'Velhos Bandidos', candidato a blockbuster nacional de 2026, não cabe na tela de celular
Cabe ao público lotar as salas de cinema e fazer jus a este misto de comédia e thriller de ação
Cabe ao público lotar as salas de cinema e fazer jus a este misto de comédia e thriller de ação
Um mês depois de uma conquista - histórica pro Brasil! - na Berlinale, onde seu mais recente projeto serializado, "Emergência 53", venceu o Studio Babelsberg Production Excellence Award, Cláudio Torres tem pela frente uma missão tão (ou mais arriscada) do que a de seus outonais personagens em "Velhos Bandidos": salvar as bilheterias brasileiras. Por "salvar", entenda-se dar ao país a sua primeira receita milionária num ano em que os lançamentos nacionais não decolam na venda de ingressos.
O todo-poderoso "O Agente Secreto" bateu a marca de 2,5 milhões de entradas vendidas, mas estreou em novembro do ano passado, e teve prêmios em Cannes, dois Globos de Ouro e quatro indicações ao Oscar. Tudo o que veio de janeiro até aqui não virou (nem de longe) blockbuster. Criador da série sobre o SAMU com Márcio Maranhão e Andrucha Waddington de que Berlim tanto gostou, Cláudio conta com uma força da natureza chamada Fernanda Montenegro como chamariz de um roteiro metade comédia, metade ação que escreveu com Fábio Mendes e Renan Flumian. O par de Fernandona é igualmente titânico em tempo de carreira, em rendimento em cena e em carisma: Ary Fontoura. Não bastassem os dois, o realizador de "A Mulher do Meu Amigo" (2008) e (da obra-prima) "Redentor" (2004) dá holofotes a três estrelas de gerações mais recentes: a caxiense Bruna Marquezine e os baianos Vladimir Brichta e Lázaro Ramos.
"Este elenco não cabe numa tela de celular, nem numa televisão. É um elenco para ser apreciado no cinema e, minha gente, vão no assistir na primeira semana, por favor. Não deixa para a segunda semana, não. Neste momento em que o cinema, no mundo todo, vive uma crise, com dificuldade de atrair gente para as salas, transmitam esse recado: 'Lawrence da Arábia' não cabe num celular; Duna' não cabe num celular; O filme do Kleber (Mendonça Filho, no caso, "O Agente Secreto") não cabe num celular; este filme não cabe num celular. Convidem a garotada de vocês a largar o tablet e arrastem esse público para as salas. Estamos no meio de uma guerra", diz o cineasta (que é filho de Dona Fernanda) durante uma coletiva de imprensa, em Copacabana, na qual, vez por outra, precisava dar um "toque" na diva dos palcos e das telas. "Mãe, vai pegar mal a senhora ficar elogiando seu filho toda hora".
Havia uma razão além do amor para a corujice de Fernandona, que, em 2025, viu a irmã de Cláudio, Fernanda Torres, ganhar o Globo de Ouro, por "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles. Aliás, nesse longa, que conquistou o Oscar, as duas dividiam o papel central. A razão do mimo de Fernanda é: o projeto foi idealizado pelo realizador carioca para a veterana estrela para que ela pudesse se deleitar com um dos registros narrativos de que mais gosta: o riso.
"O Cláudio sabe que eu adoro comédia. Fiz muitas, mas no teatro. No cinema, nem tanto", dizia a atriz.
Na estreia, sua cria retrucava: Este filme é uma celebração à Dona Fernanda e quando eu procurava gente para compor o elenco, bastava dizer que ela estaria para as pessoas aceitarem", diz Cláudio, que arrebanhou ainda Reginaldo Faria, Vera Fischer, Teca Pereira, Hamilton Vaz Pereira, Tony Tornado, Laila Garin e Nathalia Timberg para uma narrativa cheia de reviravoltas.
Ao lado do filhote, na conferência de imprensa, Fernandona era só orgulho: "Este é um filme que tem cinco protagonistas. Quando é que já se viu coisa assim? Tudo era uma festa. Dava até pena quando acabava o dia de filmagem", disse a estrela de marcos como "A Falecida (1965) e "Central do Brasil" (Urso de Ouro de 1998), hoje com 96 anos. "De cada filme que participei, ficou uma coisinha em mim. Um traço, uma lembrança. Aqui tem estilo".
Há um ano, ainda em meio ao furacão "Ainda Estou Aqui", Fernandona arrastou cerca de 700 mil pagantes ao circuitão para conferir "Vitória", um thriller baseado em fatos reais no qual uma senhora registrava as ações do tráfico com uma câmera e denunciava a podridão da PM em conluio com os mercadores de droga.
Espera-se até mais de "Velhos Bandidos", no qual ela interpreta Marta, crânio por trás de um golpe que aplica com o apaixonado marido, Rodolfo (Ary Fontoura). Eles vivem um casal longevo que planeja um ousado assalto a banco, motivado não apenas pelo desejo de lucrar, mas para dar o troco numa sociedade chegada ao etarismo. Para cumprir com a tarefa, eles vão precisar da ajuda de um casal golpistas profissionais mais jovens para realizar o roubo perfeito. Encontram a solução no duo Nancy (Bruna Marquezine) e Sid (Vladimir Brichta). Os quatro armam uma engenharia de rapinagem de deixar Danny Ocean (o ladrão vivido por George Clooney) de "Onze Homens E Um Segredo" (2001) orgulhoso. Há só um entrave a caminho, na cola do quarteto: Oswaldo (Lázaro Ramos), obstinado investigador que não se comove com rugas no rosto.
Cláudio, que é leitor contumaz de HQs ("sou do tipo que compra 'X-Men' na banca todo mês", confessa), imprime um timbre cartunesco super colorido, meio quadrinhos ("Dick Tracy") meio desenho animado ("Pantera Cor-de-Rosa") em "Velhos Bandidos".
"É completamente HQ mesmo, ainda que saia sem querer", disse o diretor, em resposta ao Correio da Manhã. "Você usa uma estrutura como essa, de comédia de ação, para dizer coisas profundas e falar de vide e morte... falar de vingança".
Em seu currículo de ação, com muito videoclipe e série boa ("Reality Z", da Netflix, é colossal), Cláudio dirigiu dois longas com status de arrasa-quarteirão no faturamento: "O Homem do Futuro" (2011), com Wagner Moura, visto por 1.203.456 espectadores, e "A Mulher Invisível" (2009), que vendeu 2.353.136 tíquetes. Tarimba (de sobra) ... e um filme bombado... ele tem para alegrar a vida das redes exibidores. Agora cabe ao público fazer a sua parte.