Mastroianni pós-moderno
Circuito carioca se comove com a atuação do arlequim italiano Toni Servillo em 'A Graça', sua nova parceria com o diretor Paolo Sorrentino, que lhe rendeu prêmio no Festival de Veneza
Circuito carioca se comove com a atuação do arlequim italiano Toni Servillo em 'A Graça', sua nova parceria com o diretor Paolo Sorrentino, que lhe rendeu prêmio no Festival de Veneza
Estima a imprensa da Itália que se "Scherzetto" ficar pronto a tempo do 79° Festival de Cannes, que vai de 12 a 23 de maio na Côté d'Azur, um potencial candidato ao Oscar estará a pontos, a julgar pela excelência de seu protagonista, Toni Servillo. Aos 67 anos, ele foi escalado por Mario Martone, diretor napolitano de produções aclamadas (como "Nostalgia"), para interpretar o célebre ilustrador Daniele Mallarico, desenhista que vive em solidão até que se desenrola, ao longo de vários dias, um confronto inesperado com o seu neto, uma criança de imaginação fértil e indisciplinada.
Em paralelo, Servillo divide as telas com o germânico Sebastian Koch em "La Variante di Luneburg", de Gabriele Salvatores, que deve ficar para 2027. Sua agenda é cheia por culpa de desempenhos convulsivos como o que apresenta em "A Graça" ("La Grazia"), de seu habitual parceiro, Paolo Sorrentino, hoje em cartaz no Rio. A produção deu a ele a Copa Volpi, o troféu de Melhor Atuação do Festival de Veneza do ano passado. Quem entregou a ele a láurea foi a carioca Fernanda Torres, a quem ele tietou, com ardor de fã, ao elogiar a atuação da colega brasileira em "Ainda Estou Aqui".
"A Graça" é uma aula de atuação. Chamado apenas de Presidente e encarado como um indivíduo cindido entre o Ontem e o Amanhã, o juiz aposentado e atual chefe de estado Mariano De Santis - personagem de Marco Antonio "Toni" Servillo no filme - carrega um conflito em comum com todas as figuras oferecidas ao ator napolitano por Sorrentino: o desterro.
Assim como o escritor misantropo Jep Gambardella, que levou "A Grande Beleza" ao Oscar, há 12 anos, o estadista agora encarnado pelo maior astro da Itália na atualidade sofre com a falta de pertencimento. Seu país sucateou seus sonhos, assim como a Europa escanteou sua nação. Mesmo o cinema italiano, um dia encarado como o rival número 1 de Hollywood em matéria de invenção e de autoralidade (ali entre 1945 e o início dos anos 1980), foi para o banco de reservas do audiovisual. Mesmo filmografias de pátrias mais pobres que a sua - como a Romênia e a Hungria - hoje têm mais e melhor prestígio em maratonas de filmes. No entanto, sempre que Servillo e Sorrentino se juntam, a chance de encantamento - e de prêmios - é grande.
"O cinema que fazemos expõe as crises cultural do Ocidente, num momento repleto de medo e de perplexidade que acomete o Velho Mundo ao contabilizarmos as nossas perdas e perceber que viramos um museu a céu aberto", disse o astro, ao Correio da Manhã, em passagens de seus filmes pelo Festival de San Sebastián, no norte da Espanha, onde "A Graça" foi aclamada.
Antes, a produção inaugurou o Festival de Veneza. Na terra das gôndolas, essa dramédia saiu inflada de elogios ao acompanha a peleja de Mariano De Santis com o fim de seu mandato, o dilema da aprovação (ou não) do direito à eutanásia e a pulga atrás de sua orelha acerca de um possível adultério de sua finada companheira, a quem amou loucamente.
O apelo de Toni é forte, amparado na consagração que colheu no teatro, desde sua estreia, na década de 1970. Nascido na comuna de Afrágola, ele deu seus primeiros passos na telona em 1992, quando "Morte Di Un Matematico Napoletano" deu ao já citado Mario Martone o Grande Prêmio do Júri de Veneza. A popularidade internacional, contudo, só chegou em 2008, via Cannes, com dois longas que saíram premiados da Croisette: a comédia política "Il Divo", do amigo Sorrentino, e o thriller de máfia "Gomorra", de Matteo Garrone. O sucesso de ambos inaugurou uma nova fase para a Itália no cinema, conhecida como Renascimento, e que revelou expressões autorais a quilo.
"A realidade, quando exposta no cinema, seja com poesia, seja com crueza, fere, por expor os nossos desequilíbrios. As feridas que vem do teatro carregam o acolhimento de uma arte milenar da qual eu não arredo pé. É o meu berço e é onde eu me recarrego", diz Servillo.
Há cinco anos, ele ajudou Sorrentino a conquistar o Grande Prêmio do Júri de Veneza com "A Mão de Deus", que está na Netflix. Apoiando-se no êxito que viu o cineasta alcançar por lá em 2021, Alberto Barbera, diretor artístico da competição pelos leões venezianos, afirmou no site do evento: "O retorno de Paolo à competição vem com um filme destinado a deixar sua marca por sua grande originalidade e forte relevância para o momento atual".
Na Prime Video da Amazon é possível conferir um título essencial da dobradinha Servillo & Sorrentino: "Silvio e Os Outros" (2019), mais conhecido como "Loro", que escancara as extravagâncias do estadista Silvio Berlusconi (1936-2023), que foi Primeiro-Ministro da Itália entre 1994 e 1995, 2001 e 2006 e entre 2008 e 2011.
"Toni é, antes de tudo, alguém em que eu posso confiar", disse Sorrentino em Cannes.
Com 1,81m de altura e calvície assumida, Servillo, casado com a atriz Manuela Lamanna, foi eleito em enquetes recentes na imprensa da Itália o ator mais sexy de seu país, destronando galãs como Elio Germano e Riccardo Scamarcio. É um Mastroianni pós-moderno, que já filmou com outros gigantes como Marco Bellocchio e Lorenzo Mattotti. "É uma honra trabalhar com criadores que têm voz própria", disse o ator.