Alma (e resiliência) no olho

Festival idealizado por Zózimo Bulbul completa 18 anos numa ponte com filmografias de autoralidade africana

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Zózimo Bulbul (1937-2013) dirgiu e estrelou 'Alma no Olho', pilar do pan-africanismo nas telas

Festival idealizado por Zózimo Bulbul completa 18 anos numa ponte com filmografias de autoralidade africana

Se nos últimos 17 anos, você não foi a nenhuma edição do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, vá no YouTube e procure por "Alma no Olho", curta-metragem rodado em 1973 pelo ator, cineasta e ativista da luta decolonial que dá nome ao evento. A experiência estética - e política - que esse filme... atualíssimo... gera transformou Zózimo (nascido em 1937 e morto em 2013) num gigante do patrimônio cinéfilo não só deste país, mas do que ele chamava de cultura "pan-africana". Até o dia 17 de abril, o conceito que esse artista defendeu sua obra alimenta a 18ª edição de um festival que revelou talentos a granel.

Pavimentada sob a ideia de que o pan-africanismo é um horizonte de união e solidariedade entre africanos do continente e seus descendentes espalhados pelo mundo, essa mostra conecta continentes, fazendo do Cine Odeon um istmo. Laza Razanajatovo, diretor de curadoria do Encontro, reuniu títulos de peso. Ontem passou "Proteção", de Alberto Senna. A boa da sexta-feira é "Laudelina e a Felicidade Guerreira", em que a diretora Milena Manfredini confirma (mais uma vez) estar em fase de apogeu criativo ao dirigir ao falar de uma ativista que virou lenda. Seu filme passa às 17h. Às 21h, é a vez de "Dentro Do Meu Peito Rola Um Cão", de Gabriel Afonso, vindo das Gerais.

Divulgação - 'Dentro Do Meu Peito Mora Um Cão' é uma das atrações desta sexta no Odeon

Neste sábado, rolam curtas como "Aláfia", de Cecília Fontenele (às 17h); "Cafuné", de Igor Correia (às 19h); e "O L É de Lésbica", de Juh Almeida (às 21h). No domingo, às 15h, o Odeon vai projetar "O Pai Da Rainha De Angola", do dramaturgo, escritor, diretor teatral e cineasta Rodrigo França. Projetado no 14ª AFRIFF (Africa International Film Festival) na Nigéria, o filme é defendido pelo talento de Lucas Oranmian, numa atuação em estado de graça sobre construção de identidades. Na trama, ele vive Ravi, que decide adotar Thelminha (Dandara Arcebispo), uma menina de sete anos de idade. No processo de adaptação entre pai e filha, Ravi passa a compartilhar fragmentos de sua trajetória, revelando afetos, memórias e aprendizados ligados às batalhas decoloniais. Em resposta, a menina também se revela, apresentando ao pai sua verdadeira identidade: Zuri, a rainha de Angola.

Ádima Macena/Divulgação - Dirigido por Rodrigo França, o curta 'O Pai da Rainha da Angola' passou pelo Open Air e chega ao festival

Às 21h deste 12 de março, haverá sessão de "IRA - A Travesti na Escravidão", de Anuby Messias. Sua narrativa conduz o espectador por uma viagem (trans-)histórica pelo passado colonial e escravocrata brasileiro, entrelaçando memória, corpo e ancestralidade. A partir de seu processo de transição de gênero, Anuby propõe um diálogo profundo sobre o lugar da corporeidade trans... e negra... na sociedade contemporânea.

Divulgação - Burkina Faso pede passagem com 'Katanga - La Danse des Scorpions'

Segunda-feira, o Encontro exibe títulos do exterior, como "Katanga - La Danse des Scorpions", de Dani Kouyaté (Burkina Faso), às 13h, e "Une Si Longue Lettre", de Angèle Diabang Brener (Senegal), às 19h. Na terça, o fecho da programação do Odeon será com o documentário musical "Anos 90: A Explosão do Pagode", de Emilio Domingos, em sessão às 21h. ídolos populares da canção como Belo, Péricles, Thiaguinho e Ludmilla integram o rol de estrelas analisados pelo cineasta.

O Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul deste ano presta um tributo a uma recente imortal da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Gonçalves, consagrada pelo livro "Um Defeito De Cor", uma travessia literária de ancestralidade. No dia 14 de abril, a escritora participa de uma mesa de debates batizada de "Passagens e Mergulhos", ao lado e Helena Theodoro e Pai Dário, sob a mediação de Janaína Refém. Além dela, a cineasta Viviane Ferreira (de "Afrolatinas: Mulheres Negras Em Movimento") também será uma das homenageadas do Encontro. Ela é uma das fundadoras da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). A realizadora Joyce Prado também está no rol de homenageadas, com sessões de sua filmografia na Casa Brasil (R. Visconde de Itaborai, 78. Centro), no dia 16.

Lucas Seixas/Divulgação - 'Anos 90', documentário sobre pagode encerra as projeções do evento

Na seara dos convidados estrangeiros, o Encontro receberá a presença do diretor maliano Cheick Oumar Sissoko. A direção do evento travou intercâmbio com o MadagascarCourt, um dos festivais de curtas-metragens mais importantes do continente africano. Receberá ainda Tresor Senga, presidente do Mashariki African Film Festival em Ruanda.

Paralelamente ao Odeon, o Encontro realiza atividades na Penha, no Complexo de Favelas da Maré e no Complexo do Alemão, todos na zona Norte do Rio, além do Teatro Municipal Carlos Gomes, da Casa Brasil e do Museu de Arte do Rio (MAR).