E o Oscar foi para PT Anderson

Brasil volta para casa sem estatuetas, pois a Academia de Hollywood se dobrou a 'Uma Batalha Após A Outra', consagrando ainda a luta decolonial de 'Pecadores'

Por Rodrigo Fonseca

Sean Penn ganhou seu terceiro Oscar, agora pelo desempenho como o coronel Steven J. Lockjaw em "Uma Batalha Após A Outra"

Ainda não foi desta vez o bicampeonato do Brasil na festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: o Oscar NÃO foi para “O Agente Secreto”, pois preferiu coroar a Noruega de Joachim Trier e do doído “Valor Sentimental, com seu prêmio de Melhor Longa Internacional. Já o prêmio principal do evento, realizado no domingo em Los Angeles, o Oscar de Melhor Filme - a que também estávamos indicados -, acabou por fazer justiça em âmbito geopolítico ao parar nas mãos de um tratado contra a sanha trumpista: “Uma Batalha Após A Outra” (“One Battle After Another”). O thriller de Paul Thomas Anderson reinou absoluto ao vencer em seis categorias. Já na HBO MAX, a produção fez a festa no Globo de Ouro, há dois meses, e repetiu a disposição para brilhar entre seus pares hollywoodianos ao render a seu realizador o Oscar de Direção. Seu cineasta, um californiano de 55 anos, consagrado antes por “Magnólia” (Urso de Ouro de 2000) e “Sangue Negro” (2007), abocanhou ainda a estatueta de Roteiro Adaptado. Coube a seu longa também o prêmio de Melhor Escalação de Elenco, categoria estreante à qual “O Agente Secreto” também concorria.


Da trupe estelar de PT Anderson, houve uma láurea de Coadjuvante para Sean Penn, que faltou à premiação. De quebra, um Oscarzinho de Melhor Montagem pavimentou de vez sua glória. Sua arrecadação, estimada em US$ 206 milhões, impressionou a Academia. É a trama mais irônica com Trump de todo o Oscar. Fala de uma organização rebelde que é desmantelada pelas Forças Armadas dos EUA, depois que uma de suas mais operativas mais corajosas, Perfidia, some, o que gera uma caça a seu ex-namorado (Leonardo DiCaprio) e à filha deles, Willa (Chase Infiniti), perseguidos pelo militar estrambótico Lockjaw (Penn, em interpretação colossal).

Paralelamente ao êxito de “Uma Batalha Após A Outra”, a Academia eternizou uma saga de combate à intolerância racial: “Pecadores” (“Sinners”), uma alegoria decolonial de Ryan Coogler. Foi... de longe... o melhor longa-metragem do primeiro semestre de 2025, com um faturamento de US$ 370 milhões. Com a alta de seu cacife nos preparativos da cerimônia da Academia, o longa volta a pipocar por telonas de todo o mundo, consagrando-se como exemplar do filão terror antirracista, o mesmo que gerou “Corra!” (2017) e “Nós” (2019). Seu realizador, Ryan Coogler (de “Creed”), bateu a barreira do bilhão, em 2018, com “Pantera Negra”, e vem agora tratar de vampiros e da Ku Klux Klan. Ambas as forças das trevas vão atazanar os juízos de dois irmãos, empresários do ramo etílico, que dão ao blues lugar de honra em seus negócios. Tais negociantes, os manos bons de tiro Elijah Smoke e Elias Stack, gêmeos idênticos, têm B. Jordan, como intérpretes, numa atuação em (duplo) estado de graça. Ele ganhou o Actors Award (a láurea do Sindicato dos Atores) no dia 1°.

“Uma das coisas que este filme representa de mais forte é contrariar a suposta incapacidade de pessoas negras para alcançarem impacto global no entretenimento. Nós conseguimos”, disse B. Jordan em entrevista ao CORREIO DA MANHÃ organizada pela Golden Globe Foundation. “Este é um filme que teve impacto global, tal como ‘Pantera Negra’ teve antes dele. E isso fala não só da nossa resiliência, mas do gênio, quando temos um líder como Ryan Coogler a apresentar um material original vindo de suas próprias reflexões. Sua genialidade resiste”.

Autumn Durald Arkapaw, fotógrafa de “Pecadores”, ganhou o Oscar de sua categoria pelo filme derrotando, entre seus rivais, o paulista Adolpho Veloso, indicado por “Sonhos de Trem”, que estreou na Netflix. Apesar de o Brasil ter perdido nessa frente, a consagração de Autumn é um marco para as mulheres negras que ampliam sua presença – e seu reconhecimento – em áreas técnicas do audiovisual antes dominadas por homens. “Eu não cheguei aqui sozinha, mas com a força de todas vocês”, disse, referindo-se às profissionais na plateia.

Agraciado de forma histórica por “Pecadores”, o terror fez gol ainda na categoria que abriu a festa, a de Melhor Atriz Coadjuvante, com o troféu dado a Amy Marie Madigan, aos 75 anos, pela soturna composição da bruxa tia Gladys em “A Hora do Mal” (“Weapons”). O filme, que custou US$ 38 milhões, faturou sete vezes mais à força de viradas de roteiro sucessivas, envolvendo o sumiço de crianças de uma escola. Cada virada dessas traz Gladys num estado mais tenebroso do que o outro. “Frankenstein”, outro representante do horror na festa, ampliou o placar das forças das trevas ao vencer nas frentes de Melhor Figurino, Direção de Arte e Maquiagem.

No território das melhores atuações dramáticas do Oscar, Jessie Buckley, hoje em cartaz com “A Noiva!”, foi galardoada com a honraria de Melhor Atriz por “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, que encerrou o Festival do Rio e mobiliza salas de exibição no Brasil. Jessie interpreta Agnes, a companheira de William Shakespeare que sofre com a perda de um filho. Este tristíssimo estudo sobre resiliências teve Steven Spielberg como produtor.

Dos quatro concorrentes do pernambucano Kleber Mendonça Filho na categoria Melhor Filme Internacional, de língua não inglesa, “Valor Sentimental” destronou os sonhos de “O Agente Secreto” em parte pela potência dramática do ator sueco Stellan Skarsgaard, que concorria como Melhor Coadjuvante, mas perdeu para Sean Penn deixar. O norueguês Joachim Trier venceu com uma história de amor triangular que envolve cinema, teatro e família. Um prestigiado documentarista escandinavo que um dia foi uma espécie de Bergman (vivido por Stellan) procura sua filha, uma atriz teatral de tarimba (Renate Reinsve), com o projeto de uma ficção. O tal filme recria o suicídio de sua mãe, avó da jovem. Na competição de Cannes, esse estudo sobre culpa, remorso e perdão de Trier ganhou o Grande Prêmio do Júri, a láurea de maior peso logo depois da Palma dourada. O cineasta vem fazendo sucesso em solo americano com “Mais Forte Que Bombas” (2015) e “A Pior Pessoa do Mundo” (2021), que fez de Renate uma estrela no âmbito dramático.

No âmbito das animações, a estatueta de curtas ficou com “The Girl Who Cried Pearls”, de Chris Lavis e Maciek Szczerbowski, e a de longas com “Guerreiras do K-Pop”, da Netflix, que confirma o prestígio da estética de dramaturgia adolescente sul-coreana.

No canteiro da Não Ficção, a Melhor Longa Documental foi “Mr Nobody Against Putin”, de David Borenstein, Pavel Talankin, Helle Faber e Albta Karásková. Em sua tensa narrativa, o videoartista e educador Talankin trabalh numa escola em Karabash, uma cidade mineira pobre perto dos Montes Urais. Ao filmar os seus alunos, ele também documenta as medidas do governo de Putin para controlar a opinião pública durante a guerra em curso entre a Rússia e a Ucrânia.

Terminado o Oscar, começa a expectativa pelo Festival de Cannes, que inaugura sua 79ª edição no dia 12 de maio, com o sul-coreano Park Chan-wook como presidente do júri.

 


Premiação do Oscar 2026:


Filme: “Uma Batalha Após A Outra”, de Paul Thomas Anderson
Direção: Paul Thomas Anderson (“Uma Batalha Após A Outra”)
Atriz: Jessie Buckley (“Hamnet”)
Ator: Michael B. Jordan (“Pecadores”)
Atriz Coadjuvante: Amy Madigan (“A Hora do Mal”)
Ator Coadjuvante: Sean Penn (“Uma Batalha Após A Outra”)
Melhor escalação de Elenco: Cassandra Kulukundis (“Uma Batalha Após A Outra”)
Roteiro original: Ryan Coogler (“Pecadores”)
Roteiro Adaptado: Paul Thomas Anderson (“Uma Batalha Após A Outra”)
Montagem: Andy Jurgensen (“Uma Batalha Após A Outra”)
Fotografia: Autumn Durald Arkapaw (“Peecadores”)
Direção de Arte: Tamara Deverell e Shane Vieau (“Frankenstein”)
Maquiagem e cabelo: Mike Hill, Jordan Samuel e Cliona Furey (“Frankenstein”)
Figurino: Kate Hawley (“Frankenstein”)
Melhor Filme Internacional: “Valor Sentimental”, de Joachim Trier (Noruega)
Curta documental: “All the Empty Rooms”, de Joshua Seftel e Conall Jones
Curta animado: “The Girl Who Cried Pearls”, de Chris Lavis e Maciek Szczerbowski
Curta de ficção live action: empate entre “The Singers”, de Sam A. Davis e Jack Piatt e “Two People Exchanging Saliva”, de Alexandre Singh e Natalie Musteata
Canção: Ejae, Mark Sonnenblick, 24, Ido e Teddy Park por “Golden”, de “Guerreiras K-Pop”
Trilha sonora: Ludwig Göransson (“Pecadores”)
Som: Gareth John, Al Nelson, Gwendolyn Yates Whittle, Gary A. Rizzo e Juan Peralta (“F1”)
Efeitos visuais: Joe Letteri, Richard Baneham, Eric Saindon e Daniel Barrett (“Avatar: Fogo e Cinzas”)
Documentário: “Mr Nobody Against Putin”, de David Borenstein, Pavel Talankin, Helle Faber e Albta Karásková
Animação: “Guerreiras do K-Pop”, de Chris Appelhans e Maggie Kang