Sodoma e Gomorra no Evangelho de Neville
Uma crônica definitiva da Babel carioca nos anos 1980, 'Rio Babilônia' terá exibição nesta quinta (26) no Cine Casas Casadas enquanto outras obras de seu realizador, Neville D'Almeida, vêm brilhando no streaming
Uma crônica definitiva da Babel carioca nos anos 1980, 'Rio Babilônia' terá exibição nesta quinta (26) no Cine Casas Casadas enquanto outras obras de seu realizador, Neville D'Almeida, vêm brilhando no streaming
Sinônimo vivo de salas de exibição abarrotadas (de pagantes) na virada dos anos 1970 para os 80, o mineiro Neville d'Almeida vivia o apogeu profissional de uma carreira forjada na ousadia quando decidiu fazer uma crônica - definitiva - sobre a Babel que o Rio de Janeiro virou com a instalação da cocaína como "passatempo" da burguesia e meio de subsistência do submundo. Com "A Dama do Lotação" (1978), o diretor contabilizara 6.509.134 ingressos vendidos, isso só pelas estatísticas da Embrafilme, pois outras fontes falam em 7,5 milhões de pagantes. É um dos maiores recordes de arrecadação da História deste país nas telas.
Na sequência, fez "Os 7 Gatinhos" (1980) e arrastou por volta de 1,9 milhão de espectadores para os palácios e poeiras do país. Estava com tudo, sem estar prosa, pois sua vocação é bagunçar o coreto das patrulhas morais. Satisfez sua vontade de registrar excessos de uma década que nascia trincada ao tratar esta cidade qual fosse a Sodoma e Gomorra de sua fiel companheira, a "Bíblia", no thriller "Rio Babilônia", lançado em 1983. Parte da crítica enxerga ali uma obra-prima. Programadores de TVs (abertas e fechadas) encontraram em sua narrativa uma mina de ouro: por anos a fio, o filme rodou pelas madrugadas das telinhas do Brasil. Onanistas se deliciaram com seu teor de erotismo por anos a fio, sem preocupação alguma com objetificações. Conservadores o tratam como chorume há quatro décadas. Uma obra de arte que sabe ser isso tudo só pode ser signo de excelência. Tire a prova de suas (muitas) virtudes conferindo a exibição, seguida de debate, dessa joia com status de maldita nesta quinta-feira (26), às 18h, nas Casas Casadas, em Laranjeiras.
Tem um cineclube semanal correndo solto naquele espaço, coladinho à Riofilme. Semana a semana, cineastas de quilate autoral vão lá falar de suas estéticas. Esta semana, Neville tem a palavra. Nascido em 1981, o octogenário campeão de bilheteria segue ativo - e imbatível - na criação de curtas-metragens, médias e longas documentais e exercícios de artes visuais.
Escrito pelo realizador com Ezequiel Neves e João Carlos Rodrigues, "Rio Babilônia" acompanha os sete últimos dias de um ano que está a terminar na polis carioca. A beleza e a grandiosidade da cidade são observadas em vista aérea. O fixer ("arranjador") Marciano (Joel Barcelos, em hipnótica atuação) nos conduz pela cidade. Típico carioca, sobrevive de eventuais trabalhos como um faz-tudo. No momento retratado, vive um devir guia turístico, no qual acompanha o Dr. Liberato (Jardel Filho), apelidado Mr. Gold, um contrabandista de ouro que volta ao país. Vera Moreira (Christiane Torloni) é uma jornalista corajosa que tem informações contra Mr. Gold e por isso corre perigo. Vera e Marciano se conhecem e ela o faz cúmplice do seu projeto de denunciar Liberato. Marciano também acompanha Linda Lamar (Pat Cleveland), uma estrela internacional em busca do exotismo do país. Ela se apaixona por Bira (Antônio Pitanga), que é um passista de escola de samba. Nos festejos de fim de ano, uma festa extravagante vai unir... e entorpecer... essa fauna toda, numa Comédia Humana das loucuras de um Brasil na reta final do jugo militar.
"Por culpa dos fariseus da cultura, eu filmei menos do que merecia", reclamou Neville num desabafo recente ao Correio da Manhã. "Vivemos uma política do 'Um edital na mão e nenhuma ideia na cabeça' no país. Tem muita gente que não conhece a história do nosso cinema por aí... trabalhando a mil, mas de forma colonizada".
Paralelamente à projeção nas Casas Casadas, Neville ocupa a Netflix com o já citado "A Dama do Lotação". É o mais bem-sucedido mergulho do cinema nacional na obra de Nelson Rodrigues (1912-1980), em cifras... e em provocação.
Egresso de narrativas experimentais patrulhadas pela Censura, como "Jardim de Guerra" (1969), o cineasta negociou com Nelson Rodrigues (1912-1980) a possibilidade de filmar o texto literário que serve de pavimento ao roteiro de "A Dama...", a fim de fazer dele um tratado libertário sobre o empoderamento de uma mulher oprimida em seus desejos. Solange é desenhada na tela por Sonia como signo de gestos aparentemente simples, que se agigantam poeticamente em sua forma de se impor pelo exercício do prazer. Muitos dos hábitos e práticas que o filme retrata foram esmagados sob o peso da História e, nos novos tempos, soam ásperos na tela. A fúria com que Neville se impõe contra o moralismo e o afogamento da sublimam imagens que nos sufocam, sob a direção de fotografia dionisíaca e cálida de Edson Santos. Em sua trama, uma violência conjugal é o "Basta!" que deflagra uma revolução.
Após ser abusada pelo marido na noite de núpcias, Solange passa a rejeitá-lo. A partir daí, faz de um ônibus seu Tinder mecânico particular, buscando encontros aleatórios. A canção de Caetano Veloso, "Pecado Original", tonifica o percurso da personagem ao dizer "Todo beijo, todo medo/ Todo corpo em movimento/ Está cheio de inferno e céu/ (...) Tempo da Serpente, nossa irmã/ Sonho de ter uma vida sã". Esses versos e demais estrofes de Caetano vão se repetir ao longo de 110 minutos, como uma ladainha de louvação à democracia afetiva.
Na Prime Video da Amazon, é possível conferir o documentário "Neville d'Almeida: Cronista da Beleza e do Caos" (2018), feito pelo crítico Mario Abbade e lançado no Festival de Roterdã.