'Crepúsculo' foi só o começo

Celebrizada como Bella na saga de vampiros e lobisomens que acaba de reestrear, Kristen Stewart aposta na direção ao se firmar como cineasta em 'A Cronologia da Água'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

'A Cronologia da Água' é uma história sobre a superação de abusos que estreou em Cannes

Celebrizada como Bella na saga de vampiros e lobisomens que acaba de reestrear, Kristen Stewart aposta na direção ao se firmar como cineasta em 'A Cronologia da Água'

Reprises de "Crepúsculo" ("Twilight", 2008), hoje em circuito, geram perplexidade em relação ao destino de suas estrelas. Taylor Lautner, o lobisomem Jacob, afastou-se das telas por um bom tempo, e só regressou em 2022, para participar de "Time do Coração". Anda mais preocupado em cuidar de sua família do que em atuar. Já Robert Pattinson, o vampiro Edward, virou um dos maiores astros de nosso tempo, adorado por diretores de alto quilate autoral de diferentes países, como o canadense David Cronenberg, o sul-coreano Bong Joon Ho e o inglês Christopher Nolan, com quem trabalhou em "Tenet" (2020) e no esperado "A Odisseia", que estreia em julho. Além disso, vai estar em "Duna: Parte 3", de Denis Villeneuve.

Não bastasse isso tudo, o ator, que voltará ao circuito, a partir do dia 9, ao lado de Zendaya, em "O Drama", ainda virou o atual Batman, na fase Matt Reeves - diretor que repaginou o Homem-Morcego nas telas. Kristen Stewart, a Bella Swan, por sua vez, refutou o cargo de Meg Ryan do século XXI e optou por um caminho mais ousado. A opção por parcerias com cineastas autorais, como o já citado Cronenberg (em "Crimes of the Future"), Olivier Assayas (em "Personal Shopper") e até Walter Salles (que a dirigiu em "Na Estrada"), tornou-se a escolha primordial da atriz, hoje com 35 anos. Ela fez "Spencer" (2022), sobre Lady Di, com o chileno Pablo Larrain, em 2021, e acabou por ser indicada ao Oscar por seu trabalho.

Fotos/Divulgação - A atriz em cena de 'Na Estrada', de Walter Salles, lançado em 2012

Não levou a estatueta, mas, em 2023, teve a consagração que faltava: assumiu a presidência do júri da Berlinale... e fez jus ao histórico de coragem que tem ao deixar a ficção de lado e conferir o Urso de Ouro a um documentário, "No Adamant". O caminho que lhe faltava era dirigir longas. Essa tarefa já pode ser ticada em sua lista de projetos pessoais, com a estreia, nesta quinta-feira, de "A Cronologia da Água".

"Estou pronta para tudo, mas me identifico com as escolhas de risco", disse a atriz ao Correio da Manhã quando passou por Berlim, em 2024, com "Love Lies Bleeding - O Amor Sangra", um de seus maiores cults, lançado quando preparava sua estreia como realizadora.

Divulgação - Kristen Stewart nos sets, em sua estreia como cineasta

Exibido na competição pelo Prix Un Certain Regard do Festival de Cannes, em 2025, "The Chronology of Water" é baseado nas memórias da escritora Lidia Yuknavitch. O enredo investe numa recriação de diferentes momentos de sua vida, desde a infância, gravemente atravessada por violência doméstica, até a vida adulta, marcada por vícios, perdas e uma relação conflituosa com o próprio corpo. Vivida por Imogen Poots, em uma atuação amplamente celebrada pela crítica, Lidia é uma mulher em constante queda e reinvenção, que encontra na arte um caminho possível para reorganizar o caos, dar sentido à dor e recuperar o direito ao desejo. James Belushi (de "K-9") tem uma interpretação delicada ao lado dela, interpretando o escritor Ken Kesey (1935 -2001), autor de "Um Estranho No Ninho" (1962), filmado com Jack Nicholson em 1975.

Em vez de seguir a cartilha da cinebiografia tradicional, Kristen aposta em fragmentos, memórias e sensações, criando um retrato íntimo, físico e emocional de Lidia, usando película 16 milímetros, numa fotografia cheia de textura e uso intenso de closes.

"Sinto ter chegado num momento em que estou pronta para tudo, embora eu me identifique mais com as escolhas de risco, com papéis que fogem das normas", disse Kristen na passagem pelo Festival de Veneza com "Seberg", em 2019, no papel da atriz Jean Seberg (1938-1979), em um drama biográfico dirigido por Benedict Andrews.

Quando "A Saga Crepúsculo" havia encerrou sua franquia, em 2012, Kristen foi para a França, onde filmou "Acima das nuvens" (2014) com Juliette Binoche, sob a direção de Olivier Assayas. "Na França, os diretores se arriscam mais, o que se afina com o meu jeito de estar no cinema", disse a estrela, que acaba de filmar sob a direção de sua companheira, Dylan Meyer, o longa "As Garotas Erradas", sobre uma droga que gera telepatia.

Acredita-se que Kristen volte a Cannes, em maio, com "Full Phil", de Quentin Dupieux, ao lado de Woody Harrelson. Na trama, a viagem de um rico industrial americano a Paris, com sua filha distante Madeleine, dá errado quando comida francesa, um filme de terror vintage e um funcionário de hotel intrometido interferem em seus planos.

Duas outras atrizes acostumadas a arriscar, assim como Kristen, estrearam longas de 2025 para cá: Maggie Gyllenhaal fez "A Noiva!" e Scarlett Johansson dirigiu "A Incrível Eleanor". No Brasil, um caso similar se deu com Barbara Paz, que vai lançar em breve o documentário "Rua do Pescador n° 6", projeto que filmou com base nas tormentas no Rio Grande do Sul.