Arlequin,o Odeon de Paris

A charmosa sala de projeção de Saint-Germain-des-Prés será um templo de brasilidade até o dia 14, ao acolher o festival de cinema nacional produzido heroicamente por Katia Adler

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

A prestigiada sala francesa onde o cinema brasileiro é estrela soberana

A charmosa sala de projeção de Saint-Germain-des-Prés será um templo de brasilidade até o dia 14, ao acolher o festival de cinema nacional produzido heroicamente por Katia Adler

Instrumento geopolítico (e poético) de difusão de nossa cultura para o Velho Mundo (e suas novíssimas plateias), o Festival du Cinéma Brésilien de Paris passou os últimos 27 anos fazendo a França escavar jazidas autorais nacionais, levadas até o Cine L'Arlequin, em Saint-Germain-des-Prés, por Katia Adler. Produtora e curadora, ela vem alfabetizando os olhares do público françês a cada nova edição de sua maratona, num trabalho heroico de formação de olhar. A 28ª aventura de sua empreitada começa nesta terça (7).

Divulgação - 'Da Lata 30 Anos' revive imagens do show icônico de Fernanda Abreu

Abre seus trabalhos com um par de títulos: o documentário "Da Lata - 30 Anos", no qual Paulo Severo registra as maravilhas canoras de Fernanda Abreu, e a fábula "Querido Mundo", que Miguel Falabella codirigiu (em P&B) com Hsu Chien Hsin a partir da peça homônima de sua autoria. A combinação entre essas duas narrativas amplia a dimensão etnográfica que o Tempo deu ao charmoso cineminha transformado por Katia numa embaixada de encantamento cinéfilo. É como o nosso amado Odeon, só que à francesa.

"O Arlequin é 'a' melhor sala de cinema de Paris. Ali há muita história. Chamava-se Cosmos e a programação era de filmes russos. Depois, (o ator e diretor) Jacques Tati comprou o espaço, que é um cinema de rua, no coração de Paris, no bairro de Saint-Germain-des-Prés, com uma estação de metrô praticamente na porta. Conta com uma sala de 400 lugares e um hall ideal para eventos paralelos, além de um bar exclusivo para o festival", detalha Katia. "Durante a semana do festival, o Arlequin se transforma em cultura brasileira: vira um verdadeiro ponto de encontro entre os convidados do festival e o público. É a sala de cinema onde me sinto em casa. Estamos ali desde 2002".

Divulgação - 'Medida Provisória' (2021) integra o rol de homenagens ao casal Taís Araújo e Lázaro Ramos

Na programação arquitetada por ela, Lázaro Ramos e Taís Araujo serão os homenageados deste ano e receberão um tributo por suas carreiras, no próximo dia 12. "Medida Provisória" (2021), que deu a Lazinho o Prêmio do Júri do Festival do Rio e vendeu cerca de 500 mil tíquetes em plena pandemia, passa nesse dia. "É uma honra poder homenagear dois ícones brasileiros que são exemplos de ontem e de hoje para as novas gerações", explica Katia.

Em sua mostra competitiva, o Festival du Cinéma Brésilien de Paris terá oito longas de ficção em concurso pelo troféu Jangada de Melhor Filme, a ser conferido com base na escolha do público. Integram a seleção o atual sucesso popular "Velhos Bandidos", de Cláudio Torres; "Malês", de Antônio Pitanga; "Perto do Sol é Mais Claro", de Régis Faria; "Cinco Tipos de Medo", de Bruno Bini, vencedor do Kikito de Melhor Filme em Gramado; "#SalveRosa", de Susanna Lira; "Precisamos Falar", de Rebeca Diniz e Pedro Waddington; "Assalto à Brasileira", de José Eduardo Belmonte; e "Câncer com Ascendente em Virgem", de Rosane Svartman.

Divulgação - 'A Noite de Alaíde' leva a música e a coragem de Alaíde Costa para a capital francesa

Paulo Gustavo, presente!

De mãos dadas com a natureza pop de nossa produção, o evento presta um tributo a Paulo Gustavo (1978-2021), celebrando o humor brasileiro com a exibição do fenômeno "Minha Mãe é uma Peça 3", de Susana Garcia, que levou cerca de 11,5 milhões de pagantes ao circuito. A saudade desse ás da comédia vai bater forte ainda na projeção de "Agentes Muito Especiais", de Pedro Antonio, baseado numa comédia de autoria dele e de Marcus Majela.

Segundo Katia, essas escolhas retratam "um Brasil da diversidade, da democracia, do debate e do respeito". "Fico muito feliz em programar Paulo Gustavo, relembrar sua trajetória e celebrar seu enorme sucesso. É muito importante trazer as comédias brasileiras para essa programação. Eu diria que é necessário, porque, como o próprio Paulo dizia, 'rir é um ato de resistência'. Precisamos manter a capacidade de continuar lutando pela nossa democracia", explica Katia, que deixou "A Noite de Alaíde", de Liliane Mutti, para o fecho de sua celebração cinematográfica. "O festival traz, em sua programação, um retrato atual da sociedade brasileira".

No dia 12, "O Agente Secreto", que inaugurou sua carreira com vitórias em Cannes, nas quais se destacam o prêmio de Melhor Direção (para Kleber Mendonça Filho) e Melhor Ator (Wagner Moura), terá espaço no L'Arlequin. No dia 13, passa "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, que conquistou o Oscar em 2025.

O Festival du Cinéma Brésilien de Paris tem apoios de mídia do Canal Brasil e da Globo Filmes e patrocínio da Embratur.