Brasil em pílulas
Curta Cinema abre tela no dia 25, com 130 títulos de variados cantos do planeta e uma variada presença do Brasil em narrativas que misturam gêneros
Curta Cinema abre tela no dia 25, com 130 títulos de variados cantos do planeta e uma variada presença do Brasil em narrativas que misturam gêneros
Única produção com DNA brasileiro a sair laureada do Festival de Locarno em 2025, "O Rio de Janeiro Continua Lindo" de Felipe Casanova, um painel de 24 minutos de luto, renovação afetiva, confete, carioquice e fé nesta cidade tem um pouso assegurado por aqui na abertura do Curta Cinema. Uma das mais antigas (e prestigiadas) maratonas de poéticas do audiovisual em pílulas na América Latina, o evento chega à sua 35ª edição em 25 de março e segue até 1º de abril, 130 filmes de cineastas de todo o mundo.
O Estação NET Rio será o lar da programação, que tem entrada gratuita. A seleção deste ano reúne curtas de 33 países. A safra local vem de 15 estados distintos, com pérolas egressas de Roraima ("Ascensão da Cigarra", de Ana Clara Ribeiro), de Goiás ("Canto", de Danilo Daher Alvarenga), do Paraná ("Thayara", de Mila Leão), de Pernambuco ("Os Ursos e Nós", de Maria Acselrad). A lavoura carioca conta com um achado lá de Cannes: "Samba Infinito", de Leonardo Martinelli. Gilberto Gil faz parte de seu elenco.
"A programação é bastante variada no que diz respeito aos temas abordados. A linha curatorial do festival privilegia o contraste e a multiplicidade, e a mostra competitiva reflete bem essa amplitude: ela vai do resgate de tradições indígenas, em 'Maria Porongyta - O Aviso do Céu', ao body horror urbano com humor tipicamente paulistano de 'Urticária Incandescente', explica o coordenador de programação do Curta Cinema Paulo Roberto Jr.
"Do ponto de vista formal, destaca-se uma clara tendência ao hibridismo. Muitos filmes transitam entre documentário, ficção, experimentalismo e animações multitécnicas, frequentemente combinando gêneros. Em alguns casos, esse cruzamento torna as obras difíceis de enquadrar em categorias convencionais, como ocorre em 'Cabeça de Boi' e 'A Ascensão da Cigarra'. Essa tendência não é exclusiva da produção brasileira: trata-se de um movimento perceptível no curta-metragem contemporâneo em escala global".
Segundo Paulo Roberto Jr., embora o Curta Cinema não seja um festival de cinema experimental stricto sensu, a seleção deste ano revela uma disposição maior ao risco estético do que se observava há cinco anos.
"Também é notável o crescimento da receptividade do público a propostas mais radicais. No ano passado, por exemplo, um dos filmes mais celebrados pela plateia — e vencedor do Grande Prêmio Internacional, 'Green Gray Black Brown' — apostava justamente em um experimentalismo bastante ousado e radical", explica o curador, cujo cardápio estrangeio tem México ("La Mar", de Jean Chapiro Uziel), Cuba ("Los Peces no se Ahogan", de Lea Vidotto Labastie), Chile ("Merrimundi", de Niles Atallah) e Colômbia ("Borrachos Mientras Escuchamos Las Gotas Caer", de Santiago Gómez Ramírez) num recorte de nuestros hemanos de Pangeia latina.
Pai, tutor, diretor e produtor do Curta Cinema, Ailton Franco lemvra de que uando o festival foi criado ainda havia a produção de curtas em película, 35mm e 16mm, e eles estavam alcançando relevância e prêmios no cenário internacional e nacional de festivais de cinema, mas não tinham mais as telas das salas comerciais para sua exibição antes de longas estrangeiros.
"A Lei do Curta (dispositivo legal responsável pela projeção de produções de até 30') foi extinta, mas a produção de filmes no formato continuava em alta. O cinema brasileiro sofreu um golpe na época e produzir curtas foi uma forma de manter viva a produção em cinema e deixar os profissionais atuando. O festival foi criado para que os filmes alcançassem o público, que já se familiarizava com curtas antes dos longas", explica Ailton.
Em sua jornada em prol do curta, ele encontrou no Grupo Estação um grande parceiro de décadas.
"A programação das salas e seu público agrega muito valor, pois acreditamos que é o mesmo perfil do público do festival", diz Ailton.
Entre as pepitas que o Curta Cinema garimpou, merecem realce ainda
"Vulto Sagrado", de Daniel Caetano; "Boiuna", de Adriana de Faria; o luso "A Emancipação de Mimi", de Marcelo Pereira; e o libanês "Faux Bijoux", de Jessy Moussallem.