Verdades em erupção
Um dos documentaristas mais premiados da atualidade, Gianfranco Rosi lança 'Pompeia: Sob As Nuvens', retratando uma Nápoles além da lava e das notícias, renovando o gênero de não-ficção
Um dos documentaristas mais premiados da atualidade, Gianfranco Rosi lança 'Pompeia: Sob As Nuvens', retratando uma Nápoles além da lava e das notícias, renovando o gênero de não-ficção
Vulcões atraem o olhar crítico de Gianfranco Rosi não pelo risco de uma erupção iminente, mas pelo que revelam sobre as vidas em seu entorno. Espaços urbanos são um tecido humano e é de gente que fala a obra desse popstar do real, consagrado com o Urso de Ouro da Berlinale (por "Fogo no Mar", em 2016) e com o Leão de Ouro veneziano, conferido a seu "Sacro GRA", em 2013. A gente que estrela seu longa-metragem mais recente, "Pompeia: Sob as Nuvens" ("Sotto Le Nuvole") - documentário laureado com o Prêmio do Júri de Veneza, em setembro - é a população localizada entre o Monte Vesúvio e o Golfo de Nápoles.
A partir desta sexta (27), via MUBI, internautas do Brasil todo podem conferir o que esse território, de atividade vulcânica intensa... e quente, revelou ao documentarista ítalo-americano nascido na Eritreia, há 62 anos. Ali, o solo treme periodicamente e as fumarolas dos Campos Flégreos contaminam o ar. A partir de vestígios da História, numa cartografia das memórias de um mundo subterrâneo, num registro em preto e branco de uma elegância plástica singular, emerge uma Nápoles menos conhecida, polifônica.
"Eu ponho meus olhos na câmera da mesma forma que um cientista observa um corpo num microscópico, assumindo que o documentário funciona, antes de tudo como uma ferramenta de investigação. As histórias que eu conto se desvelam para mim com o tempo, a partir de um convívio com os objetos. Nápoles está lá, diante de mim, como um espaço concreto. O que eu preciso é perceber o que parece não estar lá", explicou Gianfranco ao Correio da Manhã em entrevista via Zoom.
Retratada múltiplas vezes pelo cinema italiano como sendo uma região assolada pela Máfia, Nápoles lida com os vulcões à sua volta como parte indispensável de sua paisagem. O ritmo do povo local, em seu cotidiano, segue inalterado, apesar do acidente geográfico ao redor e das cinzas que ele pode gerar... além da lava que pode derramar. Em meio ao fluxo econômico da cidade, arqueólogos removem com cuidado séculos de poeira para revelar fragmentos da História, de tempos antigos que a lava destruiu. Paralelamente, crianças recitam lições enquanto a terra vibra sob seus pés. Bombeiros permanecem de prontidão, à espera do próximo chamado. É sempre assim por lá. É uma rotina que, em sua repetição, dava filme.
"O vulcão é uma máquina viva. O vulcão é como uma divindade no campo. É como Shiva, o deus destruidor e regenerador", explica Gianfranco. "Existe um espaço 'fora de quadro' que serve de base para o filme. Nápoles, para mim, é um enorme espaço repleto de coisas que não são vistas. Tudo está lá, mas por baixo da terra. Há um mundo incrível que está por baixo do relevo, e é isso que se tem de descobrir: o que está sob das aparências. É por isso que gosto de trabalhar com a câmara fixa, para concentrar a narração dentro daquele enquadramento. Tenho uma única sequência em movimento nas cenas, com um trem".
No www.mubi.com, encontra-se um outro longa de Gianfranco, "Notturno" (2020), que saiu ovacionado do Festival de Veneza, levando um prêmio especial da Unicef pelo humanismo em sua colagem de diferentes formas de se lidar com a violência e a fé nos desígnios do Estado Islâmico. Na sequência, ele filmou "In Viaggio", calcado nas jornadas do Papa Francisco (1936-2025), que excursionou por 37 países, do Oriente Médio, pela América, África e Sudeste Asiático, discutindo temas centrais da atualidade - pobreza, natureza, migração, guerra e intolerância - em suas homilias. O diretor partiu dos sermões do Sumo Pontífice para analisar como suas palavras refletem a realidade. Paralelamente, nasceu o périplo que gerou "Pompeia: Sob as Nuvens", que, como de costume, exige do realizador múltiplas destrezas, uma vez que ele trabalha majoritariamente sozinho, chegando a operar a câmera e registrar o som - fora escrever o roteiro e cuidar da produção. Nessa função, aqui, ele não esteve sozinho.
O filme já na MUBI é produzido por Donatella Palermo, Paolo Del Brocco, 21Uno Film srl e Stemal Entertainment srl, com Rai Cinema. A montagem é de Fabrizio Federico, em colaboração com Joe Bini, e a trilha sonora é do vencedor do Oscar Daniel Blumberg.
"Gosto, na minha área, de revelar a complexidade da História, a complexidade do mundo em que vivemos. Por isso, para mim, é sempre um desafio deixar um espaço para a interpretação, jogando sempre com o que fica 'fora do quadro', além da imagem filmada, para deixar a ideia do que não está lá em discussão. É aí que reside o futuro da realização de documentários hoje em dia: inverter uma certa realidade, transformar a realidade noutra coisa, transformar a realidade através da linguagem do olhar... fazer dela algo que perdurará. Na prática do cinema documental, a imagem tem um valor que vai além do momento. Num noticiário, os fatos ficam velhos tão logo vão para o ar. Eles se limitam à notícia. Já o cinema opera com um sentido da vida eterna. A vida, diante de nós, em um filme, é o infinito. Existe o enquadramento que o cineasta determina para um relato, mas há a interpretação de cada um de nós, que deve ser livre, e conduz o que é visto ao futuro, a diferentes hipóteses", explica Gianfranco, que iniciou a carreira em 1993, com "Boatman", indicado a prêmios em Sundance sobre a travessia no rio Ganges.
"Passados 30 anos, esse filme ainda tem coisas novas a sobre seus personagens, assim como um documentário que eu fiz depois, 'El Sicario, Room 164', centrado no México dos carteis, ainda reflete o que acontece hoje, com a chegada de Trump ao Poder".
Jurado na Berlinale de 2021, que, realizada online, em plena pandemia, concedeu o Urso de Ouro a uma mistura de .doc, ficção, vinheta, piada, memória e fabulação ("Má Sorte No Sexo ou Pornô Acidental", do romeno Radu Jude), Gianfranco lembra que, até hoje, amigos ligados a outros ofícios lhe perguntam: "Quando é que você vai fazer um filme de verdade?". A pergunta é uma provocação recorrente de quem hierarquiza a ficção, posicionando-a num patamar superior às narrativas do real.
"Se eu fosse encarar uma ficção, teria que passar por uma máquina industrial que iria mastigar a minha vontade e cuspir fora as minhas visões. No processo que eu sigo, ao concentrar muitas etapas do processo de criação, eu posso depurar uma narrativa que se guia pela minha vivência dos temas. Mesmo no documentário, eu não aceito ficar no gueto. Lanço meus festivais nos grandes festivais sem fronteiras temáticas, sobretudo os mais generalistas e prestigiados, como Veneza e Berlim, onde a ficção se destaca, para que os dispositivos documentais alcancem outros espaços e cheguem a outros públicos", diz o realizador.
Ele hoje contesta estruturas vigentes nas narrativas documentais da atualidade. "Costumo dizer que a maior parte das coisas que vejo agora nos documentários - todos muito baseados na palavra - são explicações, são queixas. Há alguém a se queixar de um problema e, depois, há alguém explicando por que razão alguém faz uma queixa daquele tipo. É falatório, numa estrutura pouco interessante, que está matando completamente a linguagem do cinema. Está matando o ponto de vista de um autor e está matando o público. Meus filmes apresentam uma constelação de situações diferentes. E gosto que seja o próprio espectador a estabelecer as conexões entre o que mostro", diz Gianfranco, destacando a relevância da música de Daniel Blumberg (que ganhou um Oscar, em 2025, por "O Brutalista") para "Pompeia: Sob as Nuvens".
"Pela primeira vez, senti a necessidade de colocar música num filme e chamei o Daniel, que é um amigo. Ele teve pouco tempo para o trabalho e eu queria que ele apostasse numa musicalidade em que os sons dos instrumentos musicais não fossem reconhecíveis. Ele trabalhou com muito improviso e, depois, teve a ideia incrível de voltar a Nápoles, onde filmei a última cena do filme, colocar microfones e autofalantes debaixo de água, para gravar ruídos subaquáticos. Mais uma vez, temos a noção da transformação, típica da arte em que acredito, mas no campo do som. Essa incrível camada sonora subaquática deu ao filme a respiração de que precisava, além de uma suspensão de que necessitava para criar espaço entre as histórias e para demarcar a sensação de natureza presente em torno do campo, de forma constante".