas em movimento. "Fiz mestrado em Estudos de Gênero, investigando a partir de Clarice Lispector, o cinema queer, o feminismo radical, na universidade onde estudaram Lacan, Foucault e Deleuze. Recentemente, decidi voltar para o doutorado, em Cinema, na UFBA. Sinto tudo em diálogo. Cada filme para mim é uma tese, uma visão e principalmente, um projeto de mundo", explica Liliane ao Correio da Manhã.
Realizadora de "Salut, mes ami.e.s !" (2023) - filme sobre o rito de passagem da juventude, ambientado no CIEP 449, de Niterói - e de "Madeleine à Paris" (2024) - focado no performer Roberto Chaves, o Robertinho -, essa artesã das artes documentais explica nesta conversa o que buscou animar ao revisitar uma deusa do nosso cancioneiro.
O que Alaíde Costa representa para a canção brasileira?
Liliane Mutti - Uma mulher, cantora, compositora, negra, mãe e com uma travessia nada fácil. A história da Alaíde é digna de cinema, com rasteiras, reviravoltas e um reconhecimento tardio, mas potente. O que busco retratar é sobretudo a dignidade que sempre esteve com ela. Ela nunca se rendeu à fama fácil e se manteve fiel à sua forma de cantar, mesmo que, em muitas rodas, destoasse do estruturalmente esperado.
Como foi estruturada essa produção a partir da França, onde você mora?
A produção foi feita no Brasil, sobretudo em São Paulo, onde a Alaíde mora e onde estava a maioria do elenco, mas temos imagens do Rio, que não poderiam faltar quando falamos de Bossa Nova. A equipe é franco-baiana, com grandes parceiros criativos que me acompanham. Sou bem fiel à equipe com que trabalho, porque temos construído uma linguagem coletivamente. É um time majoritariamente de mulheres, das funções de chefia de produção à técnica. O animador é o mesmo que estreou no longa de animação comigo e o Daniel Zarvos no filme "Miucha, A Voz da Bossa Nova": Guilherme Hoffmann. Ele animou as aquarelas desenhadas por Miúcha lá. Desta vez, criamos quadro a quadro os desenhos, com a animação feita a partir do corpo e da interpretação dos atores.
O que o cinema documental musical te oferece de mais desafiador e de mais potente em suas recorrentes passagens pelo filão?
"A Noite de Alaíde" é meu quarto longa e primeiro com elementos mais fortes da ficção. Amo cinebiografia musical, sou público e criadora. Posso experimentar toda sorte de cinema, mas a música estará sempre lá. Mas pra ser muito sincera, para mim só existe filme. Tudo é filme quando inventamos e reinventamos mundos a partir de um olhar. Também sou uma rata dos arquivos e são eles que me permitem mergulhar em acervos de película, que é minha grande cachaça. Meu próximo projeto de ficção estamos estudando como filmar em película, mas temos a limitação de laboratórios no Brasil.
O que a maratona cinéfila produzida por Katia Adler, o Festival du Cinéma Brésilien de Paris, representa aí para a vida cultural da capital francesa?
É minha casa, meu ninho e meu trampolim. Tenho uma imensa admiração pela curadoria da Katia e pela luta dos festivais brasilianistas no exterior. É preciso olhar para o trabalho de embaixadoras e embaixadores do cinema brasileiros que pessoas como ela exercem na prática. A Embratur começou a se atentar para importância estratégica do festival para a promoção do soft power brasileiro no exterior. As Film Commissions das cidades brasileiras, com potencial e visão para o cinema, também são parceiras potenciais do festival. O Festival do Cinema Brasileiro de Paris é gigante, divulga os nossos filmes no seio da cultura francesa e europeia, mas tenho certeza que ele ainda vai crescer muito e quero estar lado a lado da Katia nos seus 30 anos, em 2028.
Que novos projetos você tem para o ano?
"Angela Ro Ro, O Grande Escândalo Sou Eu". Esse filme está previsto para 2027, mas estou amando tanto vê-la viva na tela que parece que não quero acabar. Ela revive através do filme e isso é um bálsamo para o luto, meu e de tantos que a amaram intensamente, como ela viveu. Estou mergulhada ainda em outro filme, que está começando a circular os festivais em paralelo ao "A Noite de Alaíde": o "Quanta Reza Será Preciso Para um Simples Banho de Mar". É um que se se passa em Niterói e mostra a herança maldita da ditadura militar brasileira para o meio ambiente e como esses ecos chegam até hoje, nas gerações atuais.
Desde quando você mora na França?
Desde o pós-golpe da primeira presidenta do Brasil (Dilma Rousseff), pois foi uma queda muito difícil, para quem trabalha com arte, ver um país como Brasil acabar com seu Ministério da Cultura. Foi uma dor e uma vergonha sem tamanho. Moro em Paris, no Marais, um bairro gay com muito orgulho, mas vivo numa ponte (com o Brasil) e a minha raiz é sempre a Bahia. Tenho chão e teto e família em Salvador. Foi onde escolhi fazer meu doutorado em cinema, onde investigo o cinema franco-brasileiro em uma perspectiva decolonial. Podemos criar juntos, mas o eurocentrismo precisa ser combatido e o cinema latino-americano tem feito isso muito bem.