Chuck Norris golpeia a Eternidade

Carateca que virou estrela de cinema ao enfrentar Bruce Lee marcou a História com filmes de um realismo cru, feitos como produções classe B

Por Rodrigo Fonseca

Chuck Norris em sua última aparição num blockbuster: "Os Mercenários 2"

Alfabetizada nas cartilhas do cinema de pancadaria pelas projeções de “Braddock II: A Missão” (1985) na “Sessão da Tarde”, a claque de internautas do Brasil que ama memes encontrou um novo lugar para Carlos Rey Norris (1940-2026), carateca especializado na arte sul-coreana do Tang Soo Do, que entrou as décadas de 1980 e 90 ensinou plateias do mundo todo a se deliciar com tramas de ação. Frase do tipo “Quando Chuck Norris nasceu, a única pessoa que chorou foi o obstetra. Nunca dê um tapa em Chuck Norris” espalharam-se pela web qual um mantra, até quando seus filmes pararam de ser exibidos na TV. Nos tempos em que as videolocadoras eram o Google (analógico) de cinéfilas e cinéfilos, cada novo lançamento com ele na capa alugava num piscar de olhos, inclusive as versões com episódios mais longos da série de televisão “Walker, Texas Ranger”, exibida de 1993 a 2001. Carlos... ou melhor, Chuck Norris apareceu antes de Sylvester Stallone virar divo, com “Rocky, Um Lutador” (1976), mas abriu caminho para que o ítalo-americano, assim como Arnold Schwarzenegger, Jean-Claude Van Damme, Steven Seagal e Dolph Lundgren se tornassem estrelas na lógica do “exército de um homem só”. Foi em 1972, que ele despontou, deixando de ser referência apenas para atletas de caratê, ao sentar o pé (e a muqueta) nas fuças de Bruce Lee (1940-1973) em “O Voo do Dragão” (1972) em lutas no Coliseu. O filme chegou a ser exibido no Festival de Cannes, em 2023.

Da década de 1980 até 1995, Norris foi o astro rei da empresa The Cannon Group, fábrica de filmes B de tiro e bomba, que decalcavam tudo o que Hollywood fazia, mas com orçamento menor. Se os grandes estúdios tinham Stallone como Rambo, a Cannon tinha Norris como o coronel James Braddock, um ás das lutas marciais que fez seu nome (e sua patente) nas matas do Vietnã e volta para lá atrás de entes queridos perdidos. O III longa da franquia foi exibido na “Tela Quente” em 1992 com pompas de superprodução e virou fenômeno de audiência. Antes, o SBT empapuçou-se dele como pôde em sua “Sessão das Dez”, ao exibir “Lone Wolf McQuade” (1983), entre nós “Lobo Solitário”, no qual CN peitava a estrela da série “Kung Fu”, David Carradine (1936-2009). “Invasão dos Estados Unidos” (1985) era outra paixão do canal de Silvio Santos.

Norris também ganhou fãs com “Comando Delta” (1986), entre Lee Marvin (1924-1987) e Hanna Schygulla, que a Globo reprisava com prazer. Norris, que chegou a ganhar uma série de desenhos animados, conseguiu se destacar em longas de um realismo mais cru, estruturado sob uma ótica quase documental, como “Força Destruidora” (1979) e “Vingança Forçada” (1982). No Brasil, Darcy Pedrosa, João Paulo Ramalho e José Santana foram as vozes mais recorrentes do ator, cuja morte, na quinta-feira, foi anunciada por sua família.

Em 2012, Norris fez seu último trabalho de fôlego: “Os Mercenários 2”, de Simon Wincer, com Stallone a seu lado. O eterno Balboa fala com ele em cena: “Soube que você foi picado por uma cobra”. Norris retruca: “Pois é, a obra morreu”.


Memes como esse integram o delicioso livro “The Truth About Chuck Norris: 400 Facts About the World's Greatest Human”, de Ian Spector.