Nem todo carnaval tem seu fim
Com sessão no Espaço Cultural Arte Sesc, o filme 'Sonho e Delírio' parte de fotografias de Luiz Baltar e de texto clássico de João do Rio para ressaltar a tradição dos bate-bolas
Com sessão no Espaço Cultural Arte Sesc, o filme 'Sonho e Delírio' parte de fotografias de Luiz Baltar e de texto clássico de João do Rio para ressaltar a tradição dos bate-bolas
Quem foi menino pequeno no subúrbio do Rio um dia, ali pelos idos do carnaval, correu para o colo da mãe ao ver um bate-bola passar, quicando uma esfera de plástico no chão, qual fosse o mangual de um paladino medieval, disfarçado sob uma máscara assustadora. Esse mesmo guri de outrora, um pouco mais crescido, mudou de posição e resolveu, ele mesmo, bater a bola da folia, numa tradição, hoje menos falada, mas preservada no imaginário da arte por esforços como o do filme "Sonho e Delírio".
Com sessão marcada para sábado, às 15h30, no Espaço Cultural Arte Sesc, no Flamengo, esse exercício cinematográfico de observação e fabulação é dirigido por Marcio Nolasco. Sua narrativa constrói um diálogo entre tempos, linguagens e sensibilidades ao fundir fotografias do artista visual Luiz Baltar à narração do texto "Cordões" (1908), escrito por João do Rio (1881-1921), cronista da polis carioca do início do século 20.
Baltar, que ainda assina o roteiro com Nolasco, explica ao Correio da Manhã que a produção acompanha a travessia de um jovem negro trabalhador que vive a expectativa de sua metamorfose no carnaval. "A partir desse percurso, o filme revela um Rio suburbano e periférico, onde o carnaval é produzido de forma coletiva por jovens, em sua maioria negros, que fazem das turmas espaços de criação, pertencimento e afirmação. São territórios como Madureira, Marechal Hermes e as favelas do Muquiço, onde essa cultura se mantém viva através de práticas artesanais, do trabalho compartilhado e de uma temporalidade própria, ligada à preparação e ao ritual", diz Baltar, um artista visual, que já expôs internacionalmente.
"Esse Rio, no entanto, é atravessado por estigmas. A forma como os bate-bolas foram historicamente retratados pela imprensa evidencia um olhar que criminaliza esses corpos e não reconhece a sua força e contribuição para a cultura suburbana. O risco de desaparecimento é também narrativo. O filme busca tensionar esse imaginário, ativando esse território como um arquivo vivo - não como memória nostálgica, mas como experiência sensorial e política, onde passado e presente se cruzam e outras formas de ver podem emergir", prossegue.
Bate-bolas e clóvis, conhecidos por seus guarda-chuvas estilizados, foram tema de um .doc de sucesso do diretor teatral Marcus Vinícius Faustini, há dez anos: "Carnaval, Bexiga, Funk e Sombrinha". À época, o Cinesystem Belas Artes Botafogo, então chamado Unibanco Arteplex, ferveu com a investigação antropológica do encenador e cineasta. Produzido e lançado pela Fluxorama, "Sonho e Delírio" também vai além da antropologia das faces gloriosas que a festa do Rei Momo desvela (e revela) e aposta no lúdico. No primeiro momento, correspondente ao "sonho" do título, a câmera segue a preparação íntima, quase silenciosa, dos bate-bolas para a saída às ruas. Enquanto isso, os movimentos do dançarino Geovanne Pereira Chagas, chamado de Laranjinha Ritmado, funcionam como metáfora corporal dessa excitação contida, quase ritualística. Em seguida, o filme entra no "Delírio", quando a explosão da alegria carnavalesca jorra pelo espaço urbano.
"A luz no filme acompanha essa travessia estética e política", explica Baltar. "Em 'Sonho', ela é contida, densa, quase tátil. Revela o tempo da preparação, os gestos, as texturas, o trabalho coletivo. Há uma tentativa de desacelerar o olhar e criar um espaço de suspensão, onde a dimensão íntima e comunitária dessas práticas se torna visível. Em 'Delírio', a luz se expande e se desestabiliza: estoura, fragmenta, se torna excesso. Ela acompanha a irrupção desses corpos na rua, afirmando sua presença e produzindo vertigem. Deixa de ser apenas reveladora para também tensionar o olhar, deslocando essas imagens do campo do estigma para o da potência.
Mais do que iluminar, a luz participa da experiência — ela constrói uma forma de ver e de sentir esses corpos e esses territórios".
Segundo Baltar, o bate-bola é um signo de transformação e de disputa simbólica. "Ele emerge de uma juventude negra periférica que, por meio da fantasia, da máscara e da performance, cria um espaço de invenção de si e de afirmação coletiva", explica o fotógrafo. "Ao vestir a fantasia, o corpo atravessa um processo de deslocamento: entre anonimato e presença, entre medo e fascínio, entre tradição e reinvenção. Longe dos estereótipos, trata-se de uma prática altamente elaborada, que envolve criação estética, organização comunitária e transmissão de memória. As turmas funcionam como núcleos culturais, reunindo famílias e territórios em torno da festa. Nesse sentido, o bate-bola é mais do que uma manifestação carnavalesca. É um dispositivo de imaginação e resistência, uma forma de produzir mundo e de reescrever as narrativas sobre quem ocupa a cidade e como esses corpos podem ser vistos".
Após a sessão de "Sonho e Delírio", no Espaço Cultural Arte Sesc do Flamengo, a equipe de Nolasco participa de um debate com o público. A entrada é gratuita, sem necessidade de inscrição prévia. Contemplado no Edital Pulsar Palavra Líquida Sesc 2025, cujo tema foi "Tempo e Festa", o curta também será exibido em outras unidades da instituição.