Nosso mito fundador ganha novas telas
'Por Onde Anda Makunaíma?', de Rodrigo Séllos, ganhador do Festival de Brasília de 2020, não teve espaço em circuito, mas encontra lugar no Curta!On
'Por Onde Anda Makunaíma?', de Rodrigo Séllos, ganhador do Festival de Brasília de 2020, não teve espaço em circuito, mas encontra lugar no Curta!On
Já tem data para o É Tudo Verdade, a maior (e mais politizada) vitrine de não ficção da América Latina: sua 31ª edição vai de 9 a 19 de abril. É o período do ano em que os holofotes em torno das narrativas documentais reluzem mais fortes, abrangendo também as fronteiras online, nas plataformas digitais. É o tempo ideal para a Netflix, a Prime Video e etecétera despejar pérolas documentais em suas programações. Na atual configuração do streaming brasileiro, um filme se impõe como atração obrigatória e está no Curta!On, disponível a seus assinantes: "Por onde anda Makunaíma?". A direção (das mais arrojadas) é de Rodrigo Séllos. É uma produção egressa de Roraima, com 84 minutos de afirmação de identidade na veia, em um estudo sobre os mitos que fundam a Pangeia latina, a partir do legado das populações indígenas.
Seu prestígio vem de sua vitória no Festival de Brasília, em 2020, de onde saiu com o prêmio principal. Nunca estreou comercialmente, pela dificuldade de nosso circuito em lidar com experiências narrativas de baixo orçamento, mas virou um objeto de culto.
Sua presença no Curta!On coincide com uma nova versão para as telas do livro de Mário de Andrade (1893-1945): "Makunaima XXI", de Zahy Tentehar e Felipe M. Bragança. Um astro francês de prestígio, Denis Lavant, está nesse elenco. Sua realização, ainda em processo, prova o quanto aquele romance segue vive. A forma como Sellos o esmiúça sob a lupa da História é mesmerizante.
Centrada na herança mítica dos povos fundadores, a investigação semiótica de Séllos é uma universidade de múltiplos saberes, concentrados no estudo da figura de Makunaíma - mais lembrado pela avassaladora prosa marioandradiana, na qual o nome do personagem se escreve com "c" e não com "k" - como uma síntese da brasilidade em sua concepção mais revolucionária, desbundada, tropicalista. Ao longo de sua narrativa, a plateia entra numa imersão em conceitos de Antropologia, Cinema Moderno, Teatro e Geopolítica, sempre a partir de um debate sobre os movimentos de vanguarda da arte. Uma frase do hoje nonagenário produtor Luiz Carlos Barreto, responsável pelo sucesso de bilheteria "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), serve como um farol para esta narrativa de uma convulsiva (e, também, reflexiva) montagem: "O Brasil se perderá definitivamente na hora que renegar Macunaíma".
Pautado em um roteiro sólido como rocha, construído a partir de uma estrutura assinada por Juliana Colares (alimentada por uma pesquisa feita por ela e Klaus Schmaelter), o filme de Séllos parte do registro de Makunaima como sendo um mito para povos da tríplice fronteira Brasil-Venezuela-Guiana, registrado em livro pela primeira vez no início dos anos de 1910, pelo etnólogo alemão Koch-Grünberg. É ele quem faz a ponte entre o extremo norte da América do Sul com o Brasil, por meio de Mário de Andrade.
Partindo de um rastreio etnográfico e de uma atomização da rapsódia andradiana, o cineasta engata um voo pelo Cinema Novo, para fazer a geologia das cordilheiras semióticas que o realizador Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) erigiu ao levar Macunaíma às telas, em 1969, com Grande Otelo (1915-1993) e Paulo José (1937-2021). Este tem uma delicada aparição no .doc, em meio a depoimentos analísticos de Heloísa Buarque de Hollanda e Hernani Hefner. Igualmente delicada é a fala de Antunes Filho (1929-2019) sobre a versão do Herói Sem Caráter para os palcos, questionando a repressão contra o espetáculo. Repressão, aliás, é uma das palavras mais revisitadas (e espatifadas) por Séllos, em especial num desabafo do ator Cacá Carvalho (parceiro de Otelo no filme "Exu-Piá", outra releitura do personagem) a dizer: "Aquela força de 'Macunaíma' foi uma resposta a um tempo terrível. Talvez esteja para aparecer uma outra resposta de força artística diante desse horror que está se configurando desses tempos politicamente… vergonhosos".
Entrando no Curta!On para buscar o longa de Séllos, aproveita e se delicia com as joias que estão ali. Ensaios documentais sobre titãs do samba que mobilizaram festivais brasileiros nos anos 2000 hoje se depositam nas estantes virtuais desse streaming, fazendo dele uma Marquês da Sapucaí na streaminguesfera. O melhor exemplo é "Cartola - Música Para Os Olhos" (2006), da dupla pernambucana Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. Seguem a mesma toada retratista "Candeia" (2018), de Luiz Antonio Pilar, e "Lupicínio Rodrigues: Confissões De Um Sofredor" (2023), de Alfredo Manevy. Outro golaço do www.curtaon.com.br é "Damas do Samba" (2015), de Susanna Lira, com relatos de Alcione, Beth Carvalho, Tia Surica, Rosa Magalhães, Leci Brandão, Nilcemar Nogueira, Ivone Lara, Marienne de Castro.
Num terreno da inclusão, o Curta!On celebra a força da educação como motor do humanismo ao escalar "Atravessa a vida" (2021), de João Jardim. O longa acompanhou o cotidiano de uma turma do 3º ano, no interior do Sergipe, que se preparava para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), em 17 de janeiro de 2021. O documentário mergulha no universo escolar e adolescente dos jovens de Simão Dias, cidade de 40 mil habitantes no interior sergipano. O Centro de Excelência Dr. Milton Dortas, escola com cerca de mil alunos, representa um recorte das dificuldades na educação brasileira. Enquanto buscam o sonho de garantir um ensino superior gratuito, os alunos refletem temas urgentes - dentro e fora de sala de aula - como futuro, depressão, aborto, pena de morte e Ditadura Militar.