'Em Mato Grosso, estamos vivendo, nos anos recentes, uma nova onda de cinema'
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Ao vencer a edição mais recente do Festival de Gramado aterrado a uma linhagem narrativa de rara produção do no país (o thriller), "Cinco Tipos de Medo" contém duas vitórias simbólicas no Kikito de Melhor Filme que conquistou. A primeira: com ele, seu estado, Mato Grosso, venceu, enfim, a mais popular das mostras competitivas de longas-metragens do país. A segunda: trata-se um exemplar do cinema de ação, o mais patrulhado dos gêneros, inimigo jurado da correção política, essencial para o estudo da intolerância, com sua indignação traduzida em combates. O responsável por essa dupla - e rara - consagração é Bruno Bini, cineasta que fez de Cuiabá um microcosmos universalíssimo dos desacertos sociais que descambam na violência, onde se acham as resiliências mais resistentes de nosso povo.
Exibido já em Cuba e convidado para sessões em Manchester (Inglaterra), o longa será projetado no Festival du Cinéma Brésilien de Paris nesta sexta (10), um dia depois de sua estreia comercial em circuito comercial.
Nesta quinta-feira, quem for conferir a produção, vai entender por que Bini ganhou os troféus de Melhor Roteiro e de Montagem e vai conferir a atuação imponente do rapper Xamã, que Gramado coroou com o Kikito de Melhor Coadjuvante. Na trama, Murilo, um jovem músico em luto (vivido por João Vitor Silva), envolve-se com Marlene (Bella Campos), enfermeira presa a um relacionamento abusivo com o traficante Sapinho (Xamã). Suas histórias se cruzam com as de Luciana, policial movida por vingança (interpretada por Bárbara Colen), e Ivan, advogado com intenções ocultas (encarnado por Rui Ricardo Dias). Essas cinco vidas aparentemente desconectadas colidem num caminho sem volta. Bini nos dá um espetáculo eletrizante.
No papo a seguir, o diretor explica os aspectos geográficos e estéticos de seu "Amores Brutos" à moda cuiabana.
Que geografia o Jardim Colorado do filme desenha na tela? Que retrato ele faz de Cuiabá?
Bruno Bini - Em Cuiabá, os bairros não obedecem a uma divisão geográfica social rígida ou segregada e o Novo Colorado retrata bem isso. É uma cidade menos vertical que o Rio, por exemplo, mas tem em comum essa mistura de classes que acontece no caos urbano. Então existe essa fricção social, desigualdades espremidas e visíveis. Isso fica visível tanto em cenas diurnas, quando vemos os bairros vizinhos compondo o fundo do plano, quanto em uma noturna no final do filme, em que a cor atua como elemento limitador entre "aqui" e "lá". Há outras questões mais sutis, como as ruas vazias por conta do calor e trechos de mata atingidos por queimadas que invadem o perímetro urbano, mas considero essa questão da proximidade versus distanciamento a mais forte aqui.
A que genealogia cinematográfica você se filia no seu estado e na sua cidade? Que cinema existia em Cuiabá antes do seu "Cinco Tipos de Medo"?
Em Mato Grosso, estamos vivendo, nos anos recentes, uma nova onda, graças ao processo de democratização na aplicação de recursos de produção no Brasil. O impacto disso aqui foi gigantesco. Novos filmes, novos realizadores, um mercado crescendo efetivamente. Mas isso também é o resultado de um trabalho de décadas, encabeçado por lutadores do setor como Amauri Tangará, Glória Albuês e Luiz Borges. Os dois primeiros, realizadores, literalmente abriram caminho para toda uma geração, na qual eu me incluo. Luiz faz um festival de cinema, hoje CineMato, que serviu e serve de plataforma e espaço de troca para muita gente. Eu me considero filho do festival. Reconheço neles esse papel de precursores desse cinema possível a partir de Mato Grosso.
Que pruídos ainda cercam o cinema de ação no Brasil?
Talvez exista uma impressão de que o cinema de ação é incompatível com densidade dramática ou reflexão social. Eu não vejo assim e acredito que o público também não. Temos bons exemplos de filmes de ação que falam do Brasil de uma maneira muito verdadeira, tendo alcançado êxito de público e crítica. Eu me referencio no cinema de Fernando Meirelles e Beto Brant como exemplos de um gênero que possui um potencial para falar com muita gente enquanto serve de plataforma para temas relevantes.
De que maneira o ofício da montagem lapida o seu olhar para a direção? Como se monta uma narrativa de tantos vértices?
Eu vejo como um recurso que me ajuda muito no processo de colocar o filme de pé, desde o roteiro até as filmagens. Montar me permite acessar soluções criativas que talvez eu só visualizasse posteriormente. Em "Cinco Tipos de Medo", muita coisa da montagem já era prevista no roteiro, em especial nas transições de uma cena para outra e na distribuição dos núcleos narrativos. Muito das decisões estruturais precisaram ser pré-estabelecidas bem cedo no processo. Eu sabia de onde partiríamos e onde queria chegar, o trabalho mais intenso e desafiador foi organizar e equilibrar o "miolo" estrutural do filme.
O que vem pela frente na sua obra?
Tenho novidades, mas você sabe a primeira regra do Clube da Luta, né?